Dois mil e dez, pra mim, começou bem na contramão. Não como vitima preferencial, mas como parte dos perdedores. Primeiro foi o falecimento de Dona Zilda, depois o do poeta daqui Foed Castro Chamma. É engraçado como uma notícia sobre uma pessoa a quem não se teve – no caso – a grata satisfação de ter conhecido pessoalmente nos deixa sem norte, sem chão, sem referência. Peguei a informação na corrida, na TV, dizendo que Dona Zilda havia falecido, no Haiti, vitima do terremoto. A minha primeira pergunta, indignado, foi: mas o que que ela tava fazendo lá? Na bronca mesmo, como se ela tivesse que perguntar pra mim por onde deveria andar, aonde ir. Mais tarde, refletindo sobre o meu comportamento, descobri que Dona Zilda significava pra mim muito mais do que eu jamais havia imaginado. Descobri também que, hoje, ela era a versão da admiração que tive – e tenho – em tempos idos, por Dom Paulo Evaristo Arns, seu irmão. Engraçada outra constatação: nunca consegui vê-la como Doutora Zilda Arns; ela sempre foi Dona Zilda, mas Dona com “D”maiúsculo que, pra mim, é um termo muito mais reverente, respeitoso que Dra. Descobri também que pra ser qualquer Dr. vai-se pra escola, Dona é uma questão de formação, de caráter, de desapego por isso, acho, são poucas as com perfil pra serem tratadas como Dona. E Dona Zilda era. Inútil querer falar mais, não existem palavras pra traduzir o rosto sereno e o sorriso constante; a mão estendida em tempo integral, o gesto e a ação na hora e nos lugares onde eles eram necessários. Acho que Deus tava precisando de alguém competente pra alguma missão importante e levou Dona Zilda. To de mal com Deus, ele não tinha o direito de fazer isso conosco e nem com a Pastoral da Criança, pelo menos não agora.
O Poeta – Todo ano ele batia por aqui pra rever tudo, amigos a cidade a inspiração. A cidade era o seu tema. Ano passado ele não apareceu e eu estranhei. Não sabia o que andava acontecendo. De novo, no contrapé, vem a noticia: Marco, o Foed morreu. Reagiu a um assalto no Rio? Deslizamento? Bala perdida? Atropelamento? Quanta maldade a minha, né? Não! São as trapaças da sorte, a ironia, o Foed nunca fumou na vida e morreu de...câncer no pulmão. Também não importa o motivo, o que pesa é a perda do poeta, dos longos, anuais e didáticos papos, das discussões (como seu tivesse condição de) sobre a sua obra. Foed era poeta, ensaísta e tradutor; morava no Rio de Janeiro desde 1941. Foi vencedor de vários prêmios nacionais de poesia: Prêmio Olavo Bilac, da prefeitura do Distrito Federal (1958), Prêmio Nacional de Poesia (1985), Premio Jorge de Lima, da Universidade de Alagoas (1982), Prêmio Bienal Nestlé de Literatura Brasileira (1984). Melodias de Estio, 1953; Iniciação ao Sonho, 1955; O Poder da Palavra (1959); Labirinto (1967); Ir a ti (1969); O Andarilho e a Aurora (1971); Pedra da Transmutação (1984); Sons de Ferraria (1989); Antologia Poética (2001). Epigramas Latinos, Navio fantasma e Filosofia da Arte, também fazem parte de sua bibliografia. Traduziu A Feiticeira, de Michelet; O Livro dos Demônios, de Sinistrati de Ameno; Poemas, de Adan Mickiewicz, e As Bucólicas, de Virgílio. Então, caros, prum país tão carente de valores humanos significativos, começamos perdendo, e bastante. E pensar que sobra tanto entulho perdido nesses lamaçais que nos rodeiam que nem as enxurradas levam nos deixam mais tristes. Mas uma hora Deus dá um jeito.
Ed. 502 27/01/2010





