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As exceções. (Ao Governador Requião, um Estadista.)

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A mulher chegou e perguntou: “É aqui que dão dinheiro pra vagabundo?”
Imaginando tratar-se do que se tratava e porque não era mesmo, a resposta: “Não!”
Ela: “Mas não é aqui que fazem o cadastro das pessoas que querem receber o Bolsa Família e o Leite das Crianças?”
-Não!
-Como não? Lá em tal lugar me informaram que vocês aqui é que ficam dando esses benefícios do governo que fazem as pessoas se acomodarem e não quererem trabalhar. Você não é o ...?
Explico que o local de trabalho é o que é, faz o que faz; com esforçada competência; mas que deve haver algum engano quanto à referência, porque certamente não é o local que ela procura. Confirmo quem sou e, no embalo das confirmações, afirmo que ela está absurdamente enganada, porque nem em tempo de eleição, se dá dinheiro pra vagabundo. Na mesma empolgação, babando convicção, digo que isso já foi uma prática que garantia votos e coisa e tal. Mas que isso era coisa do passado, já que a consciência política da população somada à agilidade da justiça, mais a postura ética dos candidatos, mais isso e mais aquilo, determinavam um cenário de ações, articulações e vinculações em que a compra de votos não tinha mais espaço. Até ousei lembrar de fatos improvados a confirmar minhas convicções.
-Portanto, não apenas não é aqui o local que a senhora procura, como ele não existe! Até onde eu sei, não existe!
Convicta, também, ela:
-Eu sei que você não tem culpa, que você está fazendo o que lhe mandam e é esse o seu serviço. Mas essa coisa de ficar dando bolsa disso, vale não sei o quê, ticket não sei das quantas, está formando uma população de vagabundos que não querem nada com nada. Enquanto o governo continuar distribuindo salário pra quem não quer trabalhar, as coisas não vão melhorar. Veja só, no meu tempo também tinha pessoas pobres. Mas nem por isso o governo ficava dando dinheiro pra elas continuarem pobres, sem trabalhar.
Enquanto ela continuava a destilar aquelas besteiras, fui controlando a respiração para não enfartar e pedindo inspiração e sabedoria para não explodir (meu serviço é fazer o que me mandam... ninguém merece!). A confirmação de que ignorância, a exemplo de outros fenômenos, não escolhe classe social, estabelecia resignação sem regozijo. Olho-a com firmeza e pego o arremate da confirmação burguesa elitista idiotizada:
-Antes tinha gente que trocava um prato de comida por um serviço de jardinagem ou limpeza de pátio, normalmente os dois juntos. Hoje em dia ninguém faz essas coisas por menos de não-sei-quanto. Isso porque não precisam mais trabalhar para comer. E é isso que eu vim fazer aqui: dizer para vocês pararem com essa máquina de fazer vagabundos!
A mim impressionou a convicção com que ela falava essas coisas. Firmeza de quem fora ensinada a fazer o bem para ganhar o céu. E isso é maravilhoso! E legítimo: eu faço o bem, e fazer o bem é sinônimo de ajudar alguém necessitado; a pessoa passa fome e eu dou um prato de comida. Se o mato no quintal ou a grama do jardim precisavam ser cortados isso é outra história. O fato é que alguém necessitava de ajuda e eu ajudei. Troquei um prato de comida pela força de trabalho. Mas essa consideração nem se leva em conta, porque no aprendizado caritativo, força de trabalho é expressão ideológica. Portanto, na relação de garantias de paraíso, assim como na avaliação do preço da comida para o cachorro, não precisa e nem pode ser considerada.
Confirmei as informações sobre as responsabilidades técnicas de gestão do lugar, seu papel no assessoramento aos municípios e nem perdi tempo com mais argumentações. Mas lateja a lembrança nas imagens que ainda se refletem por aí. Falaria que tem, sim, vagabundo recebendo Bolsa. E não falaria que tem sim vagabundo recebendo benefícios outros, oficiais ou não; como incentivos fiscais, bonificações salariais e até dízimos; simplesmente porque esses, não são pobres. Falaria. Não falaria. Adianta?

Ed. 479 22/07/2009

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