facebooktwitterinstagramgoogle+
Edição 1164 - Já nas bancas!
14/08/2019

Pais superprotetores podem trazer prejuízo ao futuro dos filhos

Psicóloga e psicopedagoga relatam prejuízos da superproteção e caminhos para conseguir educar os filhos

Pais superprotetores podem trazer prejuízo ao futuro dos filhos

Durante nove meses, os pais esperam pela chegada de seu filho. Quando o bebê nasce, muitos fazem de tudo para protegê-lo. E nessa vontade de cuidar, diversos pais acabam se tornando superprotetores, criando uma redoma em volta do filho.

A boa intenção pode existir, mas a redoma da superproteção pode trazer consequências graves no futuro, como explica a psicopedagoga Loriane Filipak Fleischer. “É normal do pai e mãe proteger o filho, mas essa proteção acaba atrapalhando a autonomia do filho lá no futuro. A superproteção tem que ter um limite, quando ultrapassa esse limite, os fatores são negativos e acaba não tendo o efeito que os pais imaginam”, explica.

Para a psicóloga Rafaela Maria Ferencz, as crianças precisam ser expostas ao erro, como brincar e acabar se machucando. Nesse momento, o erro pode servir para a aprendizagem.Sempre faço essa orientação porque a dor é inerente à nossa vida. É impossível viver sem sentir dor. Todos nós sentimos dor em algum momento. Quando a criança é superprotegida, ela acaba não aprendendo a lidar com a dor e isso é um pouco preocupante”, destaca.

De acordo com a psicóloga, a superproteção pode fazer com que essa criança se torne um jovem que terá dificuldade de conviver com o erro. E essa dificuldade pode levar a doenças no futuro. “Percebemos que hoje, com o aumento da depressão e dos pensamentos suicidas e suicídios mesmo – entre os jovens aumentou muito –, notamos que hoje as pessoas estão perdendo a capacidade de resiliência; sofrer os baques que a vida traz, as dores, traumas e se permitir sentir essa dor e se recuperar. Claro que precisamos evitar que nossos filhos tenham traumas, mas eles precisam aprender a lidar com coisas que acontecem com todo mundo”, explica Rafaela.

Adultos inseguros também podem surgir graças à superproteção familiar. “A criança se torna insegura com muita proteção, com relação à aprendizagem, à escola e amigos. Isso causa prejuízos para a criança. Se os pais passam a segurança para os filhos, com certeza, vai se tornar um adulto mais seguro”, comenta Loriane.

Por que a superproteção acontece?

A psicopedagoga conta que os motivos para que isso aconteça são os mais diversos. Inclusive o fato de que muitos pais sequer percebem que estão sendo superprotetores. “O motivo depende de cada pai, às vezes é consequência de um carinho muito grande, de querer que o filho tenha as melhores coisas. Eu penso que o fato para os pais agirem dessa forma é que eles nem percebem. Quando o filho nasce também tem esse extinto de querer proteger, alguns claro conseguem viver dessa forma e outros excedem essa proteção. Essa proteção é por cuidado mesmo e isso acaba sufocando a criança”, explica.

O quê fazer?

Mas se a superproteção pode trazer problemas, quais caminhos buscar o equilíbrio na educação infantil? “A melhor forma de proteger um filho é sempre orientar e confiar na educação que você deu a ele. Estar sempre conversando com o filho, independentemente da idade. O diálogo fortalece muito e faz com que a criança cresça, tendo confiança nos pais. Como eu falei, a proteção tendo limite é muito saudável”, explica a psicopedagoga.

Para a psicóloga, os pais precisam deixar seus filhos passarem por situações onde eles aprendam a avaliar riscos. “O mais próximo do ideal que o pai pode fazer é avaliar o perigo, deixar ela [a criança] correr e sofrer esses riscos. Se ela se machucar, acolhe essa dor dela. Temos que mostrar para a criança que todo mundo tem dor, mostrar que todos temos que passar por aventuras para conseguir”, afirma.

Liberdade orientada

Ao mesmo tempo em que a superproteção pode prejudicar, a liberdade da criança precisa ser orientada e algumas vezes, limitada. “É necessário ter um cuidado também. Não pode deixar o filho fazer o que quer. Tem que dar liberdade para o filho de acordo com cada fase. A proteção tem que se adequar com a idade da criança”, explica a psicopedagoga. E definição de limites requer atenção dos pais segundo a psicóloga Rafaela. “Nós como adultos vamos mostrar para as crianças até onde ela pode ir, temos que ser bem incisivos nessa parte. Por exemplo, você pode brincar com seu irmão, mas não pode bater nele. Tem que mostrar os limites do que pode e não pode. Fazer ela se colocar no lugar do outro, mostrar os perigos e explicar”, exemplifica.

O não também precisa estar no vocabulário. “O pai tem que dizer não, entender que tem momentos que pode e momentos que não pode. Usar a psicologia positiva pode ser muito produtivo, por exemplo, dar uma opção pra criança de que não pode jogar bola lá fora porque está chovendo, mas vamos jogar aqui dentro e tomar cuidado pra não quebrar nada. Mostrar as alternativas e dar limites é bem importante. Têm pais que são tão superprotetores que não querem dizer não para os filhos, isso é superproteção também. Alguma hora elas vão ouvir não na vida e vão ter dificuldade de relacionamento”, alerta a psicóloga.

Segundo a psicopedagoga, cada filho precisa ser avaliado para ver até onde a liberdade pode ir. “Temos que ter uma avaliação para saber até onde posso ir com meu filho, até onde eu não posso. Claro que nas primeiras fases da criança, onde ela está construindo realmente, tem que ter um pouco de proteção, mas depois tem que confiar na educação que você deu a seu filho para que ele saiba o que é certo e errado”, relata a psicopedagoga.

Análise diária

O desafio é que não existe uma regra até onde cada um pode ir, especialmente porque o amadurecimento pode ocorrer em momentos diferentes. “Os pais tem que sentir aonde que pode dar a liberdade. Eu já posso dar um celular para o meu filho? Essa é uma pergunta que vários pais fazem. É necessário avaliar a maturidade do filho. Se eu der o celular para ele, vai usar da maneira correta? Para os pais que tem vários filhos, tem que ter em mente que eles vão amadurecer de maneira diferente também, vai ser necessário avaliar um a um”, enfatiza a psicopedagoga.

A dica para conseguir fazer essa análise é tentar entender a criança. “Tem que analisar o dia a dia do seu filho, nas pequenas responsabilidades que você dá a ele, assim vai notar se ele já está pronto para algo maior. Quando você tem a confiança que você dá uma regra e ele desenvolve. Se você pede para que ele se esforce no estudo e ele retribui”, explica Loriane.

E se der errado?

Uma das grandes preocupações de alguns pais é que determinadas práticas, como dar mais liberdade, podem dar errado. Para a psicopedagoga, o diálogo é a ferramenta para tentar encontrar um caminho. “O mais importante é tentar conversar, entender o que aconteceu. É necessário sentir confiança na história que o seu filho contar. Não podemos impedir tudo e deixar o filho em uma redoma, tem de soltar aos poucos. Tem que ter uma relação de confiança e diálogo, apesar de ser criança, tudo que você conversa e combina com eles é cumprido, mas tem que conversar. É melhor você ensinar seus filhos da forma correta porque se não eles vão aprender fora de casa”, disse.

Pais separados

A separação é um desafio para os pais, que não são mais um casal, mas precisam chegar a um acordo. “Único conselho que eu dou para pais separados é que marido e mulher pensam diferente. Pai e mãe têm que pensar igual. A partir do momento que por mais que estejam separados, pensem no filho da mesma forma, que é o ideal para ele, vai ser um sucesso. Caso contrário, a criança vai ficar perdida diante de duas situações”, comenta a psicopedagoga.

Para a psicóloga, os dois precisam combinar as regras. “Pais separados têm que combinar as regras: qual é a rotina da criança? O mais ideal seria a guarda compartilhada, coisa que vemos pouco hoje em dia. O mais importante é o diálogo entre os dois, e colocar regras e rotinas parecidas, combinar também o que a criança vai ganhar de presentes”, explica.

Texto: Karin Franco e Jonas Stefanechen

Foto: Pixabay

Galeria de Fotos