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Edição 1178 - Já nas bancas!
05/07/2019

Iratiense e namorada fazem expedição pela América do Sul

Iratiense e namorada fazem expedição pela América do Sul

“Apreciar melhor a vida, viver cada dia de uma forma diferente, conhecer o mundo e fazer disso nosso trabalho”. Está foi a decisão tomada por Rubens e Larissa para o ano de 2019. No dia 11 de janeiro, o jovem casal partiu de Irati dirigindo uma caminhonete, rebocando trailer, com a proposta viver novas experiências em vários locais da América do Sul.

Nos planos do iratiense Rubens Surek, 35 anos, e sua namorada Larissa Serafini, 29 anos, natural de Palmas, eles pretendiam chegar até o Ushuaia, na Argentina, depois ir até Machu Picchu, no Peru, e voltar ao Brasil. Isso tudo até o final de setembro. Mas, alguns percalços, como enchentes e nevascas, farão com que a viagem demore um pouco mais, o que não os desanima.

Para Rubens, a expedição é a realização de um sonho de infância e a oportunidade de “ver o mundo com outros olhos”.  Diante de paisagens deslumbrantes e podendo decidir quantos dias permanecer em cada cidade ou vilarejo, ele conta que a motivação por desbravar novos horizontes aumenta. “Se estas motivações me fizeram partir, as que surgem no caminho me fazem querer ainda mais. E agora, me encontrei nesta vida. Mais simples, mais minimalista, mais intensa. Do jeito que eu queria”, diz.

Ele conta que sempre foi apaixonado por viagens e acredita já ter feito muitas, entretanto, agora a experiência é outra. “Ainda precisava provar dessa vida um dia ou nunca viveria sossegado. Viajar pela América do Sul nunca me saiu da cabeça. Mas não queria apenas visitar. Eu queria viver a América do Sul e agora ela é nosso quintal. E que quintal bom pra brincar e voltar a ser criança”, relata.

Larissa frisa a intensidade da experiência. “Aqui, cada dia é diferente um do outro. Saímos de uma cidade a outra sem saber como será, nem onde vamos ficar e nem o que encontraremos. É inusitado. De repente você está em meio a um deserto, na companhia de guanacos na beira da pista e aí surge um cerro tapado de neve. Uauuu! É de arrancar suspiros. E por falar em neve... Que linda! E o idioma? E os produtos no mercado! E o clima? É demais. Que experiência intensa”, diz.

Custo da viagem

O casal afirma que está fazendo uma viagem autossustentável. Eles têm como renda fixa o aluguel de uma casa pequena em Irati e para poder custear todas as despesas dos passeios,  ao longo do percurso fabricam e vendem trufas de chocolate, docinhos e artesanatos. Também  fazem trabalhos temporários para melhorar o orçamento.

“Na questão financeira podemos dizer que as coisas por aqui são parecidas com a vida em Irati. Trabalhar para bancar despesas de mercado, combustível, farmácia, equipamento para o trailer, diversão etc. E a vantagem aqui é que aqui não temos algumas despesas fixas, como conta de água, luz, telefone, internet”, relata Rubens.

Segundo ele, a maior preocupação é deixar a mecânica da caminhonete sempre em dia, o que consome grande parte dos recursos. Nas demais necessidades do dia-a-dia, sempre economizam o que podem.  “Levamos uma vida bastante simples e econômica, abrindo mão de muitas coisas para fazer passeios, comer algo tradicional e seguir viagem”, comenta.

Eles mantêm uma reserva financeira, para uma eventual emergência. Entretanto, ao longo dos dias, às vezes, acabam gastando um pouco mais que do que imaginavam. “Quando bate aquele aperto, damos um gás na produção de doces e vamos pra rua vender mais”, comenta.

Dificuldades

Eventos climáticos têm sido as principais dificuldades enfrentadas pelo casal.  Uma enchente, logo no início da viagem foi o primeiro percalço. “Estávamos apenas em nossa segunda parada, Penha – SC, no dia em que esta sofreu a maior enchente de sua história. Fotos e notícias no dia seguinte mostraram 90% da cidade alagada e muita destruição. Por sorte ou por benção, havíamos deixado caminhonete e trailer em uma quadra que alagou pouco. Molhou o assoalho do trailer e o porta malas da caminhonete. Estávamos no mercado e não podíamos fazer nada. Um baita teste para nossas forças e nossos medos”, relembra Rubens.

Inicialmente, nos planos do casal, eles percorreriam a Patagônia e chegariam ao norte da Argentina antes do inverno. O que não ocorreu, o percurso demorou mais que o planejado e o  gelo tem sido mais um obstáculo a ser transposto.

“Embora gostemos do frio, nossa casa não está preparada para o inverno rigoroso da Patagônia. Além disso, estradas congeladas ou nevadas ficam igual a sabão e a dirigibilidade acaba sendo um risco. Ainda mais rebocando um trailer. Mas os caminhos nos levaram a tantas surpresas que diminuímos o passo. Estamos em plena Patagônia argentina, o frio nos alcançou e algumas nevascas já deram as caras. Uma manhã com -12C e gelo até dentro de casa já mostrou o que vem pela frente. E se os planos mudaram, vamos aproveitar e fazer disso uma experiência inesquecível, então. Agora é preparar o couro que lá vem mais gelo”, diz Rubens.

Outra dificuldade foi ter de ficar mais tempo em algumas cidades devido a problemas mecânicos, seus ou de outros viajantes que precisam de ajuda. Também tiveram que permanecer mais tempo no Brasil, aguardando notícias de familiares hospitalizados.

Viver é melhor do que ter

Questionados sobre o que mudou, desde janeiro até agora, depois de terem percorrido mais de 12.000 km entre Sul do Brasil, costa do Uruguai, Sul do Chile e Argentina, Rubens enfatiza que aprendeu a descomplicar e a viver com menos, o que o faz feliz.  

“Estou procurando afastar-me de toda negatividade e do que faz mal. Coisas que nos deixam tensos e nos provocam medo, insatisfação, revolta e conflitos. Isso nos faz pensar que a vida está complicada, quando nós é que complicamos a vida. Nossos confortos, consumismos loucos e ritmo acelerado por coisas materiais não nos levam a nada. Não vale a pena. Viver é melhor do que ter. Aqui passei a dar mais valor às coisas e aos gestos simples. Tenho menos coisas que antes e vejo que não preciso de tanto para ser feliz. Passei a agradecer mais e a reclamar menos. Vi que generosidade, realmente, gera generosidade. Aprendi a ajudar hoje, porque quando menos se espera, há alguém para te ajudar. Que o calor insuportável, que muitas vezes incomoda no verão, faz muita falta. E vejo o quanto o mundo, nosso país e nossa cidade podem ser muito melhores do que são. A receita nós temos, mas ainda nos falta praticar. Pessoas de todo canto nos escrevem dizendo que estão buscando inspiração em nossa história. E como não sentir-se melhor diante de tudo isso? A sensação é das melhores”, relata. 

Esforço e recompensa

Ao responder o que mudou em você desde o início da viagem, Larissa afirma que está mais consciente e grata.  “É uma relação massa entre esforço e recompensa. Sinto que vivo a cada dia sem perder nenhum. Quando estamos em uma trilha, por exemplo, e bate o cansaço, respiro fundo e continuo, porque sei que logo em frente está a recompensa. Quando percebo estamos ali, mirando uma paisagem surreal que se eterniza em nossas memórias. Fazendo uma analogia e trazendo isso para nossa realidade, percebo que nossa vida não deixa de ser uma trilha e que em trechos de maior dificuldade, exige maior esforço, é necessário respirar fundo, manter a calma e a serenidade para alcançar o êxito e apreciar a conquista. Ter essa consciência hoje faz eu me sentir melhor, comigo e com o mundo. Me faz aceitar mais as coisas como elas são e quando são. Faz de mim um ser mais consciente, menos ansiosa e mais grata por tudo. Para colher bons frutos precisamos plantar e às vezes é preciso arriscar”.

O casal mantem a fan page Los Munderos para ir contando sobre a viagem 

 

Texto: Letícia Torres

Fotos: Divulgação/Los Munderos

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