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Edição 1093 - Já nas bancas!
10/05/2018

Distância entre a formação universitária e exigências do mercado de trabalho gera frustrações

Distância entre a formação universitária e exigências do mercado de trabalho gera frustrações

Assim que um jovem termina o ensino médio ele é conduzido a decidir o seu futuro, então precisa escolher uma profissão. Mesmo sem muito conhecimento, ele escolhe aquilo que mais lhe agrada e passa a estudar sem saber o que esperar do mercado de trabalho. Porém um diploma em mãos nem sempre é garantia de sucesso profissional, já que a realidade acadêmica é diferente do mercado de trabalho.

Para diminuir essa distância que existe entre universidade e mercado de trabalho existe o estágio. Muitas empresas oferecem vagas para que o aluno possa aprender a profissão e assim estudar não só a teoria, mas também conhecer a prática. Em contrapartida, a empresa tem a oportunidade de conhecer novos talentos e os alunos que se destacam podem se tornar efetivos.

José Waydzik é empresário do ramo da construção civil em Irati e há alguns anos gosta de trabalhar com universitários. Boa parte de seus contratados entraram na empresa como estagiários e se tornaram efetivos. “A prática nossa da empresa sempre foi trabalhar com estagiários. É um instrumento que favorece a todos: o estagiário, a empresa e a comunidade como um todo. O estagiário vai se interar do ambiente que ele vai trabalhar, se der certo, se ele vai gostar daquele campo que ele está atuando, é um conhecimento entre ele e a empresa, já vai estabelecer um relacionamento, a empresa já vai treinando esse funcionário, caso dê certo”, explica.

O empresário comenta sobre as lacunas existentes entre o ensino da universidade e a profissão na prática. “Há uma lacuna muito grande entre o ensino médio, a universidade e o mercado de trabalho. O ensino prepara para a experiência própria, prepara para passar no vestibular e a universidade também está em um universo distinto, num universo distante, ela está muito longe da realidade empresarial, realidade de mercado. Há um abismo entre a academia e as empresas, não sou especialista nisso, mas é uma constatação”, diz José Waydzik.

Ele salienta o fato da empresa poder trabalhar em conjunto com a faculdade. “A gente não contrata ninguém direto da universidade, fazemos justamente essa ponte, acabamos sempre contratando quem estagia na empresa, esse tempo é muito importante porque ele tem contato com a empresa, tem um contato com o que ele vai fazer”, defende.

Além da oportunidade de ter uma renda durante a faculdade, o estagiário pode ter contato com o que não aprende em sala de aula “Nesse período de um a dois anos, a gente aprimora essa demanda das necessidades da empresa com as eventuais faltas, o que a universidade venha a não proporcionar ao acadêmico”explica José.

Distância e frustração

O empresário destaca que a universidade precisa interagir mais com a sociedade. “A carência que eu vejo, acho que a universidade teria que ter um contato maior com a sociedade, com o mercado, com as empresas, ela vive em um mundo distante, tem que ter uma relação maior com a comunidade e com as empresas”, destaca.

De um lado temos os empresários que sentem o despreparo de muitos universitários na hora em que deixam a faculdade e têm de colocar em prática aquilo que aprenderam durante anos, do outro temos o recém-formado que não teve a oportunidade de realizar estágios durante a faculdade e ao fim se depara com uma grande dificuldade, pois não sabe como iniciar a sua carreira.

Um bom exemplo dessa dificuldade é o que vem enfrentando a recém-formada em história Bruna Gabriela Ribeiro. Ela conta que desde o início decidiu que seria professora. “Quando me perguntavam, desde pequena, o que eu gostaria de ser quando crescer eu sempre dizia que queria ser professora, então com os anos e com a chegada do vestibular eu pude realizar esse sonho”, relata.

Durante a faculdade Bruna realizou estágio somente nos dois últimos anos e durante os primeiros anos só se viu em meio à teoria. “Confesso que fiquei frustrada no começo da graduação, pois eu acreditava que iríamos para sala de aula já no início, mas isso não aconteceu”, diz.

A recém-formada destaca que durante os primeiros anos da faculdade as aulas eram conduzidas de uma maneira que a fazia acreditar que dar aula seria a coisa mais especial do mundo. “Assim que iniciei meus estágios, eu acreditava que a vida de professora seria maravilhosa e que eu conseguira aplicar aquilo que eu aprendi, porém a realidade das escolas públicas é bem diferente, muitas das coisas que os professores me falaram não foram válidas durante os estágios”, comenta.

Bruna explica que teve muita dificuldade no início para se adaptar à realidade do ensino público. “Me vi num buraco sem saída, trabalhar com adolescentes não era nada fácil, a faculdade te molda para atuar em uma escola perfeita, onde os alunos são comportados e obedientes, porém na prática isso não acontece, a realidade é diferente”, diz.

A jovem analisa a sua frustração e destaca uma das possíveis falhas na universidade. “Percebi, depois da minha experiência de estágio, que muitos dos professores que me ensinaram nunca estiveram em uma sala de aula. Então pude notar que eles nos ensinavam baseados em uma realidade que eles não conheciam, acredito que esse é um dos pontos errados da faculdade, pois muitos deles saíram da faculdade, foram direto para o mestrado e depois doutorado e nunca tiveram uma vivência em uma escola pública”, comenta Bruna.

Outro caso de discordância entre faculdade e mercado de trabalho é o da professora de Inglês Maiara Usai Jardim,que há cinco anos está formada.“Assim que saí da faculdade, fiz mestrado. Somente após dois anos de formada, exerci a profissão plenamente, em escolas públicas”, conta.

A professora além de ter feito a faculdade e o mestrado também participou de projetos de docência e trabalhou em escolas de reforço, porém mesmo com essa carga ela se sentiu despreparada para encarar a sala de aula. “Apesar de já ter uma noção de como seria a profissão, não me senti completamente preparada para atuar. Existem questões que são aprendidas apenas com a experiência. Além disso, ser professora exige sempre rever a prática pedagógica”, fala.

Ela destaca que a faculdade onde estudou possui uma base teórica sólida para formar profissionais críticos e reflexivos, porém ela avalia que ainda há falhas. “Há uma lacuna muito grande entre a universidade e a escola pública. Os cursos voltados à licenciatura costumam contemplar uma escola ideal e o que encontramos é uma realidade adversa”, explica.

Texto: Silmara Andrade/Hoje Centro Sul

Fotos: Pixabay

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