Promessa feita tem que ser cumprida.
Daà que, prometida a coluna pra domingo, com a inútil e ingênua e cretina lembrança de que as duas últimas tinham ido com antecedência, fico enrolando a criatividade. Sobre isso não! Sobre aquilo não! Que tal a redundância? Não. Que tal as impressões sobre o Obama na Ãfrica? Não. Sobre o Presidente Lula e o prêmio recebido pelas polÃticas sociais implementadas, que quase matou de inveja os normalmente despeitados eruditos e afins? Não, isso seria redundância intencional. Então escreva sobre o cara que no cruzamento das idéias e das ruas perguntou se o sentido da coluna penúltima era chamar de privada quem fala merda. Era! E que ele disse que isso tinha que ganhar um prêmio, porque ele queria ter dito isso há um bom tempo, porque reconhece-se o outro lado da merda. Não, isso não, até porque ninguém acreditaria. Tem que ser alguma coisa mais sofisticada, alguma coisa mais que centenarista. Alguma coisa que prenda a atenção de quem inicie a leitura numa expectativa nula e perceba-se crescente na medida em que avança nas palavras. Isso! É nessa trajetória! Respire fundo. Feche os olhos e lembre da naturalidade e simplicidade, da verdade da prosa inusitada, impensada, improvisada e, no entanto tão rica. Isso !!! É por aÃ. Mas antes tire as cobertas ao sol, transfira as roupas do varal para o sol, saia ao sol. Dê as caras ao sol. Bendiga o sol. Depois tente abrir a porta da lavanderia pra ver se sai esse cheiro forte de lingüiça frita, da casa. Lingüiça tremida porque o programa é anterior à reforma. E depois procure o texto de Drummond em que ele se diz expor nas prateleiras, na analogia pretensiosa e ingênua e cretina de que isso tudo é uma exposição inútil.
Mas a coluna tem que ir!
Vá às ruas e olhe, escute, converse. Veja coisas, busque inspiração. Vá ao rodeio! Ligue pra Dona Merislawa!
Saio à s ruas. No portão o canto galizéziano me remete à s madrugadas em que os compadres galináceos resolvem se comunicar. Um ali, à frente de casa e o outro a umas duas ou três quadras pra baixo. Uma coisa os bichos... a afinação e a força güelÃstica. Ando e não demora pra uma conversa casual com alguém que apressa o passo pra perguntar se eu acho que o Gugu vai dar certo não sei aonde. Quem? Pergunto. O Gugu! Saiu do SBT! Disfarço e penso que deveria andar armado. Busco novo rumo pras pernas e pro destino. Sem êxito. Novo questionamento, sobre quem eu acho que vai ser o próximo a sair da fazenda. De onde? Pergunto. Da fazenda! E a certeza de que devo mesmo andar armado pra um auto-tiro nesta minha cabeça extraterrestre.
Vejo as árvores lindas, balançando ao vento. Vejo as gralhas azuis. Vejo os pardais. Vejo uma garrafa plástica. Vejo um sapo esmagado. Desvio o olhar para a poesia no ar. Respiro fundo para sentir o ar frio, mas puro. E começo a me animar porque eis a confirmação de que a poesia está em tudo. Mais uma forte tragada de ar puro e um cheiro de carniça. Apresso o passo em busca de novas inspirações outras e a música na lembrança de que “se eu quiser fumar eu fumo, se eu quiser beber eu bebo, não interessa a ninguémâ€.
Penso no rodeio. Lá sei que encontrarei a Dona Merislawa. Pra quem me salva dos pesadelos, ajudar na coluna é mole. Vou. Na entrada um cavalo montado por outro quase me atropela e eu penso que deveria andar não armado, mas armadurado. Tenho a impressão de ver uma raposa atravessando a rua. Vejo uma raposa atravessando a rua. Um monte de gente. Dois montes de histórias e a Dona Merislawa nada. Ando, me bato no monte de gente, sou atropelado pelos montes de histórias. E a Dona Merislawa nada. Vejo um berrante e atrás dele alguma coisa.Vejo vestidos rodados lindos e dentro deles prendas dedicadas e delicadas. Um desses vestidos bordado por um par de olhos fuzilantes e arrematado por um sorriso de canto de boca:
- Demorô!
- Dona Merislawa. Faz um tempão que lhe procuro. Preciso muito da sua ajuda.
- Pesadeleie i eu te ajudo.
- Sério. Pode me dar atenção, por um momento?
- Claro que não! Daquiapoco vô me apresenta i priciso de concentração.
- Mas é rapidinho! Só preciso de uma orientação para fazer minha...
- Disculpe seu Robis, mais ta na minha hora. Me deseje boa sorte queu vô avançá nas iterpretação, já queu vim nula nas esperança, puis sei que não sô sofisticada. Mais vô tentá. Boa sorte pra mim, seu Robis.
- Boa sorte, Dona Merislawa. Para todos nós.
Edição 477 - 14/07/2009





