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Edição 1134 - Já nas bancas!
27/03/2019

Escolas se organizam para combater o bullying

Escolas se organizam para combater o bullying

As recentes notícias sobre violência nas escolas têm feito ressurgir o debate sobre o bullying. O ato em que um aluno ou grupo de alunos pratica uma violência física ou psicológica contra outro é um antigo conhecido das escolas, que tentam encontrar maneiras de tratar sobre o assunto no cotidiano do ensino.

Em Irati, os meios para tratar deste assunto são os mais diversos: desde a prevenção até conversas individuais com agredido e agressor, e suas respectivas famílias. O jornal Hoje Centro Sul conversou com três escolas para que contassem suas experiências sobre os trabalhos. Conheça os trabalhos e desafios da Escola Estadual Nossa Senhora das Graças, do Colégio Estadual João de Mattos Pessoa e do Centro Estadual Florestal de Educação Profissional Presidente Costa e Silva.

Primeira atitude

Uma das primeiras atitudes que as escolas procuram realizar é atuar antes que algum caso aconteça. É o caso do Centro Estadual Florestal de Educação Profissional Presidente Costa e Silva, que recebe alunos de diversos estados, que vem estudar em um sistema de internato.

O colégio tem atuado com um projeto para conscientizar os alunos. “Nós passamos filmes, discutimos filmes e textos. Discutem, conversam, eles produzem materiais. Tudo voltado ao respeito, respeito ao outro”, conta a pedagoga Emanuelle Laars Trevisan.

A diretora pedagógica,Eloimar Palma de Lima, destaca que outro trabalho é realizado ainda na chegada do estudante ao colégio. Quando esse aluno ingressa, a equipe faz uma entrevista individual para conhecê-lo e também para o aluno conhecer como a escola trabalha. “Nósinclusive perguntamos sobre bullying, se já sofreu, como ele vê a questão do bullying e como ele administra essa questão. Fazemos uma conversa logo que eles entram”, conta.

No Colégio Estadual João de Mattos Pessoa o trabalho de prevenção também é realizado. Além da confecção de cartazes, há conversas com a Patrulha Escolar que também ajuda na prevenção ao bullying. “Nos sextos anos inclusive, a Patrulha já passou em todas as salas para uma conversa, porque na faixa etária do adolescente, geralmente o bullying começa na brincadeira do futsal na quadra, no ping-pong. É um termo que se usa ali numa brincadeira, em um determinado momento o aluno até aceita, mas de repente começa a se tornar constante no apelido e acaba se tornando em um problema que vira agressão”, explica a pedagoga Maria Alair Guilherme.

A orientação vai inclusive até os pais. “Nas reuniões de pais abordamos o caso. Ontem, por exemplo, esteve o patrulheiro, nós sempre chamamos e sempre é abordado o tema, com uma orientação aos pais. É um trabalho constante”, explica a diretora Marilisa Aparecida Vidal de Andrade Hamad.

Na Escola Estadual Nossa Senhora das Graças, o trabalho de prevenção também é feito, especialmente no início do ano com a fala da diretora, a irmã Alecsandra David, que reúne os alunos para uma conversa. Há ainda o trabalho da equipe pedagógica que também planeja conversas com os alunos. “Às vezes, aproveitamos um momento que o professor faltou e vai lá e trabalha na turma situações que já sabemos que estão ocorrendo. Utilizamos os momentos com textos, com leituras, falas, até com vídeos”, explica a professora e pedagoga Arilda Moletta.

Dia a dia

Apesar do trabalho preventivo, as escolas relatam que há situações em o bullying acaba acontecendo. É nesse momento que as equipes pedagógicas também atuam para solucionar os casos.

Segundo Arilda, uma das vantagens na escola Nossa Senhora é que a equipe consegue dar atenção aos casosde bullying que, muitas vezes, chegam pelo próprio aluno. “Quando chegam para a gente, nós tratamos o assunto – por mais que seja pequeno para os nossos olhos – mas tratamos com seriedade. Chamamos o outro aluno, fazemos os dois conversarem, explica onde um errou, onde o outro errou, porque nunca tem um lado só essa história. E muitas vezes o aluno que vem reclamar, se achando o agredido, às vezes depois que conversamos, vemos que ele é o agressor. Só que a hora que alguém revidou ele: ‘Opa, estão fazendo comigo’. Tentamos orientá-los. Isso é o que na maioria das vezes acontece. Quando não são os próprios alunos, entre vítima e agressor, que vem nos contar, os outros colegas vem contar”, explica.

Essa conversa entre agressor e agredido também é uma metodologia usada pelo colégio João de Matos. “Explicamos como que deve agir, quem está certo e errado, fazemos uma reflexão, fazemos pedir desculpas ali. Na maioria das vezes se resolve. Daqui a pouco acontece com outro aluno, mas com situações de apelidos, por ser gordo ou magro, se usa óculos, a cor do cabelo”, conta a diretora.

Quando a situação se agrava, os pais ou responsáveis são chamados. “Nós chamamos os responsáveis das duas partes. Sempre temos os apoios dos responsáveis, eles ficam até chocados quando sabem que os filhos estão praticando bullying. Sempre os pais acham que o filho deles que é a vítima, mas quando eles veem que é o filho que está praticando, às vezes bem grave, eles também tomam atitude”, disse.

A equipe de funcionários dos colégios também é aliada ao observar os possíveis conflitos e comunicar a equipe pedagógica para atuar com os alunos. No colégio Florestal, esse é um dos principais modos com que o colégio consegue descobrir sobre os casos. “Quando chega a acontecer, quem pratica, já pratica com uma dose de ameaça. ‘Não conte. Se você contar acontece isso e isso’. Quando descobrimos, conversamos com o agredido e vamos conversando até descobrir [o agressor]. Conversamos com o indivíduo, com quem está praticando o bullying. Mas às vezes, nós não conseguimos descobrir. E eles não contam e ficam sofrendo”, relata Eloimar.

Desafios

No entanto, as equipes destacam que o trabalho na prevenção do bullying possui desafios, principalmente porque problemas sociais acabam interferindo no cotidiano da escola, e por consequência, afetando o aprendizado.

Em um desses desafios é a reação de alguns dos pais ou responsáveis quando descobrem que o filho é agressor. “Nós temos pais hiperesclarecidos intelectualmente, mas que não orientam adequadamente, protegem demais. O seu filho sempre está correto. Não todos, graças a Deus. É um ou outro. Mas temos pais que por mais que tenham a cultura intelectual, eles fazem uma superproteção. Por exemplo, o filho dele nunca faria aquilo. Temos pais que infelizmente orientam seu filho a não nos obedecer, orienta seu filho que qualquer coisa que aconteça na sala é para sair da sala e ir telefonar para o pai, para a mãe”, conta Arilda.

A situação fica mais difícil também em famílias desestruturadas, com baixa condição socioeconômica, e que não possui meios e ferramentas para conseguir educar. Desse modo, é a escola que acaba assumindo essa educação. “Temos sim famílias que são excelentes, mas os casos pontuais que chegam, de falta de afetividade na família, de um ambiente desestruturado e mais violento, ele interfere muito. No ano passado, tivemos uma situação que a mãe chegou revoltada conosco. O menino disse para a mãe que não era nada: ‘Elas são minhas amigas’. Porque conversamos, tínhamos escutado seu problema, ele tinha confiança de nos relatar. Para ele, nós somos a referência”, disse Maria.

A carência afetiva é um dos principais problemas encontrados pelas escolas e que pode resultar em situações de bullying. A pedagoga do colégio João de Matos, Marli da Lima da Silva, conta que episódios pequenos mostram a carência afetiva existente, como o que aconteceu em uma palestra recente na escola. A pedagoga relata que conseguiu com que os alunos silenciassem, após ir de um a um, tocando no ombro e pedindo para que prestassem atenção. “Teve uma menina de cabelo cacheado que falou: ‘Eu nunca recebi um cafuné assim. Que bom que sempre tivesse alguém para fazer isso’”, conta.

As pedagogas destacam que a formação escolar neste quesito não é um parâmetro para avaliação da afetividade, e que a carência de afetividade acontece em todas as camadas sociais. O modo com que os pais foram educados na infância interfere no modo que eles educarão. “Por mais que o pai tenha o conhecimento intelectual, às vezes, o jeito que ele foi educado e age é diferente de algumas famílias, por mais que não tenham o conhecimento intelectual”, explica a professora-pedagoga do colégio Nossa Senhora, Carla Roberta Brandalise.

Para as equipes, a afetividade é o meio de ajuda nesse processo. “A afetividade é a palavra-chave para o combate ao bullying”, destaca Marli.

Psicólogo

Uma das dificuldades das escolas é a falta de psicólogo dentro da equipe. As escolas costumam suprir essa necessidade através de parcerias com profissionais de diversas áreas que fazem capacitações com os professores para ajudar a entender diversos temas, como o bullying.

Contudo, a necessidade de um psicólogo na escola é algo desejado para ajudar nos problemas do cotidiano. Essa também é a opinião do psicólogo José BuongerminoRaucii, formado pela Universidade Católica de Santos, com pós em Psicologia Jurídica e com Psicanálise na Sorbonne na França.

Um dos meios é na ajuda do combate ao bullying, especialmente no planejamento de ações. “A melhor forma é promover maior socialização, entre os alunos, "desmanchando" grupinhos, alternando os participantes de cada grupo e contando, de preferência, com um(a) psicólogo(a) para intervir, junto ao corpo docente, sempre que houver necessidade. Aliás, só um especialista pode detectar, muitas vezes, a intenção de promover esse tipo se "agressão", suas consequências e grau de relevância, ainda mais quando tratamos de crianças ou jovens. É muito importante ainda, que os pais estejam conscientes de sua responsabilidade e conversem muito com seus filhos, sobre respeito e conduta social”, disse.

Texto: Karin Franco

Fotos: Pixabay, Karin Franco/Hoje Centro Sul

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