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Manchete de capa - II

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Manchete de capa: COLABORADOR DO HOJE CENTRO SUL MORRE, DE RAIVA, ENQUANTO ESCREVE.
Morreu aos quarenta e cinco anos de idade, vítima da raiva e um pouco de sono e mais um pouco de desalento, alimentador da desesperança, o colaborador do Jornal Hoje Centro Sul, o Sr. Eu Mesmo Escrevente.
O passamento duplamente anunciado, ocorreu, claro, porque senão não seria anunciado, não por acaso, quando o obitado resolveu encaminhar por e-mail parte dos seus escritos à redação do jornal com o qual vinha colaborando há alguns anos, mais especificamente desde pouco depois que o mesmo, o jornal, começou a circular.
De acordo com as investigações, pouco antes dos sintomas que o levariam ao óbito, o Escrevente dera início ao que seria a sua última crônica. Nela, abordaria os processos metamorfósicos ou metamorféticos pelos quaisa humanidade transita, fatalmente, confluindo para a natureza estrupícia das coisas, determinadas pela ilógica das frases feitas, umbilicalmente degradando-se nas incompreensões estapafúrdias, estampadas na estupidez. Viciado em aliterações, algumas almejadas; algumas algemadas; algumas, ainda, alcaptonuriadas; vivia voando no vazio da vida vadia.
Nas suas poucas e pobres palavras o falecido ponderava que a atual deficiência mundial de incompreensões ampliava-se na avaliação concreta das paredes de vidro, construidas com as sobras do telhado. Acredita-se que a individualização dessa análise, somada à ambiciosa razão compartilhada, tenham contribuido para o que foi, já que sequer a intenção de um riso vislumbrava-se na sua cara empalidecida e feia. Muito feia!
Escreveria, ainda, o finado, que estrupício, segundo o dicionário, pode ser coisa de grandes dimensões; asneira; asnice. Registrou-se-lhe, pós mortis, também, que os três sinais mais fortes que ornavam-lhe o canto dos olhos eram frutos do tempo e que os muitos fios embranquecidos dos parcos cabelos, mais do que um paradoxo, esmurravam-lhe a consciência, com marretas de neon, a lembrar-lhe das desgraças mundanas.
Algumas pistas sugerem que a causa mortis pode, também, estar relacionada a outras razões. Ou seja, o escrevente, ou melhor, “ex-escrevente” ou, melhor ainda e mais realista, o ex-aspirante a escrevedor, pode ter morrido de cansaço, pois o final de semana fora de intensas atividades libertadoras. Pode ter morrido de rir, pois o final de semana fora de intensas atividades libertadoras. Pode ter morrido de raiva, pois o final de semana fora de intensas atividades libertadoras. Pode ter morrido de vergonha, pois o final de semana fora de intensas atividades libertadoras. Ou ainda, pode ter morrido de pena, pois testes de laboratório apontaram que uma ave não rara, de plumagem estranha e aspectos amadeirados na cara, pousara-lhe aos ombros deixando-lhe algumas amostras das penas. No entanto, essa hipótese está quase descartada uma vez que não tem nada a ver com o empacotamento do escriba e também porque uma morte assim, por pena, não possui nome. Especialistas no assunto descartam toda outra razão, que não o sono, como causa fatal, uma vez que as primeiras horas do dia encontraram o cronista com o queixo enterrado no teclado; um fio de baba congelado no canto da boca e uma mariposa empoeirada debatendo-se entre a gola da camisa amarrotada e o pescoço idem.
No bolso furado do sobretudo foram encontrados indícios concretos de uma substância altamente degradante das saudades nunca sentidas e um esboço de requerimento para que a exemplo do rio, também uma rua merecesse a denominação, não, duas; não, três; das Antas.
-Seu Robis... Seu Robis... acorde!
-Oi Dona Merislawa, que saudade!
-Acorde seu Robis...
-Dona Merislawa, que saudade!
-Seu Robis, acorde!
-Cuidado, Dona Merislawa, tem uma cobra na sua cabeça!

Edição 483 - 02/09/2009

Capa desta Edição
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