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Edição 1112 - Já nas bancas!
06/02/2019

Uma jornada da fé: morador de Rio Azul chega a Aparecida pedalando

Após rodar mais de mil quilômetros de bicicleta em 15 dias, com um machucado no joelho e sem dinheiro, o ciclista Heinz Denzer chegou à Aparecida no último dia 25. Conheça um pouco mais sobre a sua jornada de fé e superação

Uma jornada da fé: morador de Rio Azul chega a Aparecida pedalando

“Estou aqui pessoal. Rio Azul, eu cheguei. Eu cheguei”, disse emocionado Heinz Denzer, 49 anos, em um vídeo publicado em seu perfil no Facebookna última sexta-feira (25). Ovídeo de 30 segundos mostra a chegada do ciclista amador à Aparecida (SP) depois de concluir um percurso de quase 1200 quilômetros apenas de bicicleta.

A jornada iniciou no dia 10 de janeiro em Rio Azul, quando Heinz partiu em direção à Imbituva. No entanto, sua história com Aparecida e Nossa Senhora iniciou há mais tempo.

Promessa

Ciclista amador, Heinz sempre foi apaixonado pelo esporte. Foi utilizando-se da bicicleta que conheceu diversos lugares, especialmente ao participar de propostas de Ecoturismo. Mas uma dor no joelho esquerdo começou a atrapalhar seu dia a dia.

“Eu tinha um problema no joelho esquerdo e estava difícil de pedalar, de trabalhar, tinha tomado injeção, remédio, etc. Fui no médico. O médico falou que era uma luxação, mas o troço não melhorava”, conta.

Heinz confessa que não era uma pessoa com uma grande crença, nem mesmo devoto de Nossa Senhora. Mas a dor acabou fazendo com que ele parasse em uma capela no Parque da Pedreira, em Rio Azul, cidade onde mora.

Lá, em uma bica, passou a colocar água no joelho e fazer orações. “Eu pegava aquela água e botava no joelho. Eu falei assim: ‘No que meu joelho sarar, eu vou até Aparecida do Norte de bicicleta’. Fui várias vezes lá. Pegava e botava aquela água na minha perna, porque não era a água que me sarava. Era minha fé”, disse.

Preparação

Com o joelho curado, Heinz começou a planejar como iria pagar a promessa. Em suas pesquisas, encontrou o trajeto intitulado Caminho da Fé. A rota criada por um grupo de amigos em 2003 é inspirada no Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha, e reúne todo um caminho de apoio de peregrinos que vão até Aparecida a pé ou de bicicleta.

Passando por diversas cidades pequenas de São Paulo e Sul de Minas Gerais, as rotas saem de diferentes lugares e trazem diversas dificuldades, já que o peregrino atravessa a Serra da Mantiqueira, e passa por diversos terrenos acidentados e com montanhas.

Foram dois anos de preparação para enfrentar o desafio. Além do preparo físico,também houve o preparo psicológico para completar o trajeto. “50% é o psicológico, porque como falei para alguns amigos: ‘Ah é muita subida’. Aí disse: ‘Subida tem uma só, começa aqui e termina lá’”, relatou.

Primeiro desafio

Depois de se preparar e planejar sua viagem, Heinz saiu de Rio Azul às 5 horas da manhã, em direção à Imbituva. Estava tudo planejado: ele pedalaria durante o dia e à noite montaria sua barraca em um posto de combustível.

Contudo, depois de rodar pouco mais de 70 quilômetros, um cachorro acabou aparecendo na frente da sua bicicleta em Imbituva e o fez cair, machucando o joelho direito. “Eu só não fui parar no pronto socorro porque eu ando de capacete, mas eu dei uma parada, o pessoal me ajudou ali, perguntaram se eu estava bem. Mas pra mim eu só pensei: ‘E agora, Nossa Senhora?É provação’. Fui, continuei do meu jeito”, relatou.

Para ele, o machucado foi mais um motivo para aumentar a fé. “70% do caminho eu percorri fazendo mais esforço, três, quatro, cinco vezes mais esforços que a perna direita. Então, a perna que tinha problema, foi ela que me levou até Aparecida”, disse.

Mais desafios

A chegada até Aparecida ainda guardava mais desafios. Medicado para suportar a dor, Heinz seguiu de Ponta Grossa até Siqueira Campos, de onde seguiu no terceiro dia até Salto de Itararé, chegando no estado de São Paulo. Ele chegou a rodar de 90 quilômetros a 130 quilômetros em um dia. “O ponto mais crítico de dor foi quando eu fui de Mineiros do Tietê até Brotas, aonde eu rodei só 48 quilômetros. No meio do caminho, eu passei em uma farmácia, comprei um medicamento mais forte. A farmacêutica me receitou um que eu podia tomar duas vezes ao dia, amenizou a dor e eu pedalava mais com o pé esquerdo do que com a direita. A direita só servia pra rodar o pedal”, explica.

Heinz conta que encontrou diversas pessoas no caminho que, comovidas com sua peregrinação, o ajudaram. “Eu não tinha dinheiro para terminar minha viagem. Eu ganhei doação no caminho, hotel era de graça, ganhei alimentação de graça, ganhei manutenção da bicicleta de graça, tudo assim. Foi tudo assim acontecendo”, contou.

Para o ciclista amador, a dor só o motivou. “Na minha mente eu coloquei o seguinte: ‘Cara, não reclame. A bicicleta é tua cruz e dê graças a Deus que não tem ninguém chicoteando. Você só machucou o joelho. Nem marcas de chicote você não tem. Você não tem uma coroa de espinho na cabeça. Você tem um capacete, que te protegeu dos espinhos, dos pombos’. Então, meu foco era esse. Essa era minha inspiração: Jesus Cristo”, disse.

Episódio

Apesar de receber muita ajuda em seu trajeto, Heinz acabou recebendo uma crítica que o marcou. “No meio do caminho, uma pessoa que era evangélica falou pra mim – eu fui pedir apoio para ela, de onde tinha um lugar para dormir em Avaré -, aí a pessoa falou assim: ‘Isso que você está fazendo está errado porque Nossa Senhora não vai salvar você. Olha Deus te mostrando que você se machucou pra você não fazer isso’. Foi a resposta que eu ganhei da pessoa. Eu bati a mão no ombro dele e pedi: ‘Então meu irmão, me arruma um lugar. Demonstre tua fé, ajude alguém que está precisando. Me arrume um lugar para dormir no pátio da tua igreja, em qualquer lugar’. ‘Ah, eu não tenho’. Bati a mão no ombro de novo e falei: ‘Então aprenda: Deus é força, Maria, Nossa Senhora, a Senhora Aparecida, é o conforto, que todo filho precisa de uma mãe. E você tem razão: só Jesus salva, então espero que ele salve você. Muito obrigado’”, conta.

Apesar do episódio, sua fé foi renovada quando viu na mesma borracharia outro homem que o indicou um albergue para dormir. Ele seguiu, mas parou antes em uma sorveteria, onde por coincidência, o sorveteiro o acompanhava pela internet, em um grupo que Heinz compartilhava sua aventura. “Encostei a bicicleta no meio-fio, ele chegou na porta, abriu os braços, e falou: ‘Cara, só por Deus, como você foi parar aqui na frente da minha porta?’. Ele estava me acompanhando, ele fazia parte do albergue e fazia parte da casa de apoio”, disse.

“Já me deram pouso, onde dormi com os humildes, com as pessoas de rua, onde eu contei minha história, eles contaram a história deles. Eles me receberam bem, me trataram bem, na humildade, tudo.Pra você provar tua fé, você saber humildade, é a primeira coisa que tem que ter”, conta.

Caminhos da Fé

Heinz já estava dentro de São Paulo, quando começou a percorrer o Caminho da Fé pela cidade de Tambaú. Os peregrinos costumam pagar R$ 20 por um certificado de peregrino. Com o documento em mãos, eles vão seguindo as setas amarelas espalhadas pelo caminho entre as cidades e, em cada local, procuram postos, onde recolhem carimbos para provar sua passagem.

Mas a peregrinação de Heinz comoveu, e o ciclista acabou ganhando o certificado da Secretaria de Turismo da cidade. “A minha foi dada por honra ao mérito, por eu ter rodado 740 quilômetros machucado. É uma satisfação enorme, isso me enalteceu a minha vontade, a minha fé mais ainda”, disse. “Comecei daí a minha peregrinação. Já não era mais turista, nem cicloturista. Eu assumi o papel de peregrino”, relata.

Ele seguiu para Águas de Pratas, passando o Sul de Minas Gerais, em cidades como Ouro Fino e Inconfidentes. O trajeto que atravessa serras trouxe dificuldades. “São montanhas intermináveis. Em Águas de Prata, tinha a Serra do Gavião. Demorei quatro horas e meia para chegar lá em cima. Depois daquilo, já tem a Serra dos Lima, mais pra frente tem mais uma que já é brava que é a Porteira do Céu. Depois da Porteira do Céu, nós chegamos meio-dia lá, pra de tarde fazermos a Serra dos Pântanos. São duas atrás da outra, logo depois da Porteira do Céu. Então são três serras num dia”, explica.

No meio da sua jornada, Heinz conheceu mais companheiros que ajudaram a percorrer o trajeto. Um deles é Edson Evangelista dos Santos. “Nos conhecemos na estrada, ele se perdeu e eu passei no bicicleteiro, como se diz, a força divina marcou o nosso encontro lá. Começamos a fazer a peregrinação juntos. Eu dava apoio pra ele, ele dava apoio pra mim”, disse.

A jornada seguiu nos próximos dias. “Eu acordava de manhã, fazia minha oração, entregava minha vida a Deus e a Nossa Senhora, e pensava de tarde: ‘O Senhor vai dar um jeito e não vou me preocupar com isso’. Daí eu terminava minha oração e esquecia. Eu só tomava conta do meu objetivo que era pedalar”, disse.

Chegada

Depois de passar pela Serra da Mantiqueira, ele chegou em Campos do Jordão, de onde saiu rumo à Aparecida na manhã de sexta-feira (25). Debaixo de chuva, ele chegou em frente à Basílica, emocionado. “Quando adentramos na Basílica caiu um temporal, como se diz aqui no Sul, de lavar o telhado. Como recolhemos carimbos no meio do caminho pra você provar que é peregrino aonde fez o trajeto, eu consegui encher minha cartela com 40 no total. A última dentro da Basílica”, disse.

Na sexta-feira ele ainda participou de uma missa antes de descansar em um hotel. O sábado foi dedicado a conhecer a cidade e expressar sua fé. No domingo (27) ele partiu de ônibus rumo à Curitiba, de onde veio à Irati, para em seguida ir à Rio Azul.

 

Futuro

Os planos de Heinz não terminam neste ano. “Se Deus quiser eu vou fazer de novo, mas vou de ônibus até Tambaú. Vou fazer de novo. Fiz uma promessa que Deus e Nossa Senhora vão me ajudar que eu consigaarrecadar um pouco mais de dinheiro e vou levar um dinheiro extra, que eu sei que Deus no meio do caminho vai me mostrar uma pessoa que está precisando de ajuda pra conseguir provar a fé dele perante Nossa Senhora e Deus”, relata.

 

Lição

Para Heinz, a maior lição que tirou da experiência é que preciso ir em busca do que deseja. “A maior lição é que fé não é você ir acender um maço de vela, ir pra igreja rezar, ou entrar de joelhos numa igreja , pedir um milagre, ou pedir alguma coisa, e depois que você sai da igreja, ir pra gandaia, pros fervo, e não ligar. Você entregar o problema pra Deus, ou pra santo, ou pra Nossa Senhora.Fé é você entregar tua vida a Deus, e batalhar por aquilo que você quer”, conta.

“Foi uma viagem espiritual para mim, onde me encontrei como mais gente, como eu tive muitas lições com quem eu conversei na vida, humildade, simplicidade, caráter, tudo isso importa. Se você não tiver isso, você vai ralar a vida inteira e nunca vai ter nada, nunca vai ser reconhecido”, disse.

Texto: Karin Franco

Fotos: Arquivo Pessoal

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