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Edição 1080 - Já nas bancas!
18/04/2018

Entre o sonho e a realidade: o percurso de quem sonha jogar no futebol profissional

Entre o sonho e a realidade: o percurso de quem sonha jogar no futebol profissional

À primeira vista, eles aparentam serem apenas crianças e adolescentes tímidos. Mas é quando tocam a bola, que os destaques aparecem. Muitos deles sonham em se profissionalizar e viver o sonho de ser um jogador de futebol profissional. No entanto, até chegar lá, normalmente precisam passar por um longo caminho de dificuldades e rejeições.

Para muitos, o caminho começa nas escolinhas de futebol, como a existente em Fernandes Pinheiro, desde o ano passado, a Escolinha Furacão, uma parceira entre a prefeitura e o Atlético. Ou a existente em Teixeira Soares, que teve início neste ano, uma parceria entre a prefeitura e o Coritiba. Também pode começar na própria rede municipal de ensino. 

Kenidi Gustavo Rodrigues, de 11 anos, começou a jogar futebol com 5 anos, em aulas vinculadas à escola, já que não havia escolinha para participar. O mesmo caminho também foi traçado aos 5 anos por Gabriel Henrique Gomes, hoje com 13 anos, e por João Tiago Ribas Fernandes aos 7 anos, hoje com 13 anos.

Os três saiam de Fernandes Pinheiro duas vezes por semana para ir até Irati, onde treinavam. Contudo, a dificuldade fez com que um deles pausasse o sonho. “Eu parei”, disse Gabriel. O diretor do Departamento de Esportes, Giovane Gonçalves dos Santos, explica que as condições fizeram com que ele pausasse. “Pararam pela dificuldade de ir. Os pais que levavam, eles não tinham condições de estar indo pra lá”, relatou.

Kenidi e João continuaram competindo, no entanto acabaram voltando para Fernandes Pinheiro. “Depois dos 10 anos, nós fomos para Assifusa, depois não deu certo e voltamos”, disse Kenidi.

A ida da Escolinha Furacãopara o município ajudou os meninos a continuar perseguindo seus sonhos, permitindo a eles frequentar os treinos de forma mais fácil. “Moro aqui perto”, explica Kenidi. Os treinos continuam a ser duas vezes por semana e eles já puderam até participar de peneiras – seletivas de novos talentos feitas pelos clubes.

É nas peneiras que os garotos encontram uma oportunidade para crescer no futebol. Entretanto, os meninos ainda em idade precoce precisam lidar com a rejeição. “Eu fui até Curitiba fazer teste. O Giovane me levou, mas não consegui passar (...). Por mim eu pensei que se eu passasse era mais fácil de se tornar profissional, mas agora deve ter mais dificuldade do que antes. Agora é se dedicar e tentar passar”, relatou Kenidi.

Essa persistência de continuar no sonho é incentivada pelos pais. “A avó disse que se der certo é melhor, mas se não conseguir tem que ir atrás”, disse Kenidi. “Meu pai me incentiva a ficar tentando até conseguir”, relata Gabriel.

Futebol feminino

Se para o futebol masculino, as dificuldades são grandes, para as meninas que se espelham na jogadora Marta, a dificuldade é ainda maior. KemillyEmanueli Carneiro, de 12 anos, e Márcia Sandrielly, de 11 anos, têm o sonho de se profissionalizar, mas somente com a entrada da Escolinha Furacão em Fernandes Pinheiro é que elas conseguiram começar a materializar o sonho.

Mais tímidas que os garotos, as meninas nunca participaram de uma peneira e competem em jogos escolares realizados pelas redes de educação. Apenas Kemillyparticipouda competição Bom de Bola.

O início, tanto das meninas como dos meninos, foi o mesmo: começaram treinar ainda muito novas, com aproximadamente de 7 anos, em treinamentos vinculados à escola. Apesar de todos terem o sonho de se tornarem estrelas do futebol de campo, acabam treinando futsal por causa da estrutura.

Mas para as meninas a situação se complica ainda mais, porque não há muitas oportunidades para o profissional. “Acho que tem pouca.Acho que tem que ter mais oportunidade”, disse Kemilly.

Mesmo assim, as meninas não desistem. “Quero ser que nem a Marta”, disse Márcia.

Profissional

João Victor dos Reis Neto, atualmente com 23 anos, já foi um desses meninos que sonhou em ser jogador de futebol profissional e conseguiu ter uma carreira no futebol brasileiro.

Revelado na Escolinha do Ruvo, em Irati, João fez parte da equipe que levou o Iraty perto de conseguir o acesso à primeira divisão do estadual paranaense em 2017. Além do Iraty, João também colecionou passagens pelo Grêmio, Arapongas, Portuguesa Londrinense e Prudentópolis.

Em 2013, ele teve a oportunidade de ir jogar na Hungria, nas equipes de Putnokie Salgótarjáni SBTC.“Para mim foi uma experiência única, foi muito bom profissionalmente e pessoalmente”, disse. Depois de oito meses, voltou em 2014 quando começou a saga de encontrar um novo lugar para jogar.

João Victor conta que viajou para diversos lugares em busca de um time. Ele encontrou uma equipe em 2015, quando começou a disputar a série C do campeonato estadual catarinense, pela equipe de Jaraguá do Sul. Mas em 2016, com a volta do Iraty, ele competiu pelo timeiratiense.

“Muitas coisas que eu não vivi nos outros clubes, eu consegui viver no clube da minha cidade. Independente das dificuldades e das coisas que aconteciam, nós tínhamos uma união muito grande. Independente o que acontecia extracampo, dentro do campo, era um pelo outro. Era algo que você não encontra em qualquer lugar”, conta.

Saída                          

Entretanto, durante um jogo em março de 2017, João Victor acabou se machucando. Em uma ressonância magnética feita 10 dias depois, ele descobriu que havia lesionado o menisco e o ligamento colateral medial, além de ter rompido o ligamento cruzado.

As lesões acabaram deixando-o de fora dos jogos. O clube pagou a cirurgia, mas a recuperação foi feita com a ajuda de parceiros extracampo. “Por um lado sou grato ao Iraty, mas por outro lado fico um pouco chateado porque nesse momento de dificuldade, com toda a dificuldade que tinha, a diretoria da época conseguiu pagar a minha cirurgia que foi um preço bem alto, porém o meu salário começou a ficar atrasado na época”, contou.

Além disso, na mesma semana em que se machucou, João Victor descobriu que sua esposa estava grávida. Com a dificuldade de voltar ao futebol e a necessidade de ter um salário fixo para sustentar a família, ele teve que tomar uma decisão. Optou por sair do futebol profissional e ficar com a família.

Recomeço

Durante sua recuperação, João focou no seu recomeço. Começou a fazer diversos cursos gratuitos, entre eles o de representante comercial, que o ajudou a conseguir um emprego em setembro. “De março a setembro, eu fazia de tudo. Tudo um pouco eu fazia. Até desmontar palco à noite quando precisava”, disse.

A decisão definitiva de sair do futebol foi acontecendo durante este tempo. “A aceitação de eu não poder mais fazer isso profissionalmente foi tomando conta”, disse. Em setembro, ele começou a trabalhar em um serviço que está registrado. Agora é agente de registro e pai de uma menina de quatro meses. Além disso, faz faculdade à distância de administração e planeja fazer uma pós-graduação em seguida.

“Era para acontecer. Deus quis que me machucasse para ver que eu não dependia somente daquilo, que eu tinha mais opções. Eu sou muito grato ao futebol. Não sou uma pessoa frustrada. Sou muito grato por tudo o que tenho hoje, as coisas que eu conheci, os lugares que eu cheguei, foi tudo através do futebol. Não posso dizer que nada aconteceu por causa do futebol, eu estaria mentindo. Só que às vezes chega um tempo que temos que colocar o pé no chão e escolher. E a minha escolha foi ficar o final de semana com minha filha, minha família”, afirmou.

Dificuldades e perda de talentos

Para João Victor, a situação dos atletas no futebol brasileiro está complicada. Um dos fatores é a instabilidade, já que o profissional tem contratos de pequena duração.

Outro fator, é que o setor tem sido usado por muitas pessoas que se interessam apenas peloretorno financeiro do futebol. “Infelizmente as pessoas que entram nesse ramo, sabem que vão ter um retorno de certa forma porque muitas vezes, principalmente clubes pequenos – não generalizando – eles até brincam com os sonhos de muitos meninos”, disse.

Para João Victor, atualmente não basta apenas ter talento. “Entender que as chances de obter um nãoé muito maior que obter um sim, mesmo tendo talento. Tive muitos conhecidos que tinham talento, poderiam estar no ramo de futebol, mas não conseguiram porque o futebol virou mais uma questão financeira”, relata.

Um dos complicadores é o fato de que as famílias precisam colocar recursos próprios para que o atleta jovem vá pra frente. “Uma palavra que você ouve muito é investimento. ‘Você tem que fazer investimento disso, pra lá na frente você ter’. E se você não tiver? E se não acontecer?”, disse. Ele conta que isso ocorre até em times com uma expressão média dentro do futebol. “Você não vê que 100% daqueles meninos têm uma ajuda de custo mínima. Mínima, digo pra comprar uma pasta de dente, comprar uma bolacha, pra sair e comer um lanche. Moradia e alimentação, é o mínimo que você tem que dar pra exigir de uma atleta, mas não acontece isso”, afirma.

Isso faz com que muitos talentos possam estar perdidos. “Tem muito Neymarperdido por aí que ninguém olha. Ninguém faz questão de olhar”, alerta.

No entanto, para ele, os jovens que desejam se profissionalizar não podem desistir. “Tem que sonhar. Acreditar que aquilo é possível. Você pode estar no lugar e na hora certas. Mas ter a cabeça no lugar. Se não der certo, a vida não acaba ali, a vida continua. Você pode almejar várias outras coisas”, relata.

Escolinha Furacão

Iniciada em 2017, a Escolinha Furacãoé uma parceira da Prefeitura de Fernandes Pinheiro e o Atlético Paranaense. A parceira deu certo e, recentemente, os treinos foram estendidos aos alunos do distrito doAngaí. Ao todo, 150 alunos estão sendo atendidos.

Segundo o diretor do departamento de Esportes, Giovane Gonçalves dos Santos, o objetivo não é apenas de revelar talentos, mas principalmente, dar uma opção extraclasse aos alunos. “É tirar as crianças da ociosidade”, disse.

A participação é gratuita. A prefeitura fornece os uniformes e o professor de Educação Física. O Atlético Paranaense fornece treinamento e metodologia. Os resultados já sãovistos em sala de aula. “Às vezes, uma criança que estava aprontando na escola, a gente conversava na escolinha: ‘Se você não melhorar na escola, vai ter que sair da escolinha’, e consequentemente melhorou na escola”, disse.

Os alunos também participam de peneiras do Atlético, com a orientação do professor sobre as dificuldades.

Escolinha Coxa Branca

Em Teixeira Soares, no último dia 07 de abril, teve início a escolinha de futebol Coxa Branca. Patrocinada pelo CoritibaFoot Ball Club, a escolinha conta com o apoio da Prefeitura Municipal.

“Esporte é vida. O esporte tira a criança da rua e dá a ela esperança. Pensando nisso, inauguramos a escolinha Coxa Branca para os pequenos novos atletas do nosso município”, destaca o prefeito de Teixeira Soares, Lula Thomaz.

A escolinha conta com a participação de grande número de crianças e é desenvolvida através do trabalho do departamento de Esportes, dirigido por Alisson Platini.

Fotos:Foto 1, 4 e 5: Divulgação

Foto 2,3,6,7,8: Karin Franco/Hoje Centro Sul

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