facebooktwitterinstagramgoogle+
Edição 1003 - Já nas bancas!
28/08/2017

Apae Rural promove a inclusão de pessoas com deficiência possibilitando o trabalho

A Semana Nacional da Pessoa com Deficiência Intelectual e Múltipla trouxe neste ano o tema "Pessoas com deficiência: direitos, necessidades e realizações".

Apae Rural promove a inclusão de pessoas com deficiência possibilitando o trabalho

A forma de incluir pessoas com deficiências na sociedade vem sendo debatida há vários anos. Legislações tentam garantir este direito, especialmente para que estas pessoas possam ter a chance de ingressar no mercado de trabalho.

A lei nº 8213/91 obriga as empresas com 100 ou mais funcionários a preencher de 2% a 5% dos seus cargos com beneficiários reabilitados ou pessoas portadoras de deficiência.

No entanto, para pessoas com deficiência moderada a severa a lei acaba não sendo suficiente para que este direito seja garantido.

Este é o caso dos alunos da Escola José Duda Júnior, Apae de Irati. Segundo a diretora Eliane Pires Filipaki falta ainda na sociedade a compreensão dos casos atendidos na escola. “A grande questão dos alunos das Apaes é o entendimento do nosso público alvo. O público alvo das Apaes são pessoas com deficiência intelectual moderada a severa. Isso já demonstra a dificuldade que essas pessoas têm. Não que seja impossível, a gente nem gosta dessa palavra, porque para nós tudo é possível. O que é importante ser esclarecido é que algumas empresas quando buscam alunos nossos vem com a exigência de pelo menos até a quarta-série do Ensino Fundamental. E as Apaes ofertam o ensino dos anos iniciais do Ensino Fundamental. Então eles não têm uma terminalidadeem nível educacional”, explica.

A diretora esclarece que já foram realizadas tentativas de inclusão no mercado de trabalho, entretanto, há dificuldade porque a sociedade ainda não está adaptada para receber a pessoa com deficiência moderada a severa. “Os nossos alunos, além das deficiências intelectuais, eles tem uma ingenuidade, eles são muito facilmente ludibriados. O que acontecia é que eram inseridos em algumas empresas, e no decorrer do tempo, por mais que houvesse o acompanhamento - eram feitos trabalhos de psicologia, inclusive para os funcionários, fazíamos reuniões antes de iniciar o trabalho, tentando uma conscientização - mas eles acabavam muitas vezes se tornando vítimas de algumas situações que aconteciam e era jogada a culpa nos nossos alunos”, esclarece.

O presidente da Apae de Irati, Fernando Ricardo I. Amaral, explica que antes de incluir é preciso adaptar-se para que isso ocorra da melhor forma possível. “Nós somos totalmente favoráveis à inclusão, desde que seja possível”, disse.

Apae Rural

Para suprir essa necessidade e garantir esse direito, a Apae de Irati encontrou nas unidades ocupacionais um modo de inseri-los no mercado de trabalho. Através delas, os alunos trabalham em oficinas monitoradas produzindo diversos produtos.“ As unidades ocupacionais hoje vêm suprindo essa lacuna porque eles podem permanecer durante toda a vida conosco”, disse a diretora.

Em Irati, as unidades ocupacionais ligadas ao Ensino de Jovens e Adultos (EJA) são trabalhadas na Apae Rural, localizada a cinco quilômetros da sede da Apae. Criada na década de 80, além das unidades ocupacionais, a Apae Rural também trabalha com atividades pedagógicas e atividades terapêuticas, em espaços como academia ao ar-livre, pista de caminhada e piscinas aquecidas.

Ao todo, são atendidos por dia 80 alunos. O local funciona em período integral, sendo que 14 alunos permanecem o dia todo na Apae Rural, onde também almoçam.

Atualmente, três unidades ocupacionais são trabalhadas: uma de jardinagem, uma de artesanato e outra de marcenaria. As unidades são autossuficientes e a renda arrecadada com a venda dos produtos é investida no aprimoramento das unidades ocupacionais. Foi através disso, que a Apae Rural conseguiu recursos para implantar irrigação computadorizada, comprar materiais e equipamentos para o artesanato, além de aprimorar o maquinário da marcenaria.

Jardinagem

O carro-chefe das unidades ocupacionais é a jardinagem. Nesta oficina, os alunos participam de todo o processo de semeadura, cuidado e plantio de flores e plantas ornamentais. “Eles fazem desde o preparo da terra até a semeadura, depois a repicagem, auxiliam na venda quando é para fazer as vendas na cidade. Eles vão com outro instrutor, tem o carro que eles vão levar”, explica a professora e instrutora de jardinagem Cléia Lucia Dlugosz.

São os próprios alunos que fazem toda a manutenção da jardinagem da Apae Rural, além de cultivar as flores e plantas nas estufas. Eles também ajudam no preparo das mudas que serão revendidas às floriculturas da região.

Um dos trabalhos dos alunos da Apae Rural pode ser conferido nas rotatórias de Irati. “Fechamos um contrato com a prefeitura municipal de Irati onde eles buscam na APAE as mudas para fazer a ornamentação das rotatórias e do Parque Aquático também”, explica a diretora Eliane.

Todo esse resultado é possível porque os lugares são adaptados às necessidades das pessoas com deficiência. Todas as unidades ocupacionais possuem pelo menos um instrutor que indica o que deverá ser feito. A coordenadora da Apae Rural, Ana Maria Strujak explica que eles poderiam entrar no mercado de trabalho se houvesse essa instrução. “Eles teriam condição de fazer um jardim em uma casa, só que teria que ter uma pessoa junto para dizer agora vamos cortar a grama, agora vamos podar a árvore. Sempre tem que ter alguém junto direcionando”, disse.

 

Marcenaria

O ter alguém junto, direcionando, é o que acontece na marcenaria, onde os alunos produzem diversos objetos de madeira. O instrutor Beto Alves explica que cada aluno faz aquilo em que melhor se adapta. “Quem gosta das máquinas vai para as máquinas, quem é mais agitado, a gente coloca para pregar, a gente vai classificando conforme o tipo do aluno. Adaptando. Cada um vai fazendo o seu dom”, explica.

A marcenaria produz diversos produtos que serão utilizados em outras unidades ocupacionais. É neste setor, por exemplo, que são produzidas as caixinhas em que são colocadas as flores que serão revendidas. Eles também produzem caixinhas em MDF e cabides que serão levados ao artesanato para receber a finalização.

Artesanato

No artesanato, os alunos usamdiversas técnicas. “A gente trabalha com tudo, desde pintura, decoupage, fuxico, sabonetes artesanais, sais de banho, água de lençol. Sempre a gente procura estar inovando. A cada época a gente procura colocar uma técnica de artesanato diferente”, explica a professora Alessandra Kaminski.

Os alunos trabalham através de encomendas. São feitas lembrancinhas de aniversário, casamento e nascimento, além de outros objetos de decoração. “Se você vê elas trabalhando, você vai ver que é fantástico. Elas são extremamente focadas, eu ensino a primeira vez, elas já sabem o que tem que fazer, já vão pegando o trabalho sozinha, cada material que precisa usar. Eu não imponho: ‘Hoje todo mundo vai pintar’. Não. Eu digo: ‘Temos uma caixinha, nós temos que lixar, temos que fazer sabonete, onde querem ir?’. Então cada uma escolhe o que quer fazer”, disse.

Nas unidades ocupacionais, os sorrisos são espalhados. Quando perguntados sobre o que gostam de fazer, os alunos do artesanato responderam diversas técnicas. Uma das alunas, Vanessa Linhares foi direta. “Não tem nada que a gente não gosta”, disse abrindo um largo sorriso.

Futuro

A estrutura da Apae Rural tem sido constantemente melhorada. Um dos projetos em andamento é o de fechar com vidro a parte onde estão as piscinas aquecidas. Nelas são feitas atividades terapêuticas e de lazer. No entanto, o espaço atualmente é aberto, o que impossibilita algumas atividades no período do inverno. “O projeto já está em andamento. Mesmo no verão nossos alunos precisam da água aquecida por causa da mobilidade. O frio também castiga”, explica o presidente.

Jantar Noite das Massas e programações

Marcando a Semana Nacional da Pessoa com Deficiência Intelectual e Múltipla, a Apae de Irati realizou diversas ações ao longo da semana como os 26º Jogos Recreativos Regionais, missa de Ação de Graças, Dia do Circo e Cinema na Escola.

A programação termina neste sábado (26) com o tradicional jantar “Noite de Massas”. Neste ano, o jantar também servirá de comemoração aos 50 anos da Apae de Irati.

Haverá, durante o evento, apresentação de dança contemporânea realizada pelos alunos da Apae.  A decoração também ficou a cargo deles, que ajudaram a fazer os enfeites de mesa, os sais de banho que serão distribuídos como lembrança e também as escadas que terão as letras de comemoração aos 50 anos. Todos os itens foram produzidos nas unidades ocupacionais.

Com animação da banda New York, o presidente Fernando conta que todos estão ansiosos para a realização da programação. “Estamos com grande expectativa”, disse.O jantar acontece no Centro de Eventos Italiano, às 20 horas.

Centro de Atendimento em Autismo

Neste ano, a Apae de Irati também passou a ter o Centro de Atendimento em Autismo, onde os alunos portadores de autismo passaram a ter atendimento educacional, de saúde e de reabilitação.

Atualmente, o Centro atende seis alunos que possuem acompanhamento individual pelos profissionais. “O nosso centro funciona de manhã e a tarde. Cada autista tem um professor individualizado. Temos uma turma que já conseguimos ter dois alunos sendo atendidos por um professor porque já ocorreu um processo de evolução”, disse a diretora.

Texto/ Fotos: Karin Franco/Hoje Centro Sul

Galeria de Fotos