facebooktwitterinstagramgoogle+
Edição 1087 - Já nas bancas!
25/04/2018

Você consegue identificar o limite entre verdade e preconceito?

Você consegue identificar o limite entre verdade e preconceito?

Muito do que grande parte das pessoas considera verdade, nada mais é do que preconceito.  Desde a infância,as construções de modelos, de padrões e de estereótipos costumamfazer parte do aprendizado, seja em casa, ou na convivência social. Questões como beleza, cor da pele, classe social, profissão, forma física, opção sexual têm como filtros esses “modelos” e carregam consigo conceitos velados de “bom ou ruim”, ou seja, preconceitos. 

O sociólogo e professor na Universidade Estadual do Centro Oeste do Paraná (Unicentro), Marco Paccola explica: “Constrói-se um imaginário dos indivíduos que serve como uma espécie de modelo padrão, no qual todos são identificados”.

E a questão é complexa. “Os padrões contribuem para a formação de preconceitos, mas os padrões também são estabelecidos a partir de preconceitos. Por exemplo, se analisarmos os padrões de beleza na nossa sociedade, veremos que eles não refletem as características físicas da maioria da população, eles são identificados com uma parcela minoritária e são formados a partir de preconceitos”, destaca o sociólogo.

Mesmo não refletindo as características físicas da maioria, esse padrão é assimilado como correto e estar fora dele é tido como algo ruim. Marco Paccola comenta queo efeito disso é a naturalização do preconceito, ou seja, onde as pessoas estabelecem um“modelo correto”, que deve ser seguido. “Por isso o Brasil é um dos países onde mais se vendem chapinhas para alisar o cabelo. O mesmo acontece com outras padronizações e preconceitos. É um efeito cíclico”, frisa.

Além de naturalizados, os preconceitos são reforçados por meio das relações sociais e da mídia.  “Somos “bombardeados” por esses padrões, por meio da mídia, ou da influência de outras pessoas diariamente, passamos a reproduzi-los e a buscá-los. Quando reproduzimos a frase ‘eu tenho cabelo ruim’ estamos contribuindo para consolidar um padrão que se baseia no bom e no ruim, no certo e no errado e obviamente, ninguém quer ser visto com o ruim, o errado”, comenta.

Neste contexto, o sociólogo explica que ocorre uma submissão passiva das vítimas do preconceito, que aceitam sua condição diante das demais pessoas, por entenderem que o preconceito sobre elas “é verdadeiro”.

                                               

Combate ao problema

 

Muitas pessoas não identificam suas ações como preconceituosas, pois são parte da sua visão de mundo, daquilo que entendem por verdade. “O preconceito persiste por vários motivos. Em primeiro lugar é preciso entender que, o preconceito caracteriza-se justamente pelo seu não reconhecimento enquanto tal; essas pré-noções e pré-julgamentos são percebidos como algo totalmente evidente, óbvio, indiscutível”, explica Marco Paccola.

Para começar a mudar, a autoanálise faz-se necessária. “Precisamos identificar o preconceito em nós. Ou seja, é preciso reconhecer que ele existe e que nós o reproduzimos. Isso é muito importante, é preciso reconhecer a existência do problema”, diz.

E apenas o reconhecimento pessoal não fará com que a sociedade seja menos preconceituosa, pois envolve a construção histórica que prevaleceu no país e um novo projeto de nação. “O Brasil é um país que excluiu a maior parte da população de sua sociedade, aproximadamente dois terços da população brasileira estão marginalizados do ponto de vista socioeconômico e político. Isso é fruto de um processo histórico de exclusão (dos negros, dos indígenas) e que tem um impacto desastroso na nossa formação social. Enquanto essa situação prevalecer, será muito difícil concretizar um projeto de nação mais igualitário”, explica.

Para a transformação social, Marco Paccola acredita que é preciso integrar a população marginalizada. “É preciso garantir direitos sociais como acesso à educação, saúde, moradia de qualidade, trabalho. Dar possibilidade de desenvolvimento pessoal e de emancipação destes indivíduos. É preciso condições de igualdade para a participação deles na sociedade. Isso se faz com políticas públicas inclusivas, mas acima de tudo, se faz com um projeto de nação”, fala o sociólogo.

Para Marco não é aceitável que um país como o Brasil permaneça como um dos mais desiguais do mundo e que em pleno século XXI a exclusão social seja a nossa característica mais marcante. 

O que é preconceito?

“O preconceito é uma forma de pré-julgamento, uma forma de atribuir a um indivíduo certas características ‘a priori’, ou seja, é um estereótipo. Este estereótipo é criado baseando-se em generalizações que se pautam em aspectos físicos, como a cor da pele e o formato do rosto, por exemplo, o que chamamos de fenótipo, aspectos culturais, como a religião, as vestimentas, os hábitos, a profissão, a classe social, a origem territorial”, conta o sociólogo e professor na Universidade Estadual do Centro Oeste do Paraná (Unicentro), Marco Paccola.

Opiniões e experiências

Para conhecermos um pouco mais sobre o pensamento das pessoas, fomos para as ruas e fizemos as seguintes perguntas: Você sabe o que é preconceito? Já sofreu algum preconceito? Já teve preconceito com algo ou alguém?

Constatamos que os iratiense sabem o que é preconceito e muitos já sofreram por serem diferentes do padrão. Entretanto, a maioria dos entrevistados acha que nunca agiu com preceito sobre alguém.

 

Sandra Beatriz Bregina, desempregada, 19 anos:

Você sabe o que é preconceito?“É qualquer ato de racismo, tanto pela cor ou pelo gênero, hoje em dia tem muitas pessoas gays e a sociedade é meio fechada, isso também se torna um racismo. Eu vou desconsiderar aquela pessoa do meio da sociedade por ser gay ou por ser negra”.

Você já sofreu algum preconceito?“Não, se eu sofri nunca levei em consideração, mas conheço muitas pessoas que sofrem”.

Você já teve preconceito?“Quando eu era pequena eu tinha com pessoas mais negras, aí eu fui vendo que não tem nada de diferente, eu era bem pequenininha, comecei ir para a escola e fui vendo que não tinha nada de diferente, que as pessoas eram iguais a mim e não tenho mais”. 

 

Aldrin Dalzoni, caminhoneiro, 38 anos:

Você sabe o que é preconceito?“É alguma coisa contra preto, pobre ou alguma pessoa desleixada”.

Você já sofreu algum preconceito?“Sim, eu sou motorista de caminhão. Eles ignoram muito, eles tratam a gente como se fosse qualquer um, eles não dão o valor que tinha que dar. Você chega, você é maltratado, você fica sem tomar banho, tem lugar que eles não oferecem comida e você não pode abrir a gaveta de bóia, aí você tem que passar fome”.

Você já teve preconceito? “Não, nunca tive”.

 

Almir Spitzner, autônomo, 37 anos:

Você sabe o que é preconceito? “Sei, de boniteza, de feiura, de gordura, de magreza, eles colocam preconceito em tudo, desde a pessoa de se vestir já tem preconceito”.

Você já sofreu algum preconceito? “Bem pequenininho, mas não levava muito em conta. Era a gordura, eu era bem gordinho, aí cresci e emagreci”.

Você já teve preconceito? “Nunca tive”.

 

SilmariseRodavanskiAntonis, operadora de caixa, 26 anos:

Você sabe o que é preconceito? “Preconceito é quando você não aceita uma diferença de outra pessoa”.

Você já sofreu algum preconceito? “Já, já, por ser gordinha a gente sempre sofre preconceito”.

Você já teve preconceito? “Eu acredito que não”.

 

Kátia Elen Prudente, estudante, 16 anos:

Você sabe o que é preconceito? “Preconceito é quando uma pessoa não aceita o que a outra é”.

Você já sofreu algum preconceito? “Já, por eu ser gordinha”.

Você já teve preconceito? “Que eu me lembre, não”

Texto: Letícia Torres e Silmara Andrade/Hoje Centro Sul

Foto: Pixabay

Galeria de Fotos