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Edição 1163 - Já nas bancas!
02/08/2019

Taxa de cesáreas na região Centro Sul é três vezes maior que recomendada pela OMS

Taxa de cesáreas na região Centro Sul é três vezes maior que recomendada pela OMS

A taxa de realização de partos por cesáreas nos municípios da região Centro Sul é três vezes maior que a taxa recomendada pela Organização Mundial de Saúde (OMS). De todos os partos realizados na região, 53,42% são através de cesáreas e 46,57% por meio de partos normais. A taxa recomendada pela OMS é de 10% a 15% de partos por cesárea.

Os dados são do sistema DataSus, do Ministério da Saúde, através do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (SINASC) e são referentes ao ano de 2017, os mais atualizados. O levantamento leva em consideração a cidade na qual a mãe é residente.

Mais de 60% dos partos realizados em Rio Azul, Irati e Mallet são através de cesáreas. A taxa maior é em Rio Azul, onde 66,66% dos partos são cesáreas. Em seguida, estão Irati (61,88%) e Mallet (60,35%).

Já em Inácio Martins, a taxa de cesáreas cai pela metade, 34,30%, a menor da região. No município, 65,69% dos bebês nascem através do parto normal. Ainda entre os municípios com menores taxas, Guamiranga tem apenas 36,84% dos partos através de cesáreas e em Fernandes Pinheiro, a taxa é de 40,19% de cesáreas.

A taxa de cesárias na região é próxima da taxa brasileira. No país, 55% dos partos são feitos através de cesáreas.

Causas

Parte dessas cesáreas que acontecem no país são as chamadas cesáreas eletivas, quando a gestante decide passar por uma cesárea, mesmo sem indicações. Segundo os médicos, diversos fatores culturais, sociais e econômicos podem explicar a opção por este tipo de parto, resultando nos altos índices.

 “Tem uma parte cultural que influencia por quem tem dinheiro e escolhe fazer a cesárea. Eu trabalho no SUS e vejo muito que a paciente chega falando que vai pagar e é triste, porque ela não quer nem escutar o que é melhor para o bebê ou para ela. Tem aquela ideia de achar que se você está pagando é o melhor”, disse a médica ginecologista e obstetra, Paula Sedoski.

Outro fator apontado é o perfil da gestante, que muitas vezes trabalha e precisa se ausentar do emprego. Com a cesárea, gestante, médico e empresa conseguem se planejar. “Ela vai poder escolher o dia, a hora, vai poder se programar quando tirar férias, já programa toda a licença maternidade”, cita a obstetra.

A médica ainda explica que a experiência de outras mulheres na família também pode influenciar. “Se teve uma história na família de que o bebê não nasceu bem de parto normal, alguma história desfavorável, a paciente já vem tendendo a isso. Mas porque ela não teve uma orientação correta. Ela vem com os próprios conceitos sobre aquilo”, disse.

Para a obstetra Fernanda Torras, outros fatores também influenciam como o desejo de escolher a data do nascimento do filho, medo de alterar a função sexual e crença de que na cesariana há menor possibilidade de sofrimento fetal durante o parto.

As médicas também destacam que um pré-natal sem muita informação pode ser uma das causas da opção pela cesariana. “Percebo na prática que muitas pacientes têm medo do parto normal principalmente por acharem que não terão força suficiente ou não aguentarão a dor. Noto que há pouca conversa no acompanhamento pré-natal sobre o momento do nascimento, sobre os benefícios do parto normal para mãe e bebê e sobre os riscos de uma cesárea”, conta a obstetra Erika Mauch Vaz.

Para a médica Paula, a própria estrutura de atendimento, sobretudo na saúde pública, dificulta a troca de informações. “O médico vai ao pré-natal do SUS para atender 50 mulheres em um período de quatro horas. Como vai ter tempo de discutir com a mulher os benefícios do parto normal e os benefícios da cesárea? Não tem esse tempo. Fica com o que a mulher tem na cabeça”, explica.

A disponibilidade de equipe também é apontada para uma das causas. “A disponibilidade do obstetra, geralmente pela remuneração dos convênios, seria garantida em cesarianas programadas. Porém, em casos de parto normal, a gestante fica insegura de ser acompanhada por outro profissional no caso de trabalho de parto de urgência”, conta a obstetra Fernanda.

Nos casos de parto normal, há ainda a dificuldade de ter outros profissionais que possam acompanhar a gestante durante o trabalho de parto, como enfermeiras obstetras e anestesistas para analgesia de parto. “O contrato de anestesistas plantonistas está vinculado, na maioria das vezes, a procedimentos cirúrgicos”, explica.

Para o médico e para o hospital é conveniente economicamente a cesariana devido à possibilidade de programação, comenta a obstetra Paula. “Eu programo para antes de começar a minha agenda, vou lá, falo pro consultório e tenho meu dia normal, pensando no horário do obstetra. E pro hospital também porque sabemos certinho a hora que ela vai internar e a hora que ela vai embora do hospital, mas pensando mais em um setor privado”, disse.

Riscos da cesárea

Os médicos destacam que a cesárea sem indicação é uma cirurgia como qualquer outra e traz riscos como outras cirurgias. “É uma via cirúrgica na qual vamos cortar diversas camadas de tecido até chegar no útero e tirar o recém-nascido. Comparando os dois [normal e cesárea] a cesárea é o que tem maior risco de infecção e hemorragia. Já a cesárea eletiva traz alguns riscos para o recém-nascido como o sofrimento respiratório e até algumas doenças respiratórias na primeira infância. A cesárea na hora do parto aumenta o risco por infecção porque já houve um contato para o parto normal, até ser feito o procedimento de cesárea aumenta o risco mesmo sendo indicado”, explica a obstetra Paula.

O obstetra Leopoldo Cruz Vieira destaca ainda que há a questão do aleitamento que pode demorar um pouco. “Mães que passam pelo parto cesárea, eletivo, muitas vezes não foram liberados hormônios para produção do leite, por esse motivo a mãe pode ter mais dificuldade no aleitamento”, disse.

O pós-operatório também exigirá alguns cuidados da nova mãe. “No geral, cuidados com a fibra operatória, cuidado com o esforço físico excessivo, cuidados com alimentação para que o intestino volte a funcionar mais rápido e cuidados para voltar à rotina maior de vida”, disse o obstetra Leopoldo.

Cesárea não é vilã

Os médicos alertam que a cesárea não pode ser vista como vilã. “Todo procedimento cirúrgico tem seus riscos e complicações, mas não podemos esquecer e deixar de salientar que cesáreas salvam vidas, então não podem ser colocadas como empecilho nessas situações”, explica o obstetra Leopoldo.

As cesáreas se tornam benéficas quando há a indicação. “Situações em que o parto normal torna-se arriscado, para mãe, bebê ou ambos. Exemplos: fetos pélvicos (sentadinhos, de bumbum para baixo), fetos macrossômicos (grandes demais), sofrimento fetal ou descolamento de placenta”, explica a obstetra Erika Mauch Vaz.

Segundo Leopoldo, algumas cesáreas são de absoluta emergência. “Em casos de eclampsia, quando a paciente tem hipertensão associada a convulsões; os prolapsos de cordão, quando o cordão sai pelo orifício do colo uterino e até chega a sair pela vagina; no caso de sofrimento fetal, em que se recomenda uma cesárea formal urgente. E nos casos de placenta prévia total, em que se apresenta sangramento”, disse.

Outras indicações são em casos de lesões de herpes genitais ativas no trajeto do parto, HIV materno com alta carga viral e malformações pélvicas da mãe, além de malformações do feto. “Malformações do feto compatíveis com a vida, mas que trariam riscos na passagem por parto normal (exemplo: gastrosquise e intestino exteriorizado)”, explica Fernanda.

Parto normal

Para o obstetra Leopoldo é importante que os riscos para o parto normal  também sejam esclarecidos às gestantes, para que não se tenha dúvidas. “No futuro a paciente pode apresentar incontinência urinária, prolapsos uterinos, o bebezinho no parto às vezes tem uma distorce de ombro, ou seja, uma dificuldade para extrair o ombro e às vezes surgem fraturas de clavícula, que não seja necessariamente culpa do médico, mas para que o bebe não tenha problemas ao nascer; possíveis lesões perineais, que são de quando o bebê é extraído e causa lesão na vagina e causa lacerações na vagina e a exaustão materna, com partos demorados que podem durar mais de doze horas, que talvez faça com que a mãe não consiga amamentar o bebê no pós-parto”, disse.

Mas, mesmo com esses riscos, os médicos são unânimes em dizer que o parto normal é a preferência em casos de um pré-natal tranquilo sem complicações. “Para a mãe, o parto normal é mais benéfico pela maior produção de leite, diminui as chances de hemorragia pós-parto e infecção. Para o bebê, inúmeras. Ele prepara o bebê para a vida, ele prepara a mamada na parte da musculatura, tem até estudos que comprovam que os bebês que nascem de parto normal vão ter maior chance de não usar aparelho ortodôntico, diminui o risco de infecção neonatal, o risco de problemas respiratórios. O parto normal, já diz no nome, que é o normal do nascimento”, disse a obstetra Paula Sedoski.

Ela comenta que também há situações em que a escolha pelo parto normal é o mais indicado por ser mais rápido no momento, mesmo que uma cesárea pudesse ser feita. “Quando você faz um diagnóstico de um desenvolvimento fetal agudo, normalmente na hora do parto cai os batimentos do bebê, você tem que optar pela via de parto mais rápida, e muitas vezes a via de parto mais rápida não é a cesárea. Temos formas para que o tempo de parto normal seja reduzido que vai ser muito mais rápido do que levar a mulher para uma sala de cesárea, chamar o anestesista, anestesia, se lavar, paramentar tudo para começar a cesárea, e talvez o bebê já tivesse nascido de parto normal, e o sofrimento fetal quanto menor tempo o bebê ficar com oxigênio diminuído é melhor”, disse obstetra Paula.

Pré-natal

Para os médicos, é no pré-natal que os riscos e benefícios do parto normal e da cesárea para cada gestante precisam ser explicados. “É no período do pré-natal que o médico deve explicar para sua paciente a importância de esperar o momento certo para o bebê nascer, aconselhando evitar a cesárea eletiva, já que existem métodos não farmacológicos de evitar a dor excessiva, dando mais conforto e amparo, e quando necessário existe a analgesia farmacológica”, explica o ginecologista e obstetra Alberto Guimarães.

Um dos meios encontrado por gestantes é realizar um plano de parto, junto com o médico, que especifique tudo o que gostaria no dia do parto, desde quem acompanha até os procedimentos a serem feitos. “O objetivo do plano de parto é a gestante saber tudo que vai acontecer com ela, ou que pode acontecer com ela, e ela vai concordar com tudo isso ou discordar, e vamos chegar a um consenso. Essa paciente já vai mais tranquila, orientada, vai saber tudo que vai acontecer”, disse a obstetra Paula Sedoski.

No entanto, para muitas gestantes nem sempre há essa possibilidade. “Se for seguido o cronograma de pré-natal adequado, com consultas suficientes e possibilidade de discutir estes aspectos, a gestante chega ao parto sem dúvidas. Porém, nem sempre há a disponibilidade de consultas frequentes ou oportunidade em discutir com o obstetra de pré-natal estes aspectos. Em serviços onde há palestras sobre parto, as dúvidas podem ser solucionadas. O médico deve mostrar em números e estudos os riscos, diferenças entre as vias de parto, motivo por adequar aquela via de parto a mulher”, conta Érika.

O ideal é que se crie um vínculo entre médico e a paciente durante o pré-natal e que esse vínculo seja respeitado, especialmente no SUS, trazendo mais confiança à gestante. “Faça um bom acompanhamento pré-natal, pratique atividade física leve e mantenha-se mental e fisicamente ativa durante a gestação. Mantendo-se informada e tendo um bom vínculo médico-paciente as chances de um trabalho de parto evoluir para parto normal são grandes”, finaliza a obstetra Érika.

SUS é gratuito

A obstetra Paula Sedoski lembra que o Sistema Único de Saúde é gratuito. “O paciente tem que entender que pelo SUS não tem que pagar, é tudo de graça, inclusive a cesárea. Inclusive o paciente assina um termo que ele sabe que não tem que pagar nada e se ele pagar é crime”, disse.

Texto: Karin Franco/Hoje Centro Sul

Foto: Pixabay

 

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