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Pérolas aos homens, mesmo

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Tenho procurado combater certas dependências. Mas como é difícil! Não apenas porque o acesso à droga é um estalar, ou melhor, um movimentar de dedos, mas também porque negá-la é quase que condenar-se ao isolamento.
-“Credo! Mas você ainda está na caverna?”.
Só porque não sabia, ou não soube, sobre o quê estavam falando quando me perguntaram a opinião sobre o sentido do quarto branco e as intenções de manter as pessoas isoladas, ainda que conviventes, ali. - O quê? (Cara de quem imagina ser uma brincadeira dessas que há uma combinação prévia e a pergunta é para confirmar a afirmação; não raro há uma aposta envolvida.)
Na tentativa de plugar-me, isso, plugar-me, nas notícias, deixo a poeira acumular nos biscuits (biscuís mesmo) e intenciono ir para detrás da telinha. Telinha mesmo! Acho que umas duas polegadas ou duas e meia, se muito. Diz uma amiga minha que é uma forma de desprezo ao moderno, ao tecno, ao hight. Raigue? A Dona Merislawa, mais realista: “tá falido o seu Robis!”. Na dela: “I tô. Pior, tróque a primera vogal i a segunda consoante...”. Chamei-a para o chimarrão e falei-lha (que horror) da intenção, intenção não, necessidade, de atualização, contemporização, modernização dos conceitos. Ela veio.
Primeira imagem uma matéria que não era sobre a longevidade, nem sobre os estilos de vida que podem levar a um superamadurecimento supersaudável. Mas não. Era uma senhorinha (a despudorada da Merislawa dizia uma véinha de uns quinhentos e tantos anos, mais ou menos), que mal se conseguia: ouvir, falar, se movimentar, se tudo... mas acharam ela e a repórter:
-E como a senhora se sente?
-(silêncio e o microfone na cara da senhorinha esperando a resposta)
Aqueles olhinhos amiudados pelo tempo já não precisavam ser importunados pela curiosidade. Se a vida concentrada merece uma matéria jornalística, que se respeite a sua história e se enalteça a sua luz. Jamais se explore a realidade transparente da fragilidade moldada pelo próprio tempo.
A Dona Merislawa: “Ah se fosse eu, seu Robis, pegava esse microfone i dava tanto na cabeça dessa repórter i depois de cacetiá muito ela ia oiá bem pra ela, na singularidade da ternura, i dizê: assim queu misinto!”
Canal mudado e a cobertura total das recentes enchentes no mundo inteiro.
- Sabe, seu Robis, as vêiz eu fico pensando que se tivesse menos asfalto nas rua ia ter mais terra pra chupá as água da chuva.
Primeiro faço um sinal de silêncio para ela e vôo tapar sua boca com as minhas mãos. Ela, que segurava a cuia com a mão esquerda e ia enchê-la, assustou-se e quase se afogou:
-Tá ficando loco?
-Pssiiuuu! Já imaginou se os caras escutam a senhora falando isso? Já imaginou se essa teoria maluca acaba pontuando a justificativa para não passarem calçamento em frente aqui de casa? Já imaginou se...
-Mais como cocê é tongo mesmo, seu Robis. In veiz de querê asfalto na rua, tente convencê os cara a fazê uma lei que dá róialti pra quem não tem calçamento na frente de casa! Veja bem qué até justo as pessoa pagá pras otras não querê asfalto nem calçamento nem nada. I aquelas que já tão recebendo a trocentésima camada de asfalto tem que pagá mais ainda pros que tão mantendo as capacidade de absorção das água da chuva i tão contribuindo pra evitá as inchente.
-Pois olha Dona Merislawa, acho que a senhora tem razão. Não custa nada propor essa compensação. Tenho certeza que todas as pessoas que tem asfalto em frente às suas casas vão fazer questão de pagar um imposto extra para que nós, os involuntários heróis do equilíbrio planetário mantenhamos essa involuntariedade. Muito lúcida a sua percepção, principalmente em relação àqueles que já estão na trocentésima, como a senhora mesmo disse, camada.
Nova mudança de canal, muito lixo, muita desinformação e muita exploração. Como poderemos, eu e a Dona Merislawa, nos surpreender com as escolhas eletivas se ainda há, e como há, quem se disponha a pagar para escolher nada? Mas como ela mesma disse: “é que tem umas pessoa que são ignorante por ser ignorante i tem otras que acham chique ser ignorante; de igual elas tem que não sabem que são.”
Na derradeira busca imagens fantásticas da olimpíada de inverno. Pérolas.

Ed. 508 03/03/2010

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