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Edição 1080 - Já nas bancas!
02/03/2018

Tragédia chama atenção de todos para prevenção de incêndio

Tragédia chama atenção de todos para prevenção de incêndio

A semana iniciou com uma tragédia no centro de Irati. O Centro de Eventos Italiano foi atingido por um incêndio de grandes proporções na madrugada de segunda-feira (26).

Por volta das 4 horas da manhã, o Corpo de Bombeiros foi chamado para controlar o incêndio. Foram necessários mais de 200 mil litros de água, quatro caminhões e mais de duas horas para apagar o incêndio que destruiu o Centro de Eventos.

O fogo não alcançou os empreendimentos localizados na Rua da Cidadania, mas afetou a fiação elétrica dos espaços comerciais anexos, que precisará ser revisada. A parte da lanchonete localizada na esquina também não foi afetada, tendo poucos danos, que poderão ser reparados em um curto espaço de tempo.

De acordo com a Polícia Civil, o fogo partiu de um prédio lateral ao Centro de Eventos Italiano. No local, ao fim da manhã de segunda-feira, peritos do Instituto Médico Legal (IML) encontraram um corpo carbonizado. Acredita-se que o corpo seja de um homem, mas não há confirmação, pois ainda não foi identificado.

Por haver a suspeita de ser um incêndio criminoso com homicídio, a investigação segue com a Polícia Civil, que tem 30 dias para finalizar o inquérito. O corpo carbonizado foi transferido para o IML para exames.

Tragédia poderia ter sido maior

Apesar da perda total do Centro de Eventos Italiano, a tragédia poderia ser pior. O comandante do Corpo de Bombeiros de Irati, capitão Jorge Augusto Ramos, conta que duas situações  - compartimentação do prédio e Plano de prevenção - ajudaram a evitar que o fogo se alastrasse a outros empreendimentos localizados na mesma quadra, onde funcionam cinema e lojas, além deuma revenda de botijão de gás na outra esquina.

Compartimentação

Uma das primeiras situações foi a compartimentação do prédio. Segundo o comandante, o empreendimento possui vários compartimentos, já que ao longo do tempo, a empresa foi adquirindo vários prédios, mas manteve as divisões. “Ele manteve essas características. As paredes funcionam como uma parede corta-fogo que é aonde o fogo chega e tem certa resistência. A gente tem a oportunidade de fazer o combate dessas regiões”, conta.

Uma das suspeitas é de que o fogo tenha começado em um prédio lateral e depois seguido por dentro de um telhado. Como as estruturas foram mantidas de forma compartimentada, o fogo não conseguiu se alastrar ainda mais. “As massas de ar quente não conseguem sair, avançam muito rápido dentro de uma edificação, e à medida que ela está em temperatura de queima em cinco, dez minutos do incêndio eclodido tudo entra em temperatura de queima. A compartimentação evita essa fumaça quente e os gases ainda não queimados – já que está tudo em temperatura de combustão –, evita que eles cheguem em materiais mais combustíveis, como o forro, a estrutura do telhado, móveis. Tudo isso dá uma maior resistência ao fogo”, relata.

Segundo o comandante, a exigência da compartimentação é recente, por volta de seis anos. Por isso, construções antigas ainda não possuem a modificação. “Todas as edificações mais antigas não têm esse tipo de prevenção. Em um caso ou outro podem ter feito adaptações que a gente pediu ou orientou ou, às vezes, uma questão funcional da empresa”, disse.

Plano de Prevenção

Outro fator que ajudou no combate ao incênciofoi o plano de prevenção. Segundo o comandante, o plano era recente e diversos itens foram cumpridos. “A empresa tinha o plano de prevenção a incêndio aprovado. Era até recente essa aprovação. Neste plano tem todas as medidas de segurança que tem que seguir. Ali eles tinham o sistema de hidrantes, a parte de saídas de emergências, detecção, iluminação, sinalização, controle de material de acabamento. São várias medidas de segurança necessárias, que eles estavam em dia”, disse.

O funcionamento dos hidrantes ajudou no momento do controle de incêndio. O comandante também explica que a detecção de incêndio funcionou, mas devido ao foco do incêndio ser externo, houve a demora de o detector perceber. “Dificilmente uma causa interna iria provocar um incêndio dessa proporção, porque seria detectada. Como foi causa externa, possivelmente veio uma grande massa de ar quente. Já existia um incêndio na edificação lateral e passou todo o calor de forma imediata. Por isso a evolução tão rápida”, comenta.

Um dos fatores para o tamanho do incêndio foi a detecção tardia. “Temos uma regra de ouro: o incêndio a gente atende em cinco minutos. A cada cinco minutos a mais de tempo, é uma hora de trabalho para você apagar”, relatou.

Prevenção

Atualmente, as exigências para edificações novas têm sido grandes, como a exigência de Plano de prevenção às edificações com mais de 200 metros quadrados. Quanto maior e dependendo a finalidade da edificação, mais exigências serão feitas. Nas edificações já consolidadas, o plano é necessário caso a empresa precise de algum sistema, como o sistema hidráulico.

“Nas edificações mais antigas, que não precisam desse plano, elas precisam de cinco medidas básicas: a prevenção de incêndio se dá por extintores, saídas de emergências dimensionadas, a iluminação de emergência, sinalização e, se utiliza o GLP, o gás de cozinha, o gás tem que estar pra fora da edificação. São medidas simples para a maioria das edificações”, relata o comandante.

Além de hidrantes, detectores e alarmes, outras exigências poderão ser feitas, dependendo da edificação. “Quando não consegue compartimentar, a medida de segurança é o Sprinkler, o chuveiro automático. Já temos aqui em Irati duas empresas que estão caminhando para a instalação deste sistema”, explica.

O treinamento também é um dos pontos importantes. Atualmente o Corpo de Bombeiros realiza o treinamento de funcionários para que saibam como agir. “Brigada de incêndio é o treinamento de pessoas que habitam aquele prédio, trabalham naquela empresa para combater um principio de incêndio ou um incêndio naquela edificação.Então ele aprende como se comportar a atuar num perigo desses dentro da edificação”, relata.

No caso do Centro de Eventos Italiano, o comandante explicou que a empresa possui funcionários treinados e que se algo tivesse acontecido durante o dia, o foco poderia ser eliminado mais rapidamente. “Se a pessoa está preparada e tem o mecanismo ou o extintor ou o hidrante, ela vai conseguir combater o mecanismo de incêndio, ela vai ligar de maneira precoce para realizar a atuação”, explica.

O corretor de seguros, Antônio Marcos Sedoski, reforça que o treinamento é essencial. “Não adianta ter na sua empresa tudo: extintor, hidrante, detector de fumaça, alarme e as pessoas não saberem usar”, enfatiza.

Ele explica que os empresários precisam estar atentos também a diversos outros cuidados que também representam risco de incêndio. Ter uma política para fumantes e cuidar no manuseio de soldas são algumas das orientações. “Já aconteceu recentemente de uma empresa grande no norte do Paraná em que eles ainda nem tinham inaugurado, mas precisaram fazer um trabalho de solda e queimou toda a edificação”, relata.

A manutenção, tanto da rede elétrica quanto dos equipamentos de prevenção a incêndio também são detalhes a serem vistos. “As cidades têm as construções antigas e não existe a conscientização do empresário que tem que fazer uma revisão periódica para ver se está tudo certo”, disse.

Ele ainda alerta que não são apenas empresas que precisam estar atentas a esses fatores, mas também as residências. “Tudo está sujeito ao risco. A residência também corre um risco muito grande”, destaca.

Incêndio pode ter sido criminal

De acordo com a Polícia Civil, a investigação traz indícios de que o incêndio pode ter sido criminal e que há a suspeita de homicídio. A Polícia Civil também já trabalha com suspeitos. “Vamos trabalhar inicialmente com essa hipótese de que o incêndio foi causado por um terceiro e, portanto, criminoso. O que a gente vai averiguar é se a pessoa que colocou o fogo nesse anexo teria a intenção de matar a pessoa que morreu ou se foi um acidente com a própria pessoa, ou se foi algum acidente”, explica o delegado da Polícia Civil de Irati, Paulo Cesar Eugênio Ribeiro.

O inquérito já foi aberto e investigadores já recolheram imagens de câmeras de segurança que podem ajudar na investigação.  “O serviço de investigação já fez esse levantamento preliminar. Agora vamos documentar para fazer uma análise. Mas existe sim a possibilidade de um morador de rua que cometeu esse delito, mas a primeira hipótese de trabalho é de um incêndio criminoso e um homicídio”, disse.

A vítima fatal ainda não foi identificada, mas há a suspeita de que ele seja um morador de rua. “A gente tem indícios, embora não possamos falar todas as provas que colhemos. Mas existe sim a possibilidade de ser um morador de rua”, relata. “Acredito que seja possível identificar. Há muitas câmeras ao redor e temos testemunhas que podem nos ajudar a esclarecer quem é essa pessoa”, afirma.

O inquérito possui 30 dias para ser finalizado, podendo ser prorrogado pelo Ministério Público. O laudo do Instituto de Criminalística deve demorar 10 dias, já o laudo pode demorar um pouco mais devido a situação do IML de Ponta Grossa. “Acredito que não chegue aos 30 dias. Acredito que finalizamos antes”, disse.

O delegado ainda salientou a participação da população. “Peço à população que se notaram o desaparecimento de alguém da família que compareçam à delegacia de polícia para poder facilitar o serviço de investigação desse corpo que foi carbonizado”, destaca.

Texto: Karin Franco, com reportagem Silmara Andrade/Hoje Centro Sul

Fotos: Karin Franco e Silmara Andrade/Hoje Centro Sul

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