facebooktwitterinstagramgoogle+
Edição 1126 - Já nas bancas!
31/01/2019

Os vários ângulos da traição

Os vários ângulos da traição

Tema de músicas, novelas e filmes, a traição sempre foi um assunto muito popular na sociedade, especialmente porque sempre alguém já foi traído, traiu ou conhece algum caso de traição de alguém próximo.Com a popularização da internet, a exposição da traição aumentou. Desde a facilitação para trair até a revelação de traidores e traídos, o assunto que sempre se torna viral nas redes sociais. Na última semana, um caso envolvendo moradores da regiãoviralizou na internet. A traição terminou com uma briga que chegou a parar o trânsito no trecho urbano da PR-153 em Irati.

Mas por que a traição acontece? Como superar uma traição? E como lidar com a exposição na internet? O jornal Hoje Centro Sul conversou com psicólogos para entender o assunto.

Traição

Os psicólogos destacam que a motivação da traição pode vir de fatores diversos. “Geralmente o motivo não é único, por vezes ocorre um desgaste na relação e coisas simples que antes os casais faziam, deixam de fazer, elogios, passeios, lazer, tudo isso é deixado de lado e a relação cai numa rotina, aí começa a surgir o descontentamento de um com o outro”, explicao psicólogo Bruno Marques.

Ele aponta que, mesmo descontentes, muitos casais continuam juntos com medo de estarem sós. “Quando chega nesse ponto alguns casais se separam, outros sustentam uma relação desgastada, mas o mais comum é a traição, a pessoa que trai está habituada a conviver com a outra e por vezes sente medo de ficar sozinho, por isso opta pela traição e não pelo término”, relata.

Além disso, outros fatores podem influenciar, como carência e solidão. O psicólogo e professor de coaching, João Alexandre Borba, explica que a família também pode ser um fator. “Por exemplo, um filho que vem de um pai que tinha várias mulheres e escondia isso da mãe, e esse pai leva esse filho para poder conhecer essas outras mulheres, esse menino está entendendo o quê? Que a referência dele masculina é trair. O pai dele, que é o homem na vida dele, que é a referência masculina tem como base a traição. Então, ele passa automaticamente a trair”, disse.

Outro fator é o meio onde a pessoa está inserida. “Às vezes você trai – já que tem outros amigos que estão traindo – você pode acabar traindo como uma forma de pertencer também àquele grupo. Isso seria um pouco mais raro, mas pessoas com personalidade mais enfraquecida, que não tenham muito essa noção do limite, acabam seguindo o movimento da manada”, relata.

Mais do que isso, João explica que a traição acontece por uma questão interna do próprio traidor. “As pessoas pensam muito: ‘Ah se está em um local de muitos fatores’ ou ‘se está em local com muitas mulheres bonitas ou homens bonitos isso vai induzir à traição’. Não é isso que induz. O que induz é muito mais os fatores internos, o que a pessoa está buscando no momento da traição, do que a traição em si, do que o externo em si”, explica.

Ele ressalta que nesta busca, muitas vezes o traidor acaba traindo ele mesmo. “Toda vez que uma pessoa trai, ela já se traiu muito antes. Tem uma diferença muito grande nisso, porque muitas pessoas que estão traindo são porque estão insatisfeitas com alguma coisa, ou então não estão conseguindo se posicionar diante do parceiro da parceira, não conseguem expor certos sentimentos e fica mais fácil por outro caminho, onde você acaba encontrando outra pessoa, que você tem uma relaçãozinha menor, mas que naquela relação, você consegue expor um pouquinho do que estava às vezes estava te deixando mal numa outra relação”, relata.

Vingança

Uma das reações mais comuns frente a uma traição é a tentativa de vingança. A traição impacta a pessoa traída, que quer que o outro também sofra.No entanto, os psicólogos destacam que a vingança não é o melhor remédio e pode trazer consequências. “Geralmente a vingança deixa marcas difíceis de serem reparadas, pois expôs a pessoa a uma sociedade que não lida bem com o tema. Julgamentos, fofocas, brincadeiras sem graça, mobbing, assédios etc. Ao enfrentar todas essas coisas não são todas as pessoas que lidam bem e isso pode provocar doenças psicossomáticas e distúrbios psicológicos como ansiedade, depressão, transtornos de estresse pós-traumático, entre outros”, explica Bruno.

João comenta que a vingança é perigosa e pode atingir também a pessoa que está a praticando. “No momento em que você fica tentando devolver pro outro a traição, traindo ou botando o outro pra baixo, humilhando, você acaba entrando num movimento que seria um looping emocional. Você vai ficar girando, rodando ali, sem sair do lugar. E esse looping é infernal, porque não vai gerar resultado nunca. Você está tentando bater no outro pro outro sentir a dor que causou em você, e quanto mais você bate no outro, mais você vai distanciando”, disse.

Internet

A internet acaba sendo mais um ingrediente que pode complicar todo este contexto. “Os celulares eles acabam aumentando mais isso porque tem esse movimento de um ficar olhando a tela do outro, tentando pegar a senha do Facebook, Instagram, WhatsApp, isso acaba tirando um pouco da questão de individualidade. E é importante ter a sua individualidade”, explica João.

Ele aconselha que numa relação é importante definir limites. “Se o parceiro está inseguro é importante descobrir formas de deixar a pessoa mais segura. “Como eu posso te deixar mais seguro?”, “ O que eu posso fazer pra te ajudar?””, disse. Mas alerta que há um limite, especialmente se o que for concedido ferir a pessoa. “Essa noção de demarcar limites é muito importante nessa era digital onde as fronteiras estão muito porosas, nós estamos muito flexíveis a ser invadido o tempo inteiro pelos outros”, explica.

E essa invasão muitas vezes pode vir com a exposição de uma traição, seja pela pessoa traída ou pelo traidor. O resultado disso são os julgamentos que podem prejudicar. Por isso, o psicólogo Bruno aconselha que o preferível é evitar essa exposição. “Acho que a melhor forma de proteção é a prevenção. Se não quer que nada seja exposto na internet como fotos, vídeos etc. não mande. As pessoas reagem de diversas formas frente a essa situação, e quanto menos material tiverem para expor a outra parte, melhor”, disse.

Como superar?

O psicólogo João destaca que a traição não é resultado apenas de uma pessoa, mas sim, do casal. “Toda traição é uma dinâmica do casal. Nunca é 100% de responsabilidade só do traidor. Sempre tem uma carga de responsabilidade de quem foi traído”, disse.

Por isso, o conselho é que quem traiu ou foi traído busque ajuda para entender como o casal estava naquele momento e também a percepção das duas pessoas sobre o relacionamento, e assim entender o episódio e decidir qual o melhor caminho: continuar junto ou se separar. “Depois de uma traição é importante ter uma conversa, procurar uma terapia de casal, procurar um aconselhamento, alguém que possa, tenha uma capacitação profissional, para ajudar essa pessoa a se reerguer porque não é fácil”, explica.

Em alguns casos, ele ressalta que determinadas reações são saudáveis, mas que é preciso ponderamento. Para exemplificar, ele contou sobre uma mulher que foi traída pelo marido e ficou com a autoestima abalada. “Ela virou e falou: ‘Não sei o que eu faço para poder recuperar minha autoestima. Eu não me sinto nem mais desejada’. Ela acabou decidindo sair de noite sozinha, ia para um local que era um bar lá num bairro perto de onde ela morava. Ela foi lá, passeou, recebeu várias cantadas e parou pra ver assim: como sou uma pessoa especial, como sou notada pelos homens. E aí ela voltou para casa se sentindo melhor. O marido depois de um tempo ficou sabendo disso. E ai ela falou: ‘Precisava ter feito isso porque eu não estava conseguindo resgatar minha autoestima só com as coisas que você falava’. E aí o relacionamento voltou”, disse.

Texto: Karin Franco

Fotos: Pixabay

Galeria de Fotos