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Edição 1135 - Já nas bancas!
29/03/2019

Técnicas de defesa pessoal são alternativa para que mulheres evitem sofrer violência?

Professor de artes marciais, Polícia Militar e representantes do Núcleo Maria da Penha de Irati discutem prós e contras de as mulheres utilizarem técnicas de defesa pessoal em situações de violência

Técnicas de defesa pessoal são alternativa para que mulheres evitem sofrer violência?

No ano passado,536 mulheres foram vítimas de agressão física a cada hora no Brasil, somando 4,7 milhões de mulheres que sofreram algum empurrão, chute ou batida. Os números são do relatório produzido pelo Fórum de Segurança Nacional, juntamente com o Datafolha.

Os números assustam. São 16 milhões de brasileiras com 16 anos ou mais que relatam ter sofrido algum tipo de violência nos últimos 12 meses antes da pesquisa. Dessas, 4,6 milhões foram tocadas ou agredidas fisicamente por motivos sexuais e 1,7 milhão ameaçadas com faca ou arma de fogo.

Diversas alternativas para combater esse cenário são discutidas atualmente. Uma delas são as técnicas de defesa pessoal. O jornal Hoje Centro Sul conversou com profissionais de diferentes áreas para debater os prós e contras dessa alternativa.

Autocontrole

Muito conhecida por quem já pratica um esporte marcial, a defesa pessoal tem sido uma alternativa procurada por mulheres. O professor da academia Irafight de Irati, Leandro Bugay, conta que criou um curso, que iniciará na próxima semana, por causa da demanda apresentada pelas próprias alunas que já frequentam a academia. “Na academia, com as meninas que já treinam, eu passo algo de defesa pessoal, porém elas falam: ‘Poxa professor, poderia aplicar mais defesa pessoal’”, disse.

Para o professor, a mulher pode aprender a lidar com situações de violência, como em balada ou até mesmo em um relacionamento. “Ela tem que saber a defesa pessoal, porque para muitas mulheres não deu tempo de fazer um boletim de ocorrência, e algumas não fazem mesmo, por gostar demais [do parceiro] e esse é o problema, essa questão psicológica. Vamos trabalhar com o autocontrole, para não deixar o medo tomar conta e aprender a se localizar para buscar ajuda em um local seguro”, explica.

Segundo ele, o autocontrole é parte do treinamento de quem pratica artes marciais. “Nós usamos muito o autocontrole, tanto para a pessoa não agir por impulso, tanto para não ficar com medo. Ela vai saber trabalhar na hora certa, precisou da defesa pessoal vai saber”, conta.

Autoestima

Para a 1º tenentedo Quadro Especial de Oficiais da Polícia Militar, Gisleia Aparecida Ferreira,a defesa pessoal pode ajudar na autoestima da mulher, que consegue se sentir mais confiante. “As mulheres que praticam algum tipo de arte marcial, ou até mesmo curso específico de defesa pessoal, certamente têm uma autoestima maior, e sentem-se mais seguras diante de algumas situações em que aparece uma possível ameaça a elas. Somente irá se defender efetivamente, usando algum tipo de golpe de defesa pessoal, quem já o praticou, quem conhece técnicas”, disse.

No entanto, a tenente explica que, em geral, ainda a prevenção é a melhor saída para evitar possíveis agressões. “Por exemplo, evitar locais ermos, ou andar sozinha por estes locais. Solicitar para que familiares a encontrem, por exemplo, quando termina a aula ou sai do trabalho e precisa ir para casa, e esta casa é mais retirada, os familiares podem ir encontrá-la, o que certamente já inibirá possíveis tentativas de agressão”, disse.

Segundo ela, há dificuldades em conseguir identificar o agressor. “Um perfil? Não existe. Pode ser um morador de rua, como também pode ser um executivo. O agressor não tem perfil específico. Não tem rótulos”, relata.

Problema real

Acoordenadora do Núcleo Maria da Penha de Irati (Numape) da Unicentro, professora Katia Alexsandra dos Santos, alerta que conhecertécnicas de defesa pessoal não éa solução para o combate à violência à mulher. Ela destaca que esse combate envolve diversos fatores, como a educação da sociedade e ações por parte dos órgãos de segurança.

Para a coordenadora, mesmo conhecendo as técnicas, a mulher pode não conseguir se defender.“Acredito que um curso de defesa pessoal deva ser feito por pessoas que têm interesse em lutas, por outros motivos. Não para se defender de situações de violência. As mulheres não deveriam precisar lançar mão de recursos como esse para se defenderem, sobretudo em situações de exposição à violência, já que possivelmente, mesmo que tenham treinamento, não conseguirão fazer uso das técnicas aprendidas e, dependendo do caso, pode agravar ainda mais a situação para si mesma ao fazer uso desse recurso. É preciso deixar claro que não são as mulheres que têm que se responsabilizar pela sua segurança, mas os órgãos de segurança pública e a sociedade como um todo”, disse.

Ela ainda chama a atenção que a mulher não deve ter sua liberdade restringida no combate à violência. “Temos que tomar cuidado para que não sejam criadas alternativas que culpabilizem ou restrinjam as ações das mulheres, por exemplo, dizer que uma mulher não deve usar determinado tipo de roupa ou circular por determinados espaços para se proteger, isso é impedir que tenham liberdade. É claro que são válidas iniciativas como projetos de andarem juntas, entre outras estratégias de cuidado coletivo entre as mulheres, contudo ainda estamos falando de responsabilizá-las e não de cessar a violência”,alerta.

Para ela, a solução para esta questão passa por um longo trabalho de conscientização da população para as questões de diferenças sociais, econômicas e políticas que há entre mulheres e homens. “A única alternativa é a prevenção e prevenção se faz via educação. Uma sociedade que respeite as mulheres e viva a partir da ótica da igualdade de gênero é o que precisamos para acabar com a violência. Obviamente que se trata de uma solução a longo prazo, mas não há outro caminho”, destaca.

Núcleo Maria da Penha

O Núcleo Maria da Penha oferece atendimento jurídico e psicológico a mulheres vítimas de qualquer tipo de violência seja psicológica, moral, sexual, patrimonial e física.

O projeto tem atendido pessoas de Irati, Rebouças, Inácio Martins, Prudentópolis, entre outros municípios. Não há necessidade da efetivação de denúncia para o atendimento. As pessoas que tiverem dúvidas sobre o funcionamento do projeto podem ligar e agendar um horário pelo telefone: (42) 3421-3086.

 

Curso

O curso de defesa pessoal na academia Irafight de Irati iniciará no dia 6 de abril. As aulas serão no período da tarde. O valor da aula será R$ 80.

Texto: Da Redação/Hoje Centro Sul

Fotos: Pixabay

 

 

 

 

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