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Edição 1012 - Já nas bancas!
29/09/2017

O vazio que as tragédias no trânsito trazem para as famílias

Somente em 2016, mais de 28 mil acidentes foram registrados em vias municipais do Paraná. Famílias contam como é viver depois da perda de um ente querido em um acidente de trânsito

O vazio que as tragédias no trânsito trazem para as famílias

Na última quinta-feira (21) a morte de um adolescente de 13 anos em um acidente no centro de Irati chocou a região. Caio Rodrigo dos Santos foi atropelado e arrastado por um caminhão enquanto atravessava a Rua da Liberdade na faixa de pedestres. Segundo testemunhas, o adolescente estava usando o celular no momento do acidente.

O acidente de Caio aconteceu na Semana Nacional do Trânsito, realizada entre os dias 18 a 22 de setembro, com diversas ações para conscientizar motoristas e pedestres quanto aos perigos do trânsito. O objetivo era de que essas ações pudessem a ajudar a diminuir a violência no trânsito registrada ano a ano.

Segundo dados preliminares do Denatran, somente em 2016, foram 118 acidentes nas vias municipais em Irati, sendo que houve uma morte. Isso equivale a mais da metade dos acidentes registrados na região dos municípios da Amcespar, que totalizou 214 acidentes nas vias municipais em 2016.

Ao todo no Paraná, em 2016, foram mais de 28 mil acidentes em vias municipais, além de mais de 28 mil feridos e quase 400 mortes. Os dados preliminares contabilizam apenas os números passados pelos municípios.

Outros dados do Denatran ainda revelam o perfil dos motoristas que se envolveram em acidentes com vítimas. A maioria é do sexo masculino, são condutores habilitados, entre 30 a 59 anos. Já nas vítimas fatais é possível verificar que a incidência de vítimas do sexo masculino é quatro vezes maior do que o do sexo feminino.  A idade também chama atenção: a maioria das mortes foi de pessoas entre 18 a 29 anos. A maioria das vítimas fatais conduzia o veículo.

Famílias

O que os números não conseguem mostrar é como ficam as famílias que perderam entes queridos após graves acidentes. “São três famílias destruídas”, explica Fátima Krubniki Sposito. Ela é mãe de Luiza Maura Sposito que morreu aos 17 anos em um acidente em março deste ano. Junto com ela, morreram também Jiane Carla Campagnaro, de 19 anos, e Laleska Gaspar, de 16 anos.

O acidente aconteceu às 6h10min de domingo, do dia 19 de março, após o carro em que as adolescentes estavam bater em uma árvore no centro de Prudentópolis. O acidente aconteceu enquanto o condutor fugia de uma abordagem da Polícia Militar. Durante a perseguição, ele perdeu o controle do carro e bateu na árvore. O veículo era conduzido por Ruan Kevin Pelechat de Souza, de 20 anos. Além do condutor, o acidente também deixou com ferimentos graves Ivan Gonçalves de Oliveira, de 19 anos e Lucas Eduardo Pereira, de 18 anos.

O processo ainda está aberto e aguarda julgamento. Enquanto isso, as famílias das adolescentes tentam encontrar forças para superar a perda.

Fátima conta que o seu marido, Rubens Antonio Sposito, soube da notícia através do Facebook, depois de percorrer casas de amigas em que Luiza poderia estar. Eles haviam combinado um horário com Luiza para que ela voltasse para casa. Quando acordaram pela manhã e viram que a menina não estava em casa, Fátima pediu para que o marido a procurasse. Quando uma das amigas falou sobre um acidente no centro da cidade, Rubens foi direto para o hospital. “Ele chegou lá, ela já estava em coma”, conta Fátima.

Luiza ainda chegou a ficar internada um dia no hospital, mas não agüentou os ferimentos e morreu no dia 20 de março. Para Fátima, a perda da filha caçula é difícil de superar e fez com que a própria família mudasse sua rotina. “Até agora não conseguimos passar pela rua. Nunca mais eu passei lá. Esses dias falei para meu marido: ‘Nós vamos ter que passar’. Ele: ‘Mas agora ainda não’. Eu disse: ‘Mas vamos ter que passar, põe isso na tua cabeça, temos que enfrentar isso. O que vai mudar não passando na rua? Ela já se foi. A rua não tem culpa e a árvore também não tem’”, disse.

Ela conta que são os amigos e a família que têm os ajudado a superar a perda. O neto é o principal membro que tem auxiliado a preencher a vida do casal. “O principal pra nós é o nosso neto Gustavo que está no dia a dia com a gente. Daí as coisas mudam, como ontem [domingo] ele foi para a casa do pai, nós choramos o dia inteiro. Se ele estivesse aqui a gente não ia ter tempo para chorar”, disse.

Quem também tenta superar a dor da perda é Marilene Kurlhak, mãe de Laleska, uma das adolescentes que faleceu no mesmo acidente. Para ela tem sido ainda mais difícil, já que quando completava seis meses da morte da única filha, o seu marido, Éder Jorge Gaspar, morreu aos 52 anos em decorrência de um AVC que havia sofrido na semana anterior.

Ela conta que a morte de Laleska abalou o casal, sobretudo Éder que era hipertenso e também teve depressão profunda no segundo mês após a perda da filha. “Ele já tinha problema de pressão alta, já tomava remédio controlado, mas devido à perda da Laleska a pressão começou a alterar. Ele trabalhava e às vezes passava mal no serviço. Ele pensava muito nela. Ele passava mal, subia a pressão, ele tinha que sair do serviço. Ele não se concentrava no serviço. Pegava o carro e errava as ruas porque ficava pensando muito nela. Aí ele já começou a ficar em depressão no segundo mês”, disse.

Marilene tentou fazer com o marido procurasse ajuda médica, mas ele se recusou a tomar remédios. Ao mesmo tempo em que tentava ajudar o marido, ela também tentava se recuperar. “Para mim foi um choque, parece que não sou a mesma que eu era antes. A gente sofre. Não come direito, não dorme direito”, relata.

A perda recente do marido a abalou ainda mais, porque apesar da perda da filha ter sido dolorosa, ela conta que tinha no marido alguém em quem se apoiar, já que ele tinha a mesma dor. “Eu pensava: ‘Ainda bem que eu não estou sozinha, eu tenho ele e ele tem a mim’”, disse. No entanto com a morte dele ela cogita buscar apoio psicológico de um profissional, além da família. “Eu vou ter que continuar vivendo. Nunca vai apagar da minha memória, jamais. Ficou uma coisa muito marcante. Pense perder a filha e depois de seis meses já o pai da filha. Ficou só eu com essa dor. Minha família sabe dessa dor e estão me ajudando, mas pra mim vai ficar muito marcante”, relata.

O vazio que fica na família é sentido também por quem perdeu um familiar em um acidente antes mesmo de conhecê-lo. É o caso do radialista Paulo Henrique Sava, que perdeu pai em um acidente em Ponta Grossa há 34 anos. O acidente aconteceu porque o pai de Paulo, Severo Ambrosio Sava, de apenas 28 anos, enroscou a calça no freio do veículo, e acabou não vendo que um trem se aproximava. O trem colidiu com o veículo e arrastou-o por cem metros.

Na época, a mãe de Paulo, Neiva Mattos Sava, estava grávida de três meses. “Desde pequeno sempre soube dessa história. Ela nunca me escondeu. A única coisa que me escondeu e que eu achei uma vez foi uma matéria de jornal de Ponta Grossa, com a foto do acidente”, conta.

Paulo conta que os seus familiares tentaram suprir a falta do pai, especialmente a mãe que teve que atuar em dois papeis. “A minha mãe fez isso com maestria”, conta. “Talvez eu não tenha sentido tanto a falta do pai porque eu não convivi com ele. Mas eu sei que onde ele está, ele está intercedendo por mim”, relata.

Mesmo assim, com o passar do tempo ele começou a sentir um pouco de falta em momentos específicos. “Eu sinto um pouco da falta quando chega o Dia dos Pais, a gente vai sentindo”, disse.

Radialista na Rádio Najuá, Paulo Sava conta que ter a experiência de ter pedido um familiar em um acidente de trânsito também faz com que tenha uma maior empatia na cobertura desse tipo de notícia. “Eu confesso que é um pouco difícil, porque a gente se coloca no lado da família. A gente sabe que tem que dar as informações, mas a gente analisa primeiro”, relata. Um dos principais itens é saber se a família já sabe da notícia. “Primeiro a família precisa ser informada e não é por nós, imprensa, que isso vai ser feito. Não por nós porque ela tem que saber de uma maneira menos chocante”, comenta.

Redução

Fátima e Marilene contam que ainda esperam o julgamento do acidente que matou as suas filhas.  As duas contam que não querem vingança, mas sim justiça, e acreditam que o caso das adolescentes possa ajudar com que outros adolescentes se conscientizem. “A punição é um exemplo que a sociedade dá para que os jovens pensem antes de fazer as coisas que podem acontecer”, disse Fátima.

Já Paulo acredita que os acidentes podem diminuir com a conscientização das pessoas. “Acredito que se a conscientização consiga chegar naquilo que se propõe a fazer, que é a redução de velocidade, andar dentro do limite, obedecer a sinalização, e que a gente vê ainda muita coisa faltando na consciência dos motoristas, não só aqui nas nossas cidades, mas nas estradas e em todo o lugar a gente vê isso. Se a conscientização conseguisse chegar nesse ponto, acho que grande parte, senão resolvesse – que seria uma utopia – eu acho que reduziria bastante”, relata.

Fátima destaca também que para mudar esse cenário é preciso atitude da população. “As pessoas não querem se incomodar. É difícil querer mudar as coisas, é mais cômodo ficar: ‘eu não tenho nada com isso’. Esse é o problema do brasileiro: ele não tem nada com isso. Ele se choca, ele chora, ele é solidário, mas passou. Acabou. E não é assim. Se todos os pais e todas as mães pensassem que podia ser o filho deles que estava ali, eles iam brigar para que as coisas mudassem”, conta.

Texto: Karin Franco/Hoje Centro Sul

Fotos: Divulgação e Elio Kohut/Rádio Najuá

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