

Projeto desenvolvido em parceria do Conselho da Comunidade e Unicentro visa o resgate da auto-estima e cidadania de detentos
Irati – Três alunas do curso de Pedagogia da Unicentro integram o projeto Inclusão: Construindo o Futuro, desenvolvido em parceria do Conselho da Comunidade, da Unicentro e da 41ª Delegacia de Polícia Civil, que consiste num trabalho de preparação para a reinserção dos detentos na sociedade. As estudantes vão semanalmente à cadeia para estimular a produção escrita dos detentos, bem como estimular a leitura, na expectativa de sua reinserção social. Em reunião do Conselho da Comunidade na última quinta (06),
a presidente Mery Francisca Keller explica que o projeto se desenvolve em três eixos paralelos. O primeiro deles ocorre junto aos detentos, “ainda precário por causa das instalações. Gostaríamos de implantar lá o CEEBJA [Centro de Educação Básica de Jovens e Adultos], mas a estrutura do presídio não nos permite ainda”, ressalta Mery.
A segunda parte do trabalho é realizada junto às famílias do egresso, para que este seja acolhido novamente e o auxilie na sua reintegração social. O terceiro eixo consiste no trabalho junto às instituições, em que, conforme a presidente do Conselho, cada instituição desenvolve um projeto diferente que vise prevenir a violência. Entre as iniciativas, a presidente enumera o curso de ética e cidadania, um curso permanente de Administração aplicado a quem possui direito a penas alternativas e regimes semi-abertos e também um curso para mulheres sobre a lei Maria da Penha.
A estudante do 3º ano de Pedagogia, Daiane Zaias, iniciou no projeto em julho deste ano e relata suas impressões sobre o trabalho realizado junto aos detentos. “É um trabalho muito satisfatório por saber que despertamos nessas pessoas o desejo de mudar. Muitos deles se mostram interessados em pesquisa. Um detento me pediu para levar livros de História, sobre a Segunda Guerra Mundial e um outro sempre pede livros de literatura, como os do Paulo Coelho”, conta.
Mery acrescenta que nem todos os detentos participam do projeto e que, normalmente são aqueles que já participavam de cultos da Assembléia de Deus realizados dentro do presídio, e que demonstravam bom comportamento. “De certa forma, isso acaba chamando a atenção dos outros presos. Quem participa faz uma divulgação e aguça a vontade dos demais em participar também. Teve até um que brincou e pediu um livro para levar ‘para casa’”, comenta.
Gislaine Lima, estudante do 4º ano de Pedagogia e pelo segundo ano consecutivo no projeto, explica que elas precisam prestar uma atenção diferenciada e tentar se adequar às dificuldades de cada detento. A professora Anizia Costa Zych complementa, dizendo que “normalmente os alunos com pouca escolaridade apresentam maior inibição ao projeto”. Um analfabeto adulto, por exemplo, exige técnicas de alfabetização diferentes das usadas com crianças.
Para a estudante do 2º ano Priscila Kutianski, no projeto desde abril, “tem sido gratificante saber o quanto eles se interessam pelo projeto, principalmente por usarmos textos que coincidem com a realidade deles”, enfatiza. Gislaine acrescenta que “alguns se abrem, a gente consegue tocar a sensibilidade deles e torcemos para que eles realizem esse propósito de retomar a vida depois da prisão sem reduzir a auto-estima”.
Daiane ressalta que o trabalho desen-volvido visa a reintegração social, pois “eles estão cientes de que enfrentarão certo preconceito quanto saírem da cadeia”. Ela acrescenta que o trabalho não se restringe à escrita, mas que também buscam o aprimoramento da expressão oral dos detentos, e também os ajudam a melhorar a caligrafia. “Não tinha como não envolver o lado social. Queremos que eles se abram, que sejam capazes de ultrapassar as barreiras sociais”, comenta Gislaine. Conforme Daiane, elas priorizam a busca pela superação dos sentimentos que os detentos podem apresentar, como medo, raiva, sofrimento ou mesmo orgulho ferido. “Se não houver essa superação, eles podem sair da cadeia e tornarem-se reincidentes, não estamos lá para recriminá-los, mas para colaborar no reconhecimento de que todos estão sujeitos ao erro”, explica Gislaine.
“Existe um outro lado da vida, além da criminalidade, que talvez eles nem chegaram a ter oportunidade de conhecer. Contudo, eles não são os únicos sujeitos ao sofrimento e ao erro”, enaltece Daiane. Para Gislaine, “todos têm problemas, mas se nos entregarmos, acabamos por construir nossa própria cadeia”.
TEXTO: EDILSON KERNICKI, DA REDAÇÃO