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Jogando conversa fora

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Presumível leitor, vou fazer uma confissão e quero você como testemunha: domingo, a esta hora, 17:30 ou cinco e meia, se você quiser, começa o meu inferno, batucar estas mal-traçadas pro jornal da Sandra. Já falei disso antes, mas é sempre a mesma coisa. Aí você decreta: então pare! E eu retruco: não paro, não sei escrever, mas sou teimoso. Então...então na semana passada recebi um imeil, desses com fotos, que mostrava um koala – aqueles ursinhos que parecem bichinho de brinquedo – pedindo água. E não só ele. Outros iguais foram capturados perto de residências, na Austrália, de onde são originais, e logo depois de soltos nas casas foram procurar água. É ou não é um sinal, um grave sinal. E são cada vez mais freqüentes, no mundo todo, as invasões de residências por animais sempre movidos pelo mesmo motivo: fome. Recebi, esta há mais tempo, uma seleção de fotos – tétrica seleção – que mostrava o que restou de um pescador que dormia num acampamento montado na margem do Rio Paraguai, no Pantanal. O estrago foi generalizado. Apesar de aparentemente o acampamento não ter nada com o koala com sede logo veremos que tem, e eu chamarei isso de “invasão de domicilio”. Vamos juntar então os pedaços. Quase que corriqueiramente, um surfista é “surpreendido” por um tubarão que chega comendo tudo o que vê pela frente, na superfície. E aí vai prancha, braço, perna e o que mais não tiver tempo de escapar. Mais um pedaço. A gente ta voando e geralmente com um olho no peixe e outro no gato. Pra baixo, não por turismo ou porque a paisagem é sempre maravilhosa, mas por precaução: sempre existe a possibilidade de uma dilatação de um pistão – quem sabe? – por causa de uma liga de segunda categoria, e que passou em uma inspeção, que vai acabar numa trava de motor sem aviso prévio, e você vai ter que saber pra onde ir, é a preservação e, a outra: os urubus. Sempre é bom saber onde costumam estar esses caras. Um deles em sentido contrário a duzentos e cinqüenta Km/h., gera um impacto de aproximadamente 7 toneladas. Sempre que avistamos um, falamos mal dele e de todos os seus ancestrais e sucessores, e esquecemos que estamos invadindo um domicilio. Estava em um hotel em Cacoal, RO, e conheci um médico especialista em doenças tropicais que estava por lá pesquisando a malária e seu mosquito. Perguntei se havia progresso no combate a doença e ele disse: “olha, desde que comecei a pesquisa, o único que evoluiu foi o mosquito. Antes, ele praticamente morava com as vitimais; depois que se descobriram fórmulas de venenos mais ou menos efetivas ele voltou pra floresta, e só vem pras casas na hora de se alimentar, à tardinha. Vem come e volta. Outra coisa, além das gerações mais recentes do mosquito ter desenvolvido um sistema de defesa contra o veneno, ele mudou o seu lugar de espera. Antigamente, ele ficava pousado nas paredes das casas, agora ele fica no teto, de onde é mais difícil de ser visto e abatido”. Como se vê, mais uma invasão de domicilio.
Claro que pra ser mais claro não é necessário perguntar se você já viu tubarão caçando nadador no centro do Rio de Janeiro; onça em supermercado, ou urubu abrindo hangar pra dar cabeçada em avião. Então, alguma coisa que não sei por qual motivo não é discutida por essas certíssimas ong’s que andam soltas por aí não está sendo devidamente avaliada. Mas devia.

Ed. 495 18/11/2009

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