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Antigamente

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Antigamente algumas atividades primavam por princípios éticos de não agressão, de respeito ao seu público ouvinte, televisivo ou leitor; está claro que no caso a atividade a que me refiro é a imprensa. Ela já foi de mais credibilidade, já respeitou mais e foi mais, muito mais, respeitada.
Claro que distorções sempre existiram havia, por exemplo, um jornal de que a gente falava que seria de muito mais utilidade num banco de sangue, tamanha era a exploração de crimes com muitos tiros ou facadas; fotos de muito vermelho na primeira página eram o chamariz pra um público que sempre haverá. Mas jornal, até que chegue as nossas mãos, depende uma série de medidas a que temos que nos submeter. Ir à banca e comprá-lo é a mais antiga; ser assinante é outra; dar “uma olhadinha” também funciona, mas tudo depende de determinação mesmo, você tem que querer.
E tudo isso ta sendo falado pra se chegar aonde? Na televisão, cara-pálida. Nos dias que correm parece haver uma batalha entre as grandes redes, não só pra cobrir com competência grandes desastres, mas, pra tirar deles o que de mais chocante seja possível. E nessa balada, quando menos esperamos, damos de cara, como na semana passada, com um demente invadindo o salão da ex-esposa e disparando oito ou nove tiros, ao vivo e a cores. Sem falar com a falta de respeito com a família da vitima por que nós temos que segurar uma barra dessas? Isso sem falar do Haiti. Todas as emissoras com correspondentes no local, procurando uma criancinha ou um velho ou uma velha, de preferência pela metade e debaixo de uma laje. Ou as enchentes ou secas; numa, sempre que possível, o prato do dia são os deslizamentos de encostas e, melhor ainda, se o pai ou mãe tenham conseguido salvar pelo menos o cachorro e, em seguida, tenham morrido sob algumas toneladas de terra, lama ou pedra.
Na outra, procura-se (dá a impressão, né?) o agricultor que já vinha de safras anteriores frustradas – pra deixar o quadro ainda mais desesperador – e agora, quando achava que as condições de tempo correriam normalmente, a seca encarregou-se de desmontar a esperança. Na falta de calor humano pra embalar as desgraças, sempre haverá um monte cachorros abandonados e com cara de triste – cachorro sabe fazer cara de triste, né? – pra mexer com o emocional do público em geral.
Na falta de cachorros e gatos, sobra à alternativa de algum circo com um leão desdentado que, sem a menor dúvida, vai fazer a alegria de alguma ong imbecil, das sociedades de amigos de animais ou do Ibama e, claro, de alguma televisão previamente convidada á comparecer ao evento.
Mas isso é só uma parte dos horrores da imprensa hoje, ainda não entramos nas canetas de aluguel, mas isso é outra história e pra outra hora.

Ed. 503 27/01/2010

Capa desta Edição
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