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Edição 1093 - Já nas bancas!
29/06/2018

Atleta acusa Iraty de cobrar mensalidade para participação de treino

Atleta Guilherme Lima afirma que o clube cobrava mensalidade para que ele pudesse treinar. Pastor Márcio, gestor do Iraty, não negou o pagamento de mensalidade, mas disse que ela não é obrigatória e sim espontânea

Atleta acusa Iraty de cobrar mensalidade para participação de treino

O atleta Guilherme Lima acusa o gestor do Iraty Sport Club, Márcio Fagundes, mais conhecido como Pastor Márcio, de cobrar dos jogadores mensalidades para treinar no clube. Ele também afirma ter sido ameaçado.

À equipe do jornal Hoje Centro Sul, o Pastor Márcio não negou que haja algum tipo de pagamento pelos jogadores, mas afirmou que o pagamento não é obrigatório e que é uma ajuda de custo para o clube. Ele também nega ter feito ameaças.

A denúncia de Guilherme Lima ganhou repercussão na cidade após ele divulgar fatos em uma entrevista à Rádio Najuá.

Denúncia                                                 

Segundo Guilherme, a mensalidade é cobrada para todos os jogadores. “O pastor cobra R$ 800 por mês de cada jogador. Para alojamento, para jogar, para treinar no clube, essas coisas”, disse.

O atleta relata que antes da nova gestão ele já pagava um determinado valor, mas na época, era para uma ajuda de custo para o alojamento dos atletas. “Na época que fui pro Iraty, eu fui pelo Adriano Kanaã. Eu cheguei no dia 21 de fevereiro. Paguei R$ 500 para ficar alojado, para os custos de alimentação e moradia. Fiquei um mês, quando o Adriano saiu, eu vim embora e fiquei um mês em casa”, disse. O atleta mora em Dracena, no estado de São Paulo.

Para voltar a treinar no Iraty, após esse tempo, o atleta contou que adiantou R$ 700, depositados na conta de Márcio Fagundes. “Eu paguei R$700 - na época depositei R$250 em um depósito, e no outro R$450 – e depois de ter adiantado, eu fui. Fiquei dois dias e tive que vir embora. Estou com uma pessoa da minha família doente, eu tive que vir embora”, disse.

No entanto, Guilherme tentou voltar novamente e então no início de junho pagou mais R$500 para voltar a treinar. “Para retornar para Irati para treinar, ele pediu mais R$700, eu depositei R$ 500, até porque não estava mais no alojamento”, disse.

À Rádio Najuá, o atleta afirmou que ficou no alojamento entre fevereiro e março, além dos dois dias que ficou em maio, na sua segunda vinda. Depois disso, ele passou a morar e se alimentar fora do alojamento. “Eu estava morando com mais quatro meninos, mas não falei na rádio, porque não queria prejudicar eles. Eles jogam no time”, disse.

Quando voltou em junho, o atleta conta que até participou de treinos. “Cheguei para treinar, o treinador Ronaldo e o Radson me colocaram para treinar 10 minutos e depois ficar correndo em volta do campo. Foram três dias seguidos assim. No domingo, o pastor veio me pedir R$300”, afirmou.

O atleta disse que não iria pagar, pois não estava no alojamento, nem tendo alimentação, e não estava gostando do treinamento. Ele também pediu a devolução de R$400 para custear a passagem para Dracena.

Promessa

Guilherme conta que voltou para o Iraty, após ter saído pela primeira vez, porque precisava treinar. “Aceitei treinar porque preciso, para manter a forma e ritmo de jogo,visando algo para o segundo semestre”, disse.

Com 22 anos, o atleta contou que havia a promessa de ter o Sub 23 em maio. “A primeira vez que depositei os R$ 700 era para treinar porque até então teria o Sub 23”, disse. Enquanto não havia definição, Guilherme iria treinar com o Sub 19.

Ele conta que mesmo após a confirmação de que não haveria a categoria, ele continuaria a treinar, sem competir. “Mesmo assim iria continuar treinando para manter a forma e, se caso aparecesse algo, estaria com ritmo”, disse.

Ameaças

Após a recusa de continuar no Iraty, Guilherme conta que sofreu ameaças do Pastor Márcio. O atleta possui imagens de conversas no WhatsApp, bem como áudios atribuídos ao gestor. Além disso, ele também apresenta os comprovantes de depósito feitos na conta do Pastor Márcio. O atleta chegou a fazer um Boletim de Ocorrência na Delegacia de Irati sobre o assunto.

As conversas no WhatsApp mostram cobranças atribuídas ao Pastor Márcio para que Guilherme pagasse a mensalidade. É possível ver, em algumas conversas,palavreado de baixo calão direcionado ao atleta.

Um dos áudios é de uma ligação gravada por Guilherme em que ele é ameaçado após a entrevista na Rádio Najuá. Mais uma vez, a voz do interlocutor é atribuída ao Pastor Márcio. Veja trecho da gravação no box de informações.

Funcionamento

Nos áudios, atribuídos ao Pastor Marcio, também é possível ouvir sobre o funcionamento das cobranças. “Os clube pede, paga quem quer, pô. Paga quem quer. Isso é normal. Só que aqui não. Aqui é regra. Aqui é regra. Aqui é ajuda de custo. Deixar bem claro, aqui é regra. Aqui é regra, regra. Entendeu?”, diz em um dos trechos.

Em outro trecho, ao explicar os valores que ainda estão sendo cobrados, revela-se que o valor não é usado apenas para o alojamento. “Aqui tem jogador que não mora aqui e paga mensalidade, pô. A mensalidade não é para quem vai comer não, a mensalidade é por causa do clube, que tem nome, não é só porque está alojado fora. Ou deixa de estar, não está. Aqui tem moleque que está fora de alojamento e está pagamento mensalidade, normal e acabou”, diz o áudio.

Pastor Márcio

Ao jornal Hoje Centro Sul, o Pastor Márcio não negou o pagamento de mensalidades por parte dos jogadores, mas disse que o pagamento é voluntário. “Não é obrigatória, nada é obrigatório”, disse. “Nós temos quase 30 jogadores da base - tem clube que tem 50, eu optei por 30. Nós temos de oito a nove atletas que não moram no alojamento, moram na cidade. Nós temos nove atletas que pagam mensalidade, saiu um, agora só tem oito. Então a diferença é muito grande”, disse.

Ele afirma que o atleta paga a quantia porque o clube trabalha com seu treinamento. “O atleta chega aqui, ele está abaixo do nível, não tem condições de estar no elenco. Como que a gente vai pegar um atleta desse e deixar dentro do alojamento, comendo e bebendo, se aquele outro atleta tem condições melhor do que ele? Então o que a gente conversa com o empresário dele ou com o pai. Eles optam. ‘Eu posso pagar uma mensalidade para o meu filho ficar aí treinando?’. Então eles começam a se recuperar”, explica.

O gestor conta que a contribuição é espontânea, feita através de um acordo no momento da vinda do atleta, e é uma ajuda de custo ao clube. “O clube tem sua despesa, então no momento que faz um acordo, deixa de ter qualquer irregularidade. Deixa de ser qualquer coisa ilegal, porque foi combinado um acordo e não foi imposta uma regra”, disse.

Pastor Márcio ainda garantiu que as condições do alojamento são boas, e que os atletas possuem alimentação normal, com café da manhã, almoço e janta.

Em relação ao atleta Guilherme, o gestor disse que negociou o valor de R$700. “Ele disse: ‘Eu não posso pagar R$800’. Falei: ‘Tudo bem, Guilherme. Quanto você pode pagar?’. Esses áudios ele não coloca. Ele falou: ‘Pastor, posso pagar R$700’. Aí disse: ‘Tudo bem Guilherme’”, argumentou.

O gestor ainda comenta que o deixou no clube, mesmo não tendo mais um Sub 23, para que ele pudesse treinar. “’Posso continuar a treinar?’. Eu disse: ‘Desde que você pague a mensalidade para o alojamento você pode ficar treinando’. Se ele falasse assim: ‘Não tenho como pagar ajuda de custo’. Nós não temos como ficar com ele porque a categoria dele não seria disputada, e ele não era daqui da cidade. Por exemplo, tem meninos que treinam aqui e é normal”, disse.

Pastor Márcio afirmou ainda que o dinheiro foi depositado em sua conta porque as contas do clube estavam bloqueadas no momento. Além disso, ele também garantiu que não fez ameaças. “Eu mandei um áudio para ele. Eu falei: ‘Onde você está, cara? Você tem que aprender ser homem. Fala onde você está que eu vou te achar e eu vou conversar contigo?’. Em nenhum momento...tanto que se eu tivesse ameaçando ele, ele não puxava assunto comigo”, disse. Durante a entrevista ele mostrou algumas conversas com o atleta, onde Guilherme pedia a devolução do dinheiro pago. O gestor também confirmou que apagou algumas conversas, mas que possui outras em outro telefone.

O gestor alega que o atleta planejou toda a situação, pois, segundo ele, Guilherme também já acusou o Barueri de cobrar R$ 6mil por vaga no time. “Ele fez arruaça...só que assim, fatos não tem como ter argumento. Argumentar um fato. Quem é o pivô na história?O cara vem num currículo de denúncia de clube, me pedindo para voltar”, disse. “Foi uma lição para nós. Não pego mais ninguém de fora e que seja fora da categoria, a não ser da cidade para ficar treinando, como vem muitos treinar, pra manter o ritmo”, alegou.

É ilegal ou não?

No Brasil, a lei nº 9.615/98, conhecida como Lei Pelé, regulamenta a norma de transações de jogadores. Ela também regulariza a profissão, sendo que jogadores profissionalizados são submetidos às mesmas leis trabalhistas que os trabalhadores. Além dessa lei, também há o regulamento da Federação Internacional de Futebol (Fifa), no qual o regulamento da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) também é baseado. Em caso de não obedecer ao regulamento, o clube pode ter sanções administrativas.

No entanto, segundo o advogado e empresário de jogadores, Décio Renato Marques, não há nenhuma regulamentação ou lei que fale sobre cobranças para jogar ou treinar. “A princípio não existe nada. Na legislação desportiva não existe nada até porque é utópico o atleta pagar para jogar, desde categoria de base até profissional”, disse.

Ligação

Após entrevista na Rádio Najuá, Guilherme conta que recebeu ameaças. Uma das gravações apresentadas foi de uma ligação, atribuída ao Pastor Márcio. Veja trecho:

[Voz agressiva]– Onde você está?Onde você está? Você vem com reportagem da casa do c*, seu veado, vai ser (inaudível) sério rapaz...

Guilherme - É sério. Vocês cobram dinheiro de jogador para correr em volta do campo. Quem mandou mensagem para mim foi o senhor.

Pastor Márcio - Você vai correr na casa do c*, rapaz.

Guilherme - Quem mandou (interrompido)

Pastor Márcio - (inaudível) seu veado

Guilherme -Quem mandou eu vim foi o senhor, rapaz. Não foi eu que pediu pra vir não. Quem mandou mensagem para mim, eu depositei, cumpri minha parte e cheguei aqui e estou correndo em volta do campo

Pastor Márcio - No campo sim. Tu quer jogar bola? Então vai ter que correr no campo. Tem que emagrecer, seu merda.

Guilherme - Eu quero que você prove que mandei mensagem que pedia pra vir.

Pastor Márcio - Você corre no campo. Vai emagrecer rapaz. Eu queria...puseram lá,...aqui não...eu vou te achar na cidade, peraí.

Guilherme - Não, beleza. Tá me ameaçando, beleza. Tranquilo, pô. O mundo dá volta, o que você falou...

(ligação termina)

Auditoria                         

No início do mês, o presidente do Conselho Diretor do Iraty Sport Club, Cícero Moreira Gomes (Xiru) disse em entrevista ao repórter Tadeu Stefaniak, na Rádio Najuá, que haveria a realização de uma auditoria nas contas do clube, para entender a situação financeira.

“A auditoria vai dizer que não houve nada e aí estará tudo bem para todo mundo. Mas se disser que houve, vai dizer o que houve. Nós contratamos essa auditoria, que está contratada e está paga”, disse em entrevista à Rádio Najuá.

Texto: Karin Franco e Silmara Andrade/Hoje Centro Sul

Fotos: Reprodução

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