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Edição 1003 - Já nas bancas!
27/10/2017

“Sem investidor, futebol na cidade de Irati é inviável”, diz ex-presidente do Iraty

Marcos Antônio Marques fala sobre sua saída da presidência do IratySport Club

“Sem investidor, futebol na cidade de Irati é inviável”, diz ex-presidente do Iraty

Marcos Antônio Marques não é mais o presidente do IratySport Club. A carta de demissão foi entregue ao Conselho Deliberativo do clube a menos de dois meses do final de seu mandato.

Ao jornal Hoje Centro Sul, o ex-presidente afirmou que a saída se deve a questões profissionais e de saúde, e nega que seja por pressão política dentro da diretoria. Ele ainda criticou a falta de apoio ao futebol iratiense e fez um balanço de seu mandato.

Saída

O ex-presidente do Iraty fala que a saída se deu principalmente por causa da incompatibilidade com a sua atividade profissional. Ele afirma que com a abertura das piscinas na temporada de verão é exigido que o presidente tenha mais tempo. “O motivo específico é que não estou conseguindo compatibilizar horários, porque o clube precisa que alguém faça o meio expediente diário e com a minha atividade profissional está sendo complicado cumprir esse horário”, disse.O outro motivo é em relação à sua saúde e a pressão da família para que cuide disso. “Estou tendo problemas de saúde, queira ou não queira você acaba se desgastando, então não está dando para conciliar”, diz.

Ele nega que a sua saída seja relacionada à situação financeira do clube e à pressão política interna. “Se fosse em relação a boatos, eu estou tendo problemas desde que eu assumi o clube e não deixaria para renunciar faltando dois meses para vencer o mandato. Se fosse em relação à situação financeira do clube, teria renunciado há muito tempo atrás”, conta.

Mandato

O ex-presidente afirmou que o primeiro ano de gestão foi para reformar diversas partes do clube que estavam danificadas. Ele mostrou fotos de antes e depois. Entre as reformas está colocação de piso na piscina, melhoramento do campo de futebol, reconstrução de muros e limpeza nos arredores do clube.

“O primeiro ano nosso foi para reconstruir o clube. O que tinha sido abandonado, por não opção – isso não estou questionando, foi questão da presidência, presidente não queria futebol, era direito dele e achou o que era melhor para ele – e mesmo assim entramos no futebol no ano passado porque foi uma das nossas metas, uma proposta nossa como candidato: retornar o futebol profissional para nossa cidade. Te falo com sinceridade: se eu soubesse o que iria acontecer para frente, nunca iria ter feito isso”, disse.

Segundo o ex-presidente, a gestão teve problemas internos, segundo ele, por possuir forte oposição. “As pessoas que poderiam apoiar o Iraty, automaticamente dividiu. Aí começou. Você já não teve a unanimidade de todo o pessoal para ir num objetivo. É o tipo de coisa, a pessoa se podia ajudar já não ajudava mais. Se podia criar algum empecilho, criava-se”, disse.

Futebol

Uma das ações realizadas no primeiro ano de mandato de Marcos foi a retomada do time profissional de futebol do IratySport Club. “Fazia cinco, quatro anos que o futebol já tinha morrido na nossa cidade e nós retornamos do zero. Retornando do zero no primeiro ano nós nos classificamos na série C, perdemos o campeonato por detalhe nosso. No último jogo, nós precisávamos vencer o jogo. No primeiro tempo nós estávamos ganhando de 3 a 0, e o pessoal empatou em 3 a 3, nós perdemos, fomos vice, mas subimos para segunda divisão. Acho que no primeiro ano já foi uma façanha, mesmo sem estrutura, mesmo sem condições.Não tinha patrocínio, tinha algumas pessoas que colaboravam”, explica.

Marcos critica a falta de apoio para o futebol profissional em Irati. “A comunidade não apóia. Você precisa de muito dinheiro e sem ter um gestor, uma pessoa que realmente invista no futebol, futebol na cidade de Irati é inviável. Não tem como você fazer. Precisa de um empresário que queira investir no futebol”, disse.

Ele explica que mesmo com a ajuda de grandes patrocinadores é necessário o apoio da comunidade, até mesmo através de pequenas ajudas, como doação de refeições e locais de hospedagem, e até mesmo pequenas doações em dinheiro. “Se você tem dois ou três patrocinadores grandes eles te ajudam em 60%, mas 40% a comunidade tem que ajudar. Não é colocando milhões no clube”, disse. Para ele é necessário união. “Se a cidade encampa o time, o time não precisa do investidor. A própria cidade vai gerir o futebol da cidade que traz retorno para a cidade. Só que nós não temos essa mentalidade”, comenta.

Marcos disse que pensou em parar com o futebol no começo do ano por causa da falta de apoio, mas decidiu seguir em frente, agora na segunda divisão. “O pessoal chegou: ‘Ah, veja bem, nós sofremos tanto ano passado para agora desistir?’. Então, você começa a pensar. Entramos na segunda divisão esperando sacrifício do mesmo jeito”, disse.

Pressão

Marcos diz que durante o tempo que o time subia no campeonato, o clube pagava as dívidas. Na metade do ano, a pressão interna começou a aumentar e a diretoria perdeu alguns integrantes. “Foi no sacrifício, mas daí começou a pressão ser maior. E nessa pressão, uns três diretores saíram fora. Por quê? Porque isso é um trabalho voluntário, você não ganha nada para isso. Agora você fazer um trabalho voluntário pelo que você gosta, o pessoal te criticando, o pessoal fazendo pressão, o pessoal chamando de tudo e você pensa: ‘O que estou fazendo aqui?’ Daí eu falei: não posso segurar ninguém. Como vou segurar alguém se o cara está fazendo trabalho voluntário, está me ajudando? Não tem obrigação de ficar criando inimizade, criando situação, daí o pessoal saiu”, disse.

Ele negou que houve desentendimentos entre eles. “Nunca teve briga, simplesmente a pessoa que saia era um direito dela e como era meu direito sair”, explicou.

Com a situação do clube com dificuldades, Marcos conta que novamente pensou em desistir do time profissional na metade do ano. No entanto, o treinador Play de Freitas convenceu-o a continuar. Desde julho, é o treinador que passou a ser o gestor do futebol no clube. “A partir do mês de julho já era o gestor que era o responsável pelo futebol. Nós entravamos com nossa estrutura e nossa camisa porque tem que ter registro na federação tem que ser um clube esportivo”, disse.

Volta?

Questionado se voltaria à presidência do clube no futuro, Marcos foi enfático. “Não. A não ser se fosse com unidade, que todo mundo...até um dia eu posso até ajudar, no sentido de colaborar com a minha experiência, o que passei para que essa pessoa não passar. Posso ajudar. Isso se for uma pessoa do convívio da gente”, afirma.

Ele reiterou a dificuldade de continuar com o futebol. “Não tem como tocar futebol, se não tiver a mínima estrutura. Você não tem. A não ser que você queira ser mais um. Mas se quiser levar a coisa certa, não tem como. Se eu fosse dar um conselho hoje para quem for assumir lá, se não tiver alguém ajudando, não se meta porque vai passar pelo que eu passei”, disse.

“Saio com a consciência tranquila porque minha parte eu fiz. Reconstruí o que estava destruído. Estou deixando o Iratyna segunda divisão – queira ou não queira fomos nós que começamos do zero e fomos até aqui. O próximo presidente que assumir, se quiser pegar o futebol, ele vai pegar o Iratyem uma segunda divisão que é mais fácil para um patrocínio, mais fácil para aparecer um gestor, mais fácil do que começar do zero”, afirmou.

Dívidas

O ex-presidente reconheceu que a situação financeira do clube é delicada, mas garantiu que a gestão atual tem pagado as dívidas. Ele ainda afirmou que a situação financeira não deve ser resolvida em apenas uma gestão e que outras gestões ainda enfrentarão dificuldades. “Tivemos situações difíceis. Atrasamos pagamento de água e luz, atrasamos salários de funcionários, tivemos problemas judiciais. Mas esses problemas estão sendo resolvidos e não vai ser eu ou o próximo gestor que vai resolver. Quem for entrar lá, vai entrar sabendo desse problema”, relatou.

No entanto, ele afirmou que as dívidas dessa gestão foram quitadas. “De julho para cá resolvi colocar a casa em ordem, pelo menos o que era da minha responsabilidade. Ou o que eu achava que era minha responsabilidade. Então, deixei a casa em ordem, o salário dos funcionários voltou a ficar em dia. Dívidas que nós fizemos tanto do futebol, quanto do social estão todas quitadas. Mas tem aquelas contas normais que vão ficar. Você compra um cloro que é em três, quatro vezes, não tem como pagar, mas é o dia a dia do clube”, disse.

Outro fator questionado em Irati é quanto à porcentagem recebida pelo clube de jogadores que foram vendidos a clubes internacionais. Segundo o artigo 21 do Regulationsonthe Status andTransferof Players da Federação Internacional de Futebol (Fifa), qualquer clube que tenha contribuído pela educação e treinamento de um profissional que tenha sido transferido antes do fim do contrato recebe uma parte da compensação paga para seu antigo clube. O Iraty possui diversos casos em que há direito de receber parte desse valor.

No entanto, Marcos explica que essa receita não é no valor imaginado pelas pessoas. Segundo ele, o valor é recebido somente se é questionado judicialmente. Ele ainda afirma que o valor varia, indo até 5%, dependendo de diversos fatores como o tempo que atleta jogou no clube, até mesmo quantas vezes ele foi vendido anteriormente. “Isso é uma ação judicial. Ninguém a bel prazer paga. Quando você tem direito, a advogada especialista nesse caso entra com uma ação na FIFA contra esse clube. E a ação não sai do dia para o outro. Às vezes você entra com a ação hoje e vai receber uns dois anos depois. E nas condições que o clube quiser pagar. Deu R$100 mil pra você, vou te pagar em dez vezes. Aí para você não perder, você aceita.Também tem custo do advogado. Só que o pessoal não entende”, disse.

Texto/Foto: Karin Franco/Hoje Centro Sul

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