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Edição 1063 - Já nas bancas!
06/04/2018

Proibição do uso de narguilé em locais públicosem Prudentópolis traz à tona a discussão sobre o tema

Proibição do uso de narguilé em locais públicosem Prudentópolis traz à tona a discussão sobre o tema

O uso do narguilé, uma espécie de cachimbo de água de origem oriental, foi tema de discussão em Prudentópolis, após a proposição de um projeto de lei pela Câmara de Vereadores para proibir o uso do narguilé em vias públicas, praças, parques, praças esportivas públicas, espaços de exposições e espaços públicos de propriedade da municipalidade.

O projeto acabou virando um substitutivo e acrescentou a proibição à Lei Municipal nº 1.861/2010, que já proíbe o uso de bebida alcoólica em vias públicas. O substitutivo, de autoria dos vereadores LademiroBudnik, Carina GasparinRampi e Marcos Roberto Lachovicz, foi aprovado na terça-feira (27), em segunda votação, por unanimidade de votos na Câmara Municipal. Ainda é preciso a sanção do Executivo.

Após a proposição do projeto, alguns jovens que costumavam usar o narguilé em espaços públicos foram à Câmara de Prudentópolis conversar com os vereadores sobre o projeto.Na Tribuna, durante a sessão que aprovou o substitutivo em primeira votação, a vereadora Carina comentou a conversa que ocorreu. “Foi muito produtiva a conversa com todos, até porque deixou clara a questão do ir e vir. Eles questionaram essa questão de que somos livres e temos a liberdade de ir e vir. Eu coloquei a questão do respeito e moral e bons costumes”, destacou.

Ainda na Tribuna, a vereadora explicou que o projeto não tem o objetivo de proibir o consumo, mas sim, que há uma preocupação em relação à saúde dos jovens. “O que me preocupa muito é a falta de informação do que é o narguilé. O narguilé tem nicotina, as doenças causadas pelo narguilé são seríssimas”, disse.

Uso é definido como relaxante

Para muitos usuários, o narguilé se mostrou uma opção ao cigarro de nicotina. É o caso de Andrei Lubaczeuski que conheceu o narguilé há 10 anos, mas que começou a usar com frequência nos últimos cinco anos. “Passei uns dois anos sem fumar cigarro, eu tive um contato com o narguilé novamente e foi meio que uma paixão. Eu estava querendo voltar a fumar cigarro, mas estava me controlando. E acabei tendo contato com o narguilé novamente e desde então eu fumo”, conta.

Como o uso do narguilé leva um tempo de preparo, Andrei conta que todo o ritual para o preparo o ajuda a relaxar. “ Uso o narguilé como aquela hora do dia para descansar, desligar dos problemas, é um produto para relaxar”, defende.

Como ex-fumante de cigarro, Andrei conta que para ele, os efeitos do narguilé têm sido menores do que do cigarro. “Quando ficava sem fumar cigarro, me causava abstinência, mas quando fumava narguilé, não me causa. Posso ficar vários dias sem fumar por causa do meu trabalho que eu não vou sentir aquela necessidade”, explica.

Ele conta que chegou a pesquisar sobre os efeitos do narguilé, mas para ele, as consequências são menores do que quando usava o cigarro. “A grande diferença que vejo é que o cigarro a gente traga pra fumar, e o narguilé você não traga, você fuma igual o charuto. É uma fumaça que coloca dentro da sua boca, você aprecia o sabor e acaba soltando ela novamente”, disse. E Andrei acrescenta: “Não vejo o narguilé como porta de entrada para consumir drogas e não vejo o narguilé sendo mais viciante do que o cigarro”.

Descente de libaneses, SomayaReda conta que o uso do narguilé sempre esteve na cultura da família. Há dois anos, ela e seu irmão montaram uma tabacaria no centro de Irati onde vendem produtos para o uso do narguilé.

Ela conta que costuma usar o narguilé poucas vezes, apenas para experimentar as essências e em conjunto com amigos. “Eu gosto de experimentar as essências. Quando chega essência nova eu experimento para saber o gosto, até para falar para o cliente. Quando estão fumando, eu fumo junto. Sozinha é um pouco ruim de fumar, é bom junto. Como em um churrasco, se reúne e conversa”, relata.

Somaya conta que a venda segue as mesmas regras que a venda do cigarro de nicotina, isto é, é proibida a venda para menores de 18 anos. Para ela, é necessário que o uso do narguilé seja feito com responsabilidade. “Tem que se ter um controle de tudo, não pode exagerar em tudo. Aqui vendemos a essência e as pessoas têm noção. Se olhar na caixinha, ele vai especificar tudo que tem na essência. A pessoa tem que ter consciência do que está fazendo, como o cigarro, a bebida – se você beber demais você vai passar mal. Comida, se comer demais, vai passar mal. Tudo tem uma dosagem certa. Não pode exagerar. Então tem que saber dosar as coisas”, explica.

Dependência e risco de câncer

O uso crescente do narguilé no ocidente tem alertado os órgãos de saúde que já fizeram campanha para a conscientização sobre as consequências do produto. Um dos órgãos é o Instituto Nacional do Câncer José Alencar Gomes da Silva (Inca).

“Estudos associam o uso de narguilé ao desenvolvimento de câncer de pulmão, doenças respiratórias, doença periodontal (da gengiva) e com o baixo peso ao nascer, além de expor seus usuários a nicotina em concentração que causa dependência. Após 45 minutos de sessão, o narguilé aumenta os batimentos cardíacos e a concentração de monóxido de carbono expirado. Ocorre também maior exposição a metais pesados, altamente tóxicos e de difícil eliminação, como o cádmio. Em longo prazo, seu consumo pode causar câncer de pulmão, boca e bexiga, aterosclerose e doença coronariana”, diz o Inca.

O pneumologista Jonatas Reichert, que é membro titular da Comissão de Combate ao Tabagismo da Associação Médica Brasileira (SP) e foi presidente da Comissão de Tabagismo da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, entre 2006 e 2008, confirma que uso também pode levar à dependência. “O uso frequente leva à multiplicação dos receptores nicotínico no cérebro (Núcleo acumbens) estimulando intensamente o mecanismo de recompensa, relacionado ao prazer X dependência”, explica.

O risco de câncer também é uma das consequências. “A nicotina está envolvida diretamente a isto, porém sofre um processo de decomposição em outras substâncias, como as Nitrosaminas que têm um alto poder carcinogênico, isto é, de produzirem atipias nucleares, o que pode formar câncer em qualquer parte do organismo”, relata.

Filtro?

Para a maioria dos usuários jovens, a existência de uma espécie de filtro de água ajudaria a eliminar a nicotina presente na substância utilizada. De acordo com o Inca, a água do dispositivo não filtra a nicotina. O Inca utiliza dados de 2005 da Organização Mundial da Saúde que indicam que uma sessão de narguilé dura em média de 20 a 80 minutos, o que corresponde à exposição a todos os componentes tóxicos presentes na fumaça de 100 cigarros.

O pneumologista Jonatas Reichert destaca que o uso do narguilé é bem menor que o uso do cigarro, mas que os estudos indicam que os efeitos podem ser maiores no narguilé. Ele ainda lembra que muitos utilizam outras substâncias que também podem ser prejudiciais ao organismo. “Este sistema, também conhecido como cachimbo d’água, foi concebido há mais de 500 anos por um médico persa preocupado com o consumo de tabaco na sua época e pensou que se a fumaça passasse por um filtro de água as impurezas seriam retidas. Concebeu o sistema com a casca de meio coco com água e um canudo de madeira para aspirar. Coco na língua persa significa narguilé.  O dispositivo permite a adição de vários produtos para dar sabor e aroma, outros colocam bebidas destiladas e drogas ilícitas. Tudo é prejudicial”, alerta.

Para o pneumologista, o uso do narguilé em ambientes fechados pode ser pior do que em ambientes abertos. “Em lugares fechados é pior. O grupo compartilhando os bocais está sujeito a contraírem doenças infectos contagiosas (aids, herpes, hepatites)”, conta.

Narguilé

O narguilé é um dispositivo usado para fumar. Neste dispositivo, o tabaco é aquecido e a fumaça gerada passa por um filtro de água antes de ser aspirada pelo fumante, por meio de uma mangueira. O narguilé é acompanhado com essências que não deixam o cheiro de tabaco.

Proprietária de uma tabacaria, SomayaReda, explica que existem diversos tipos de tabaco, mas que as pessoas costumam comprar as essências, que possuem vários sabores. “O que a pessoa compra são as essências, que vêm em caixinhas, o carvão de coco, que é diferente do carvão de mercado, é todo um preparo diferente, o papel alumínio que é diferente do de mercado que é mais grosso, porque senão ele queima a essência e fica com o gosto de queimado”, disse.

Foto/Texto: Karin Franco/Hoje Centro Sul

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