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Edição 1204 - Já nas bancas!
11/03/2020

Mulheres são destaque no comando de veículos pesados

Mulheres são destaque no comando de veículos pesados

Profissões que até poucos anos eram consideradas exclusivamente masculinas atualmente tem mulheres desempenhando. E isso acontece mesmo no interior, em cidades como Irati ou Rebouças.

Fabiula Candeo é motorista de ônibus escolar no Município de Rebouças há cinco anos. Ela assumiu o cargo na Secretaria de Educação quando tinha apenas 22 anos. “Antes de assumir aqui, eu era instrutora de autoescola. Em 2014 teve um concurso, disputei com 200 candidatos, entre eles fiquei em quarto lugar. A única mulher. Em 2015 fomos chamados e eu assumi o cargo”, conta.

Maria Eluiza Jeczmionski também é motorista de ônibus, mas em uma construtora que realiza obras no Município de Irati, a Triunfo. Ela trocou radicalmente de profissão para seguir um sonho de criança. “Sou motorista do ônibus, encarregada de levar o pessoal para as frentes de trabalho. Iniciei a profissão agora, faz cinco meses. Fiz o teste para ser motorista e passei. Foi uma reviravolta na minha vida, fui cabelereira durante 22 anos e cansei da profissão. Depois trabalhei fazendo marmita e cozinha profissional. E sempre tive vontade de trabalhar dirigindo, meu falecido pai era caminhoneiro e toda vida dirigia. Me criei em um ambiente vendo o pai sair e viajar, já era uma vontade de infância”, explica.

Cecilia Gil trabalha operando máquinas rodoviárias, na mesma empresa que Maria Eluiza.   “Sou operadora de retroescavadeira. Já trabalhava com retroescavadeira há 15 anos, particular. Entrei aqui na firma faz cinco meses. Como me separei do marido, fiquei sem as máquinas. Tive que procurar outro emprego. Essa profissão foi o que me apareceu e me adaptei bem”, conta.

A aceitação

Nessas profissões consideradas por muitos como de domínio dos homens, podem ocorrer preconceito e desconfiança quando se tem uma mulher à frente do trabalho.

 “No começo não foi fácil, porque as pessoas não aceitam tão bem quanto um homem dirigindo um ônibus escolar. Para as pessoas uma van até seria normal, mas como era ônibus escolar da Prefeitura, teve um certo alvoroço na cidade para saber quem era, o que fazia, e na época eu tinha 22 anos. Passava na rua com o ônibus e lia no lábio das pessoas falando nossa é uma mulher. Por ser uma cidade pequena, para as pessoas era bem diferente. Tinha muita desconfiança, fizeram até alguns bolões para ver quanto tempo eu ficaria”, conta Fabiula.

Ela relata que apesar da desconfiança inicial, atualmente seu ambiente de trabalho é muito  bom. “Somos em 10 motoristas do transporte escolar, sendo eu a única mulher e o tratamento é muito bom, eles não me tratam de forma diferente por ser mulher, eu acompanho eles e o que preciso eles estão sempre me ajudando”, diz.

Quem também sofreu com o preconceito foi  a operadora de retroescavadeira. “As pessoas não confiam na mulher até hoje, não na firma, mas a população. Acha que já vai bater, já vai derrubar e quebrar. Foi muito difícil para mim. Sofri bastante preconceito e até hoje ainda tem. Teve uma vez que cheguei para fazer o serviço e a pessoa disse ‘nossa você que veio fazer’, achando que eu não conseguiria, mas fiz e depois no final a pessoa até pediu desculpas, já teve vários casos assim”, lembra Cecilia.

Maria Eluiza cita a reação das demais mulheres ao vê-la dirigindo o ônibus de transporte de funcionários da construtora. “É legal olhar a expressão das mulheres quando encontram a gente na rua. Primeiro elas olham e criam automaticamente uma empática contigo, acenam, jogam tchau. É muito bom de ver, porque de repente, está transmitindo para a pessoa coragem. Estou trabalhando em um campo que são quase 300 motoristas homens, a aceitação deles é fantástica, eles ajudam, principalmente na parte de mecânica que eu não entendo quase nada. Como profissionais de volante são excelentes companheiros de trabalho”, conta.

Adaptação e rotina

No começo, toda profissão exige adaptação e experiência. Elas contam como foi o período de adaptação e como é o dia-a-dia.

Fabiula Candeo que começou a dirigir o ônibus escolar com apenas 22 anos de idade viu as coisas fluírem normalmente. “A minha adaptação foi tranquila, achei que iria me bater um pouco mais, mas foi tranquilo até pelo fato de eu gostar. Início as 6h da manhã. Chego no pátio e faço a verificação do veículo para o dia todo. Faço a linha das 7h30, saio da cidade para o interior e volto para a cidade com os alunos e fico à disposição da Secretaria de Educação”, diz. Após o almoço, a rotina dela se repete.  “Eu saio de casa às 6h da manhã e chego às 18h, a tarde”, conta.

Maria Eluiza já tem carteira de motorista D, a necessária para dirigir ônibus, há 20 anos. Mesmo assim encontrou dificuldades para se adaptar pela falta de responsabilidade dos motoristas no trânsito. “No começo não é fácil,  e a responsabilidade de um motorista de ônibus é muito grande. Tem que estar centrado todos os dias. O interessante é que ninguém quer andar atrás de ônibus e caminhão, acham que a vez é do carro menor e não é, todos temos que ir. No trânsito todos nós temos que ir e vir, encontro muita dificuldade nesse sentido”, explica.

Totalmente diferente de veículos convencionais, a retroescavadeira pode ser bem mais perigosa para utilização, define Cecilia Gil. “Tem que ter muita responsabilidade para dirigir uma retroescavadeira, a atenção tem que ser dobrada. Tem que ficar atento à lança traseira, cuidar com as pessoas, geralmente colegas de trabalho. É necessário prestar atenção no que está fazendo para não ter nenhum acidente, é bem delicado. Basicamente se só for dirigir não é difícil, mas pegar para manusear no trabalho é totalmente diferente” disse.

Dica para as mulheres

Buscar novos horizontes nem sempre é fácil, mas Fabiula, Maria e Cecilia dão dicas para quem quer tentar.

“Quando fazemos uma coisa que gostamos, flui”, diz Fabiula. Ela defende que a postura profissional é muito importante. “A mulher tem que ter coragem, não é mais será que ela pode. Não. Ela consegue fazer o que ela quiser. A mulher tem que ter a valorização dela mesma, saber que no emprego que ela estiver, se ela impor o respeito, se ela sabe se colocar, ela pode resolver qualquer situação e trabalhar em qualquer profissão. Na linha, o meu ônibus é o maior da frota”, frisa Fabiula. Para o futuro, ela comenta que poderá até mudar de profissão, pois está cursando o terceiro ano de Pedagogia e busca sempre evoluir.

Maria Eluiza enfatiza o potencial do sonhar. “Podemos tudo que sonhamos. É a mesma história das lagartas. Elas falaram em voar e só as borboletas acreditaram nelas. Então acredita no teu sonho. Eu era cabelereira e não tinha nada de motorista de ônibus, depois trabalhei com cozinha industrial que também não tinha nada a ver com motorista de ônibus. Ainda almejo outro emprego no futuro. Eu quero dirigir aqueles ônibus grandes de viagem um dia. Em uma empresa de ônibus mesmo”, disse.

Já Cecilia Gil  cita a importância de persistir para alçar algo que se queira. “Minha dica é correr atrás do que acredita e encarar. Se você desistir a primeira vez, nunca mais você volta. Na segunda você não vai ter coragem para encarar. Eu quase desisti, mas vi que era necessário encarar e deu certo. Tem que ter fé e ir atrás do que quer. Ainda quero dirigir carreta no futuro”, conta.

Texto: Da Redação/Hoje Centro Sul

Fotos: Jonas Stefanechen/Hoje Centro Sul

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