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Edição 1041 - Já nas bancas!
23/03/2018

Desconhecimento sobre autismo dificulta busca de diagnóstico

Desconhecimento sobre autismo dificulta busca de diagnóstico

O autismo, também conhecido como Transtornos do Espectro Autista (TEA), causa problemas no desenvolvimento da linguagem, nos processos de comunicação, na interação e comportamento social da criança. O diagnóstico é feito geralmente nos primeiros anos de vida, no entanto, muitos pais enfrentam dificuldades até conseguir entender o que o filho está passando.

Foi o que aconteceu com Danielle ValeryCaneso, que possui um filho de 8 anoscom nível leve de autismo. Ela conta que nos primeiros seis meses a criança não apresentou maiores problemas. Mãe de primeira viagem, Danielle não estranhou o fato de o bebê ser mais quieto. “Até então ele agia naturalmente, ele era bem quietinho. Assistia TV na sala sentadinho. Até então não vi nada de mau. Na primeira papinha, que ele fez cocô na fralda, ele se sentiu incomodado. Cada vez que ele queria fazer cocô, ele fazia um barulho diferente e eu tinha que levar ele ao banheiro. Por ele se incomodar com o cocô na fralda, eu levava, mas o xixi fazia normal”, relata.

Danielle conta que depois de um ano e dez meses, o bebê começou a ficar mais irritado. Contudo, ela disse quepor muito tempo achou que era um comportamento para chamar a atenção. “Se você falasse um não para ele, ele ficava muito irritado, me batia. E depois quando começamos a dizer não pra ele, ele começou a bater a cabeça no chão e a gente não entendia aquilo”, explica.

A criança aprendeu a falar apenas com quatro anos e o excesso de barulho de brinquedos e pessoas o incomodava. Danielle conta que houve dificuldade de comunicação com a criança desde muito cedo e que chegou a levar a um fonoaudiólogo, que o examinou e não encontrou nenhum problema na audição.

O diagnóstico de autismo só veio após muita procura dos pais por profissionais e informação. Quando o menino tinha dois anos e oito meses, eles foram em busca de profissionais para verificar se ele tinha ou não autismo. Com o diagnóstico de que o menino apresentava um autismo leve, os pais tiveram outro desafio: o de encontrar meios para estimular o desenvolvimento do filho.

Eles procuraram profissionais em Irati, mas houve dificuldade em encontrar alguém especializado. Foi através da Apae, que conseguiram orientações sobre como ajudar no desenvolvimento do filho. “Eu enchia a casa de desenhos de tudo que ele tinha que fazer, desde a primeira coisa do dia. Eles me ensinaram que eu não poderia dizer não, porque eles [autistas] não entendiam o não. Eu tive que reformular todas as perguntas. Ao invés de dizer não feche a porta, eu tive que aprender a falar no afirmativo: ‘deixe a porta aberta’”, comenta.

Além de o diagnóstico ser difícil, Danielle conta que para os pais outra dificuldade é a aceitação e o entendimento do que é ter um filho autista. “É muito difícil porque você precisa lidar com a revolta, com a tristeza. É muito estranho. É um turbilhão de sentimentos. A gente pensa como vai ser quando ele crescer”, relata.

Autismo

O psicólogo e doutor em Educação e Desenvolvimento Humano, Mauricio Wisniewski, explica que a principal característica é a dificuldade na comunicação. “De forma geral, nós podemos dizer que as crianças do espectro autista têm uma grande dificuldade de comunicação, que interfere no desenvolvimento global dessa criança. No que diz respeito à comunicação, a criança não se comunica normalmente, não aprende”, explica.

Há diferentes espectros de autismo, isto é, diferentes graus de autismo que a criança apresenta. “Trabalha desde o autismo severo, onde a criança não fala, não se comunica e vai crescer assim, até o autismo mais leve, antigamente chamado de síndrome de asperger, no qual a criança consegue determinado grau de sociabilidade,é bastante inteligente e consegue desenvolver a inteligência em várias áreas”, relata.

As causas do autismo são desconhecidas. “Não se pode dizer com certeza se os fatores são hereditárias, metabólicos, ambientais. A certeza é que hoje nós temos muito mais clareza sobre o autismo do que se tinha quando ele foi caracterizado em meados do século 20”, relata. “A prevalência do autismo no Brasil está em torno de 0,3% da população de jovens até 20 anos. Ele é mais comum em meninos”, destaca.

Diagnóstico

O diagnóstico geralmente é feito aos 3 anos, mas já há casos em que o diagnóstico ocorre antes.

Segundo a psicóloga da Apae de Irati, Ana Lúcia Pedro , os pais tem dificuldades em perceber os primeiros sinais e é comum que as crianças comecem a ser diagnosticadas quando entram em contato com um profissional da educação. “A criança, quando entra no CMEI, os professores observam que tem alguma coisa diferente”, relata. “É muito difícil a mãe ter esse olho porque na realidade ela nunca ouviu falar em autismo. Ela não sabe. Mas ela nota que alguma coisa tem de diferente”, explica.

O psicólogo Mauricio destaca que é importante que o diagnóstico ocorra no início da infância. “Porque a criança consegue ser inserida em programas específicos para autistas e também se consegue fazer orientações para os pais de uma forma bem precoce”, detalha.

Depois do diagnóstico

Mauricio explica que o tratamento envolve uma equipe multidisciplinar. “É um diagnóstico de transtorno de desenvolvimento porque a dificuldade de fala atrapalha o desenvolvimento como um todo. O tratamento para isso passa por fonoaudiólogos, psicólogos, psiquiatras, neurologistas e uma equipe de pedagogos, uma equipe multidisciplinar para trabalhar justamente as lacunas que essa falta de comunicação deixa no desenvolvimento da criança”, relata.

A Apae de Irati possui um centro onde crianças autistas recebem tratamento multidisciplinar. Na instituição são tratadas crianças de espectro moderado a severo. “Nós avaliamos. Se tem um nível leve, encaminhamos para um CMEI e a mãe consegue esse atendimento no CMEI. Se avaliamos que ele tem um nível moderado, ele vira nosso aluno”, explica Ana Lúcia Pedro.

A psicóloga conta que dois métodos são utilizados na Apae para ajudar no desenvolvimento das crianças. “Usamos o Teacch (Tratamento e educação para crianças com autismo e com distúrbios correlatos da comunicação) e o Aba (Análise aplicada do comportamento). O Aba é uma forma de modelagem de comportamento. O Teacché através de pareamento de gravuras porque as crianças autistas são muito visuais. Eles aprendem através de gravuras”, detalha.

Mauricio explica que o aprendizado do autista é diferente do das outras crianças. “Porque não pode contar com o fator social, por exemplo, a questão social é zero. A questão do carinho, a criança pode ser agressiva quando é obrigada a olhar nos olhos de alguém, quando a sua privacidade é invadida, ou quando o corpo é tocado. Precisa tomar muito cuidado, pessoas especializadas devem trabalhar com autistas”, alerta.

Ele ainda destaca que as crianças costumam eleger um dos pais e o enxergam de modo diferente. “Provavelmente a criança autista vá eleger um dos pais, provavelmente aquele que fique mais com ele, para instrumentalizar essa pessoa. Essa pessoa passa a ser um instrumento desse autista no contato com o mundo. Ele não pede pra mãe ou para o pai um copo de água, ele pega a mão da pessoa próxima e leva até o bebedouro, então adivinhamos que ele quer água. Claro que estamos falando de um autista mais grave. Autista mais leve é um tipo de autismo em que a criança desenvolve a comunicação, tem problemas de relacionamento, mas desenvolve bem a comunicação, chega até a faculdade”, relata.

Apesar da dificuldade, o psicólogo destaca que é importante que haja respeito com o autista. “O autista precisa acima de tudo de respeito, compreensão e acolhimento, porque se trata de um transtorno mental do desenvolvimento, ou seja,crianças com autismo provavelmente vão ter problemas no desenvolvimento. Isso requer dos pais e da sociedade um olhar mais respeitoso e principalmente muito carinhoso, porque essas pessoas além de terem direitos garantidos hoje em lei, elas precisam de um acolhimento como seres humanos”, finaliza.

Autismo

Atualmente, estima-se que 70 milhões de pessoas no mundo todo possuem algum tipo de autismo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Com relação ao Brasil, esse número passa para 2 milhões. Uma pesquisa do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), realizada no ano passado,diz que o autismo atinge ambos os sexos e todas as etnias, porém o número de ocorrências é maior entre o sexo masculino (cerca de 4,5 vezes).

Texto: Silmara Andrade e Karin Franco/Hoje Centro Sul

Foto: Divulgação e Arquivo pessoal

 

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