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Edição 1178 - Já nas bancas!
30/08/2019

Saúde mental em desastres é tema de Congresso Internacional em Irati

Saúde mental em desastres é tema de Congresso Internacional em Irati

Um terremoto atinge uma cidade. Uma barragem estoura e invade outra cidade. Um incêndio em uma boate mata centenas de jovens. Um país tem diversas perdas humanas por causa de uma doença. Todas essas situações drásticas geram perdas de pessoas, familiares e amigos, além de impactar a população em geral. Como ajudar alguém que passou por algum desses desastres?

Foi com a missão de responder essa pergunta que os psicólogos Volnei Dassoler e Débora Noal falaram sobre suas experiências com sobreviventes da boate Kiss, em Santa Maria (RS), e com vítimas atendidas pela organização Médico Sem Fronteiras na América Latina e África.

A palestra ocorreu durante o IV Congresso Internacional de Saúde Mental, realizado na última semana, na Unicentro, campus de Irati, e que reuniu estudantes de psicologia, professores, pesquisadores e interessados pelo tema. Sob o título “Estratégias de atenção psicossocial em eventos críticos, situações de emergências e desastres”, os psicólogos também mostraram estratégias que podem ser usados por psicólogos nessas situações.

Médico Sem Fronteiras

Quando um desastre acontece no mundo, médicos e diversos profissionais de saúde são chamados para em 24 horas estarem no local e tratar das vítimas. Essa é a realidade da psicóloga Debora Noal que atua na organização Médico Sem Fronteiras há 11 anos.

Responsável no cuidado direto com as vítimas, Débora relata que nas primeiras horas é preciso montar uma estratégia de cuidado de saúde mental e iniciar os atendimentos, além de formar equipes em países onde há psicólogos ou equipes de saúde mental.

Foi a experiência utilizada em campo que ela trouxe ao público na última semana, onde compartilhou alguns métodos de ação, como informar sobre a situação às vítimas e se tornar uma ponte para encontrar a rede afetiva da pessoa, como familiares e amigos. Estratégias como disponibilizar um panfleto com as principais informações, como o que aconteceu e quais as reações esperadas a se ter são algumas das ações simples implantadas nas primeiras 24 horas.

No entanto, o maior desafio é conseguir atuar respeitando a cultura local, e os demais profissionais, que podem ter visões diferentes já que são oriundos de diversos países. “É sempre um grande jogo de cintura. Você tem normalmente poucas horas e pouco tempo para entender a estrutura cultural que você está entrando e qual é essa equipe que você está trabalhando, porque na organização que eu trabalho são mais ou menos 42 mil pessoas trabalhando, então nunca sabemos quem será enviado para aquela missão específica. Nós só sabemos que tem uma língua comum que a gente vai falar, que é ou o francês ou o inglês, entre nós e com a população nós vamos ter um tradutor”, explica.

Pastor

Foi com a história de um pastor na República Democrática do Congo que ela mostrou como a cultura local e as relações afetivas podem influenciar na recuperação, e como o profissional pode montar estratégias que ajudem nesse processo. Quando ela esteve no país, este enfrentava uma epidemia de ebola, doença que faz a pessoa ser isolada em um Centro de Saúde. A população queimava as casas das pessoas para que a doença não se espalhe e como a doença matava muitos, um boato na região começou a circular dizendo que no local se retiravam órgãos de pessoas.

Para mudar isso, a estratégia foi aproximar a comunidade do Centro de Saúde. “Uma das estratégias foi de filmar no lado de fora, parte das estruturas, filmar o áudio e a voz das pessoas que estavam dentro contando o que elas estavam vivendo lá dentro e como era o processo de cuidado”, contou.

Débora voltou à comunidade e mostrou o vídeo, que incluía a filmagem de um pastor local, admirado na comunidade. “Levamos a imagem com ele contando: ‘Os brancos me tratam muito bem. Eu comi até carne e bebi Coca Cola um dia desses’. Eu lembro que as pessoas nesse dia ficaram muito impressionadas, que elas nunca tinham visto uma imagem dentro de uma câmera. Imagina: não tem TV, não tem rádio, não tem jornal, mas de repente tem a pessoa que você conhece dentro de uma camerazinha, falando com você. Eu lembro que neste dia a comunidade se reuniu, de mãos dadas, fez como se fosse uma ciranda, dançou e cantou uma oração para ele, de quanto eles desejavam a volta dele”, relata.

A reação foi filmada e mostrada novamente no Centro de Saúde. “Era um expatriado focando com um projetor lá dentro da tenda, um desses sonzinhos bem rudimentares, outro segurando o computador e os três lá, segurando isso tudo para conseguir projetar lá dentro”, conta.

A reação do pastor foi súbita. “Ele levantou com sua Bíblia, deixou a postura de um paciente muito debilitado para assumir de novo a postura de cuidador. Ele se levantou, orou, mostrou a Bíblia, dançou com aquelas pessoas, mas não só eles, mas as pessoas na enfermaria dele, porque era a primeira vez que eles viam as pessoas todas andando e cantando bem no Centro. Era como se visse uma miragem, de pessoas dançando dentro da estrutura. E por incrível que pareça essas pessoas sobreviveram. Às vezes nos damos conta de que quando a medicina não dá conta, a medicação não dá conta, talvez o processo afetivo de cuidado é o que dá maior capacidade das pessoas resistirem. É inventar a vida mesmo quando todo mundo não tem uma solução”, disse.

Mas o que a marcou em todos esses anos foi a dor de mulheres que se viram sozinhas após perder seus filhos no continente africano. “Em 2009, um dos meus trabalhos era fazer a escuta das mulheres que estavam em processo de deslocamento forçado, que é como se fosse um processo de conflito armado, mas elas não saem do país, então elas se deslocam dentro das florestas para tentar se salvar. Boa parte das mulheres que atendi tinham perdido cinco, seis, sete, oito filhos. Chegavam muitas vezes sozinhas, depois de terem parido oito, nove filhos. Todos tinham sido, de alguma forma, exterminados, ou pelo conflito armado, ou pela violência sexual, ou pelo sequestro, ou por algumas chacinas pontuais. E as mulheres se percebiam no final da vida sozinhas, sem nenhuma estrutura sócio afetiva e sem ter com quem contar, lembrando que é um lugar onde não tem aposentadoria, não tem nenhum subsídio. Isso significa que se essas mulheres não tiverem filhos ou uma rede sócio afetiva, provavelmente a capacidade delas de sobreviver é praticamente nula, porque quando o corpo não conseguir mais andar, elas não vão ter ninguém para dar uma estrutura de suporte”, conta.

As experiências foram tão marcantes que Débora reuniu seus diários, usados como forma de desabafar, e compilou no livro “O Humano do Mundo. Diário de Uma Psicóloga sem Fronteiras”, lançado no ano passado. Ao fim da sua palestra, ela fez uma sessão de autógrafos do livro.

Boate Kiss

Na manhã de 27 de janeiro de 2013, a cidade de Santa Maria (RS) acordou com uma de suas piores notícias: o incêndio na boate Kiss que matou 242 jovens e feriu mais de 600 pessoas. A notícia chocou o país e reuniu um grande número de voluntários que foram até o local para ajudar os sobreviventes. Em meio à tragédia, um serviço para acolhimento das pessoas foi montado às pressas para o cuidado com sobreviventes e familiares.

No entanto, o serviço acabou se transformando em um local para cuidar da saúde mental da população. “Algumas pessoas que sofriam situações de violência no cotidiano estavam desassistidas do ponto de vista da saúde pública. Então, o contexto do incêndio na boate Kiss, neste primeiro momento foi endereçado e acolheu as demandas relacionadas diretamente ao desastre. No momento seguinte teve um benefício importante do ponto de vista da saúde pública, porque forçou o poder público a poder sustentar e manter um serviço de cuidado a outras pessoas que estavam invisibilizadas nas suas dificuldades a diferentes tipos de violência”, disse psicólogo Volnei Dassoler.

Em sua palestra, ele comentou um pouco de como foi esse cuidado e como esse serviço se consolidou. Segundo Volnei, entre sobreviventes e familiares, as reações após a tragédia foram diversas. “É interessante poder pensar que da parte dos sobreviventes eles tendem a querer esquecer o acontecimento porque isso produz lembranças que para eles, a forma terapêutica seria não lembrar disso. Curiosamente, por parte dos familiares, boa parte deles precisam lembrar ou desejam manter algum tipo de lembrança. Isso é característico do ser humano. Não podemos homogeneizar respostas ou reações diante de qualquer fato, inclusive um fato desses. Mas obviamente situações dessas vão poder sobressair conflitos já pré-existentes, tensões, culpas, mas enfim, dentro do possível, nós tentamos acompanhar essa situações”, comentou.

Com o passar do tempo, as pessoas foram conseguindo recuperar seu cotidiano, e a demanda diminuiu, atendendo menos casos. Assim, desde 2018, a prefeitura de Santa Maria transformou o serviço chamado “Acolhe Saúde” em “Santa Maria Acolhe”, que permanece oferecendo atendimento às pessoas envolvidas e afetadas. “Houve um termo de compromisso assinado com os governos municipal, estadual e federal de um cuidado de cinco anos, prorrogado por mais dez, então por parte do poder público esse serviço permanece sendo acessado sempre que necessário por algumas pessoas, com uma equipe multidisciplinar”, explica. A experiência da efetivação do serviço foi reunida em um livro “A integração do cuidado diante do incêndio na boate Kiss: Testemunhos e reflexões”, do qual Volnei é um dos organizadores.

Programação

A programação do IV Congresso Internacional de Saúde Mental reuniu diversos pesquisadores nacionais e internacionais. Na quinta-feira (22), aconteceu o lançamento dos livros da coleção Feminismo Plurais, com a presença de Djamila Ribeiro e Joice Berth. Já à tarde, no mesmo dia, aconteceu uma mesa redonda com a participação do pesquisador francês Sébastien Pesce e da pesquisadora Cinira Magali Fortuna. O congresso ainda recebeu as pesquisadoras Ana Marta Lobosque e Magda Dimenstein na quarta-feira.

No dia de encerramento, um dos destaques foi para a mesa redonda com participação dos pesquisadores Marcelo Kimati Dias e Marcelo Rossal, da Universidade da República do Uruguai, que discutiram controvérsias na política e na atenção às pessoas que fazem uso/abuso de álcool e outras drogas no Brasil e Uruguai.

Para um dos organizadores do Congresso, Gustavo Zambenedetti, a programação consolida o curso de Psicologia de Unicentro como referência. “Temos encontrados boas colocações que observamos no cotidiano dos alunos, em concursos, em posições de trabalho, em residências multiprofissionais, ou programas de mestrado, que já são resultado direto de uma formação que está bem coadunada com que se espera da psicologia hoje”, explica.

Autocuidado

De acordo com a psicóloga Débora Noal, o desastre pode trazer uma ressignificação da vida das pessoas, onde elas vão procurar qual a sua missão no mundo e o que dá sentido na vida. No entanto, ela lembra que isso não está apenas ligado a tragédias, e que todos podem fazer esse exercício. “Eu costumo dizer que todos nascemos com um botão de reset. Basta olhar para dentro e ver onde a gente toca, e onde queremos reiniciar. Sempre é possível reiniciar. Assim como um refugiado, um imigrante, um deslocado forçado é capaz de fazer isso, nós então em um contexto de rotina, mesmo com nossos lutos, nossos sofrimentos, somos muito capazes desde que a gente se disponha olhar pra dentro e ver que a estrutura do entorno talvez possa ser olhada de outra forma, e isso ajuda e muito, no nosso processo de luto, mas no nosso processo de ressignificação da vida”, disse.

Texto/Foto: Karin Franco/Hoje Centro Sul

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