Enobran Renner

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O que se ouviu por ai

“Eu não desejo o mal a ninguém, mas que as pessoas responsáveis pelos serviços de saúde deveriam precisar dele, isso deveriam. Quem sabe assim teriam um pouco mais de compromisso com a dignidade das pessoas. Um pouco mais não! Tem que haver muito mais compromisso, porque um pouco num universo em que não existe nada, de nada adiantaria.”
De um desalentado precisador do serviço público de saúde, em visita à Sibéria, saudoso dos serviços por cá: tão eficientes, tão qualificados, tão disponíveis.

O que se ouviu por ai

“Ou as bocas-de-matildes se renderam à discrição e se reservaram ao fechamento da conveniência ou a surdez virou endemia individualizada.

O que se ouviu por ai

O que se leu por aí. (Mário Quintana fragmentado)

“Ora, os fantasmas são viajantes noturnos.”

“Sonhar é acordar-se para dentro.”

“Se cada um de vós abrisse um livro de poemas... faria uma verdadeira viagem...”

“Os arroios são rios guris... Vão pulando e cantando dentre as pedras.”

“Os cuidados se foram, ou tomaram estranhas máscaras de sonho...”

“Os poemas são pássaros que chegam não se sabe de onde e pousam no livro que lês.”

“Quando os sapatos ringem, quem diria? São os teus pés que estão cantando!”

O que se ouviu por ai

“Quando dizem “a verdade é que...” estão reduzindo o assunto ao que se está afirmando. É a concretização do reducionismo. Põe-se fim à argumentação. É estratégico para quem não consegue aprimorar o que o outro afirma; é estratégico para quem não se permite à contrariedade; é estratégico par quem não tem capacidade argumentativa.”
De um estrategista desaprimorado, reduzido pela constatação das verdades ditadas.

O que se ouviu por aí

“Que dó! Tanto conteúdo; tanta reflexão; tanta mensagem de amor, aceitação e acolhimento para ser apresentada e o que acabamos por ouvir? Ameaças, condenações, degredo. Essa configuração retórica é muito mais para a violência, porque segrega, separa, exclui, do que para a promoção da paz. É inconcebível que em nome do amor, da fraternidade, da justiça, se promova a negação do ser humano.”
De um inconsistente catador de sonhos, melancolizando-se na repetição atroz da ignorância.

O que se ouviu por ai

“Sua inconstância e ausência geram uma incerteza que já atingiu o limite do tolerável. Esperamos que em 2010 suas responsabilidades estejam mais alinhadas às suas atitudes.”
Avaliação solta sobre rotinas alteradas.

O que se ouviu por ai

“Estar ocasionalmente vazio é uma fenômeno que pode acontecer a todos. Estar sempre vazio é uma das suas características mais evidentes. O que eu quero dizer é que eventualmente damos nossos foras. Eventualmente dizemos bobagens. Eventualmente não falamos coisa com coisa. Só que ele consegue essas três características sempre... e sempre juntas! É assim, abriu a boca e o universo se enche do nada que ele diz.”
Da mais sorrateira viborazinha de plantão, em alusão a afirmações truncadas, de fato.

O que se ouviu por ai

“Se você tem preguiça então dê a vez para outro. Mas se você em compromisso, faça o favor de ser mais responsável. Não que me faça falta, mas fica uma expectativa te diversão.”
De um anunciado divertidor com os pensamentos alheios, muito mais curioso do que interessado, comentando as repetidas ausências destas “traduções de dizeres”, sentindo-se plenamente à vontade na sinceridade manifestada.

O que se ouviu por ai

“Se avaliarmos a trajetória política do Lula e a compararmos à do Obama veremos que o trabalho em defesa das igualdades sociais desenvolvido pelo Lula é muito mais significativo do que fez e tem feito o presidente dos Estados Unidos. Ter conferido a este o Nobel da Paz, de certo modo desvalorizou o prêmio que vinha numa trajetória histórica de ser o reconhecimento pelo que já foi feito e não pelo que poderá ser feito.

O que se ouviu por ai

“Esse é o resultado do preconceito idiotizante misturado com a burrice idiotizada, pois o princípio da ação de vandalismo que determinou que os vidros fossem quebrados, inicia-se no desrespeito ao semelhante, que nesse caso se explicita na concordância dos pais em permitir que a criança ande com a sua bicicleta na trilha que é exclusiva para andantes. Há placas sinalizadoras por toda a parte.”

O que se ouviu por ai

“Não conseguimos entender essas manifestações, porque nossa cultura nos fez acomodados. O que para nós é explosão de violência, para eles é exercício de liberdade. Eles vão para as ruas, incendeiam automóveis, fazem barulho e se manifestam de muitas formas e os políticos, de lá, sabem que à descoberta das suas falcatruas sofrerão represálias populares e a rejeição pelo voto. Entendem?

O que se ouviu por ai

“Ouço muitas coisas que me envergonham, principalmente porque são ditas por pessoas que tem conhecimento, ou deveriam ter, suficiente para expressar essas realidades com mais responsabilidade. Disseminar a idéia de que a violência que explode latente no Rio é uma prova de ausência de política de proteção, chega a ser um achincalhe, para não dizer imbecilidade. Há muitas causas dessa violência toda. Uma delas certamente aponta para a fragilidade das políticas de segurança pública.

O que se ouviu por ai

“Esse cara é muito danado mesmo. Faz um monte de bobagens e ninguém fala nada. Isso demonstra maestria na condução política da situação e gera tranquilidade demais para continuar pecando contra a lógica, em nome da vaidade. Aos mais entendidos, a isso chamar-se-ia maniqueísmo puro. Como os manipulados tem consciência disso e permitem esse degredo, nem maniqueísmo pode ser chamado. É maestria mesmo! Danado esse Obama!”
De um osquestrador de análises degredadas, cosmopolitando o olhar para disfarçar a visão e evitar o próprio degredo.

O que se ouviu por ai

“Não gosto dele. Aliás, não gosto de ninguém próximo a ele. Sua equipe ministerial; sua assessoria, sua política. Não gosto dele como presidente e o considero absolutamente descontextualizado, e entenda isso como quiser. E te digo mais, não gosto dele porque em relação a tudo o que já passou pelo posto maior, que hoje ele ocupa, não chegou aos seus pés em matéria de maniqueísmo e capacidade de articulação. Assusta-me até pensar que se esse homem fosse letrado, estudado mesmo, estaríamos diante de um fenômeno de massas.

O que se ouviu por ai

"Do jeito que as coisas não estão indo, ou você está absolutamente surdo, e portanto impedido de ouvir qualquer coisa por aí; ou a preguiça está sendo maior que o tempo para traduzir o que está sendo dito por aí; ou estão acontecendo coisas que você não quer ou não gostaria de estar ouvindo por aí; ou ainda, o que se está ouvindo por aí são coisas indizíveis ou, se dizíveis, intraduzíveis. O fato é que essa sua ausência tem apontado para a lógica, para você perversa para mim natural, de que há coisas que não fazem falta.”

O que se ouviu por ai

“Cada um pensa de acordo com a sua capacidade; reage de acordo com a capacidade e vota de acordo com a necessidade. Esse é o grande problema brasileiro!”
De um explicador de fenômenos incompreensíveis, tentando convencer do porquê dos mesmos abutres a definir os destinos da nação.

O que se ouviu por aí...

“A vida não reprisa os fatos. Essa prerrogativa da reprise das fatalidades e desgraças políticas é uma exclusividade humana. Não é nenhuma força sobrenatural que determina a razão política dessa gentalha que se diz representante do povo, o que lhes dá o poder e os renova em suas mão é o voto popular.”
De um prerrogativista nato, sobrenaturalizando as determinações políticas em conversa catártica.

“Não, meu querido, eles não são idiotas! Idiotas somos nós que dimensionamos nossa indignação ao tempo do término das notícias.”

O que se ouviu por aí...

“O fato de ela não ter ganho o concurso não tem nada a ver com a superioridade do grupo vencedor em relação aos propósitos do programa. Ela só não ganhou porque é feia demais e não havia possibilidade de a televisão curvar-se à feiúra humana. Assim, optou-se por classificar a piazada em primeiro lugar e dar a ela o desmerecido segundo lugar, porque ela merecia o primeiro.

O que se ouviu por aí...

“Já imaginou que bom seria se pudéssemos, também nós, todo mundo, editar as coisas que fazemos ou editar-nos?

O que se ouviu por ai

“Há os que são presos por suspeitas e os que são presos por confissão. E há os que não são presos de maneira nenhuma, mesmo o mundo todo sabendo da sua culpa. Em nome da democracia estão criando um estado de impunidade no qual as leis adquirem um sentido quase fictício e estimulam os mais vulneráveis à punição ao delírio da imunidade. Esta, só é permitida a quem se blinda, seja de que forma for e em que circunstância for.”
De um circunstanciador de blindagens, imunizando estímulos imputáveis.