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Edição 1198 - Já nas bancas!
14/02/2020

Cidade da Criança encerra trabalhos na modalidade abrigo depois de 28 anos

Instituição deverá continuar com trabalho de contraturno com crianças

Cidade da Criança encerra trabalhos na modalidade abrigo depois de 28 anos

Depois de 28 anos, a Cidade da Criança deverá encerrar os trabalhos na modalidade abrigo.

A informação foi confirmada na última sexta-feira (07) pela instituição, através de nota. “Na segunda-feira, dia 03, a associação através do seu representante legal Renato Pachude encaminhou ofício ao Ministério Público e Vara da Infância e Juventude comunicando sobre essa decisão e solicitando o remanejamento para a Casa Lar Municipal dos sete menores que se encontram acolhidos atualmente”, diz a nota.

O local deverá continuar com o programa de contraturno que atende diversas crianças do município, mas não deverá continuar a abrigar crianças que por alguma situação foram destituídas da família pela Justiça.

Motivo

Segundo a equipe diretiva, a situação financeira é a principal causa de encerramento. “Um dos motivos é a questão financeira, as mudanças nas leis, remanejamentos e readequações nas quais a instituição tem que passar para estar atendendo melhor essa demanda. Exigem gastos e um dos gastos é a questão de recursos humanos”, conta a coordenadora administrativa, Tatiane Maria Laertes Cardoso.

Uma das principais dificuldades é em relação ao Mãe Social, atividade remunerada feita por mulheres que atuam como mães dentro dos acolhimentos. “A Cidade da Criança ainda trabalhava com a questão da Mãe Social. Tínhamos uma mãe por casa e isso acabou dificultando por conta das leis trabalhistas que orientam que seja trabalhado por escala, então teríamos que triplicar o número de cuidadores, o que não conseguiríamos pagar”, relata.

A advogada voluntária, Tania Marina Vicente Leite, conta que a exigência de aumento de idade também motivou o encerramento. “A cidade estava abrigando crianças de 0 a 12 anos, mas estava vindo uma exigência que fosse até os 18 anos. A Cidade da Criança tendo apenas 2 mães sociais, estava impossível. A questão financeira e a falta de funcionários eram impossíveis manter a modalidade abrigo de pé”, disse.

Tatiane explica que a Cidade da Criança recebe R$ 11 mil da prefeitura, oriundas de recursos livres. O local ainda recebe doações da comunidade e também da empresa Caminhos do Paraná, através do imposto de renda. No entanto, o valor não ajuda a sustentar o abrigo e o programa de contraturno que é realizado no local. “Além das crianças do abrigo, atendemos essas crianças do regime de contraturno, uma média de 80 crianças por ano que passam por aqui. Têm todas as refeições, trabalho pedagógico, oficinas e, mais, as crianças do abrigo. O fator recursos humanos e a falta de financeiro foram preponderantes para que se tomasse essa decisão”, afirma.

Crianças acolhidas

Atualmente, a Cidade da Criança possui sete crianças acolhidas na modalidade abrigo. “O número de acolhidos nos últimos anos diminuiu bastante, não é tão intenso, porque hoje em dia para se chegar a um acolhimento tem que ser uma causa extrema, se não, não sai da família”, conta Tatiane.

As crianças deverão ser transferidas até o dia 4 de março para a Casa Lar Municipal, mantida pela prefeitura de Irati. “Pelo que conversamos com a secretária Sibyl [secretária de Assistência Social de Irati, Sybil Dietrich], ela estará abrindo outra casa nova que o município já tinha. Essa transferência será gradativa, aos poucos, a equipe do município vai se fazer presente aqui para começar a ter vínculo com esses sete que estão aqui para que tudo ocorra tranquilamente”, relata a coordenadora.

Impacto

Apesar do anúncio, Tatiane explica que o encerramento não deverá deixar um impacto muito grande, já que o município possui condições de acolher todas as crianças e que o trabalho que a Cidade da Criança continuará fazendo deverá ajudar a prevenir situações futuras. “Eu acho que o impacto seria maior se deixássemos de oferecer o trabalho de proteção básica, porque esse trabalho é preventivo e o trabalho do abrigo já é corretivo. Se a criança chegar ao abrigo, é porque o preventivo falhou. De algum jeito, a esfera municipal falhou. Então, acho que o impacto do abrigo não vai ser tão relevante como seria se deixássemos de atender. Por exemplo, semana que vem começam 50 crianças aqui que estão realizando suas matrículas no projeto de contraturno. Acho que o impacto seria maior, porque essas crianças estariam na rua expostas aos riscos que a rua oferece”, conta.

No entanto, ela reconhece o sentimento de perda para muitos. “É uma perca principalmente por questões de história, é uma perca nesse sentido, uma saudade que vai ficar, mas que devemos trabalhar nesses novos projetos e servir de estímulo para outros equipamentos que trabalham com a proteção básica, para que esses acolhimentos não aumentem. Está aí a Família Acolhedora, mas quanto menos eles [as crianças] forem, melhor”, disse.

Em 28 anos de funcionamento, 450 crianças e jovens passaram pela Cidade da Criança.

Reabertura

Para Tatiane, é difícil uma reabertura. “É difícil estar fechando uma modalidade e pensar em reabri-la até porque é um trabalho que queremos que não aconteça e as políticas públicas nas três esferas tendem a acabar com os abrigos, para que quando haja o acolhimento institucional, essas crianças vão para a família acolhedora ao invés de ir para um abrigo. Nada é impossível, mas não existe essa previsão de reabrir o abrigo, muito pelo contrário, nossos objetivos são de ampliar as vagas no trabalho de proteção básica para que não vão para o abrigo e nem família acolhedora”, explica.

Projeto contraturno

O projeto Convívio Fraterno é um projeto de contraturno que atende crianças de 0 a 12 anos com diversas atividades há 18 anos. Somente no ano passado, 62 crianças passaram o dia na Cidade da Criança. “O objetivo do projeto não é educacional, ele é social, porque o objetivo é tirar essas crianças das ruas para que eles estejam evoluindo de alguma forma”, conta Tatiane.

O projeto conta com uma monitora que ajuda em atividades escolares. Além dela, há também voluntários que realizam diversas atividades no local. “Temos também parcerias com um voluntário que vem e faz oficina de yoga. Temos o próprio pessoal do Voluntaria que sempre está aqui fazendo atividades com eles. O IFPR [Instituto Federal do Paraná] é parceiro conveniado com a Cidade da Criança e toda sexta-feira eles estão aqui oferecendo aula de informática para essas crianças”, disse.

Com o foco direcionado ao projeto de contraturno, o Plano Pedagógico também está sendo reformulado. “Estamos com algumas oficinas previstas para começar em março. Uma delas será oficina de violão para adolescentes e jovens. Estamos em conversação com alguns outros voluntários e oficineiros para estar atendendo essa demanda. Um trabalho que está sendo realizado aqui é para as mães dos bairros que tenham interesse desenvolvido com as irmãs de artesanato reciclável, um trabalho bem bacana”, explica.

Texto: Karin Franco e Jonas Stefanechen

Foto: Jonas Stefanechen/ Hoje Centro Sul

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