

O dia 26 de junho é o “Dia Mundial de Combate às Drogas”. Combater as drogas é necessário, principalmente hoje que o acesso a elas torna-se cada vez mais fácil e mais precocemente. Por outro lado, para quem já está nesse submundo a ajuda da família, amigos e até de pessoas estranhas que passaram pelas mesmas experiências é fundamental, mas acima de tudo deve se ter muita vontade de vencer os medos e o desejo pelas drogas. O relato a seguir é uma prova de que a boa vontade e a perseverança fazem a diferença:
“Fui apresentada ao mundo das drogas quando tinha ainda meus 15 anos. Conheci através de meu primeiro namorado, ele já era usuário há algum tempo sem o meu conhecimento. Eu que sempre reprimi um dia tive a péssima idéia de querer saber como isso era... Foi o começo de uma grande tristeza que acalentou muita dor não só em mim, mas em geral, em toda família e quem comigo esteve durante esta trajetória.
Usei quase todos os tipos de drogas, maconha, cocaína, LSD, êxtase, crack e também comprimidos compostos por anfetaminas.
As piores drogas por incrível que pareça são as famosas boletas (anfetaminas), elas além de te tornar dependente, te jogam em um mundo completamente paralelo.
No começo eu sabia que, pelo que sempre ouvi dentro de casa, drogas eram DROGAS, ou seja, perigosas. Porém, quando comecei a experimentar percebi que era completamente diferente do que eu imaginava.
Como já citado anteriormente, as anfetaminas te colocam cara a cara em um precipício.
Além de um difícil acesso, porém, não impossível, você começa a tramar sua vida em cima de como não saber viver sem elas, ou seja, começa a pensar sempre como vai conseguir e o que terá que fazer para que chegue até elas, e isso vira um ciclo.
Logo depois você começa a viver praticamente sozinho, não consegue se comunicar, nem dizer o que pensa. Não consegue mais viver no mesmo mundo que as outras pessoas, começa a se isolar e se fechar no seu próprio universo, um universo que você cria dentro da sua mente onde só existe você, a droga e mais nada.
Meu rendimento na escola caíra, porém, foi muito pequena esta queda, sempre fui dedicada e minha família sempre exigiu que estudo estivesse em primeiro lugar.
Quando isso chegou aos ouvidos da minha família, eu não tive conhecimento, afinal, nunca vieram me dizer nem perguntar nada, muito pelo contrário, muitos deles se afastaram de mim e de meus pais para talvez evitar que alguém viesse solicitar ajuda de alguma forma.
Depois de anos eu soube disso, depois até que já tinha parado com tudo, o que pra mim foi um quanto tanto decepcionante, mas eu sempre tentei entender o lado de todos e acredito que entendo a preocupação de pais que não querem que seus filhos se aproximem de uma pessoa usuária de drogas.
Quando eu estava com 17 anos minha família tentou me internar, mas não teve meu consentimento, afinal de contas, uma pessoa só para de usar drogas quando ela decide ou quando passa por alguma situação em que consiga enxergar sozinha que aquilo pode acabar com a vida não apenas dela, mas de seus pais, ou de pessoas que estejam envolvidas naquele jogo.
Eu pensei muitas vezes em me internar, mas algo me dizia que aquela não era a decisão mais cabível, afinal, eu precisava aprender a viver com meus medos e enfrentar a minha vida sozinha.
No meu ponto de vista, clinicas só podem auxiliar pessoas que chegam ao fundo do posso, e esse não foi o meu caso.
Nunca tive épocas de maior freqüência de uso, porém quanto mais você conhece as drogas e sabe quais são as melhores, mais você quer usar para ver até onde pode chegar. Esse é um dos casos mais nítidos aonde a pessoa chega a Overdose, pois pessoas que usam essas determinadas substâncias querem sempre saber até onde a “loucura” pode chegar. Pessoas geralmente corajosas e que não tem medo do perigo, afinal estar lado a lado com o perigo, as faz sentir bem.
Levei esta vida até descobrir algo que me fez mais feliz que tudo isso, foi quando conheci um grupo de pessoas que eram esportistas e eu comecei a me relacionar com elas e me interessar por essa vida, exigente e regrada. Esta foi a única forma que vi de me afastar das companhias, que não posso chamar de más, porque elas apenas estavam ali comigo no momento de uso, pois por algum motivo elas também usavam, portanto posso defini-las como pessoas que passavam pelo mesmo problema que o meu, e logicamente quando as mesmas estão juntas se torna mais vulnerável para ambas as partes conseguir controlar esse IMPULSO pelo uso.
Comecei a seguir a vida de atleta e vi que aquilo além de me dar muita alegria, estimulando a Adrenalina, um hormônio produzido pelas glândulas supra renais, cuja secreção é aumentada em situações de estresse, ansiedade, perigo ou qualquer outra que deixe o corpo em estado de alerta e pronto para reagir. Naturalmente produzida pelo nosso organismo, me fazia superar os “limites” do meu próprio corpo e o sentimento de aventura estava ainda mais presente.
Nunca passei por situação de pânico como mostrada muitas vezes na mídia, fiquei semanas sem usar e depois voltava, mas quando decidi parar não tive muitos problemas, afinal eu estava certa do que queria e a vontade de me dedicar ao esporte superou a vontade de se incluir neste mundo mais uma vez. No começo fiquei 6 meses sem usar nada, e logo tive uma recaída, o que é absolutamente normal, afinal estamos o tempo todo com livre acesso a esses entorpecentes, e consegui-los se torna ainda mais fácil depois de algum tempo de uso. Sempre que tinhas estas recaídas, acordava no outro dia muito arrependida e voltava do zero, colocava metas na minha vida e voltava a tentar.
Parei de usá-las quando estava já com meus 20 anos e desde então sempre tomo meus devidos cuidados, estando alerta sempre para não cair novamente neste erro.
Considero o único segredo para dizer CHEGA a própria vontade de dizer CHEGA. Ninguém pode decidir isso por você, afinal a vida é unicamente sua e só você poderá tomar as decisões por ela. O problema das pessoas quando usam drogas é que elas se tornam excessivamente egoístas e só pensam no prazer, sem pensar que por trás de tudo isto também existe uma mãe e um pai que estão vendo tudo de mãos atadas sem saber como agir e o que dizer, sofrendo e chorando, pedindo a Deus todos os dias para que tragam seu filho vivo para casa mais uma vez.
A família é extremamente essencial neste caso, pois é a única base que você terá na hora das tristezas causadas pelas anteriores euforias que as drogas trazem, a sensação extrema de prazer acarreta picos elevadíssimos de depressão e para reconquistar o equilíbrio será importante este alicerce que se chama FAMÍLIA.
Sempre que penso no meu passado, vejo um tempo vago na minha vida.
Um tempo que apenas passou, onde eu não vivi, eu não estive ali, apenas o meu corpo.
Estive presente apenas para mim mesma, ou melhor dizendo, estive no meu universo advindo da minha própria mente. Eu criei meu mundo durante 5 anos.
Quando decidi parar comecei a conquistar novas amizades, e deixar aqueles que por um grande tempo me entenderam naquele mundo de lado, afinal não poderíamos mais estar juntos. Agora temos pensamentos que não se correspondem, pensamos de maneira um pouco diferente e temos objetivos distintos, portanto assim, não poderemos mais juntos estar.
Depois que voltei a viver, o que foi depois de um ano e meio sem drogas, pois a recuperação é gradativa e demorada, comecei a ter perspectiva e notar que posso ser muito maior que pensava. Comecei a perceber que posso além de crescer, ser gigante com aquilo que faço e surpreender aqueles que acreditaram em mim e jamais deixaram de estar comigo, posso me destacar, afinal quando deixamos o mundo das drogas tudo se torna mais fácil, diferente do que pensamos quando estamos vivendo aquilo.
Para finalizar posso resumir que as drogas não acrescentaram nada de produtivo na minha vida, porém, depois desse período eu me descobri uma pessoa mais forte, mais capaz, mais bonita e mais feliz. Podendo agora retribuir com muita vontade de viver a vida que há alguns anos deixei pra trás e agora tento fazer da vida das pessoas que comigo convivem no âmbito social, uma vida melhor. Tento passar um pouco das minhas experiências, e de tudo que sofri e passei, e de como consegui contornar isso e ser HOJE uma pessoa FELIZ.
Desejo as pessoas que estão passando por isso, ou vivem situações parecidas, muita força, paciência e Fé, pois assim como foi difícil à minha família, também não será fácil para ninguém, mas ACREDITAR que a situação pode ser revertida é o primeiro passo para fazer a diferença nesta hora”.
K.A.S.
Ed. 457 01/07/2009