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Edição 982
31/07/2017

Produtores rurais relatam os desafios do trabalho no campo e a satisfação em produzir alimentos para o consumidor

Produtores rurais relatam os desafios do trabalho no campo e a satisfação em produzir alimentos para o consumidor

Acordar antes de o sol nascer, tirar leite, capinar o mato, colocar os animais para pastarem ou ver a plantação, são afazeres de muitos agricultores. Na lavoura, a forma de trabalho é como um rodízio, quando termina uma safra, logo em seguida começa outra. E as decisões precisam ser tomadas antes de terminar a primeira.

Ricardo Malinoski, de 47 anos, é agricultor desde pequeno. Tem uma vida inteira dedicada à agricultura. Começou junto com o pai que também era agricultor, cuidando das plantações da família. Ele conta que muitas coisas melhoraram para os produtores.

“Eu comecei com um trator pequeno, junto com o meu pai, depois que fomos comprando tratores maiores foi melhorando. Antes era mais difícil, quando eu comecei. No tempo do meu pai então, nem se fala, ele trabalhou bem mais, era mais braçal o serviço. Hoje é muito mais fácil fazer agricultura. Com a tecnologia que existe para plantar e colher, e tem o maquinário específico para isso, tem uma estrutura para fazer. O mais difícil é vender”, conta. 

Ricardo faz o plantio de soja, milho, feijão e trigo em uma área de 100 alqueires, destes, 80 são destinados à soja, e 20 ao milho e ao feijão, em sistema de rodízio. Há três anos construiu uma leitaria para aumentar a renda mensal e não depender apenas das safras, pois as rentabilidades podem ser boas ou não. Para a retirada do leite, Ricardo conta com um funcionário, mas para a lavoura é apenas ele e a família, com o auxílio do maquinário.

Para ele, o trabalho no campo é bom, e não pretende sair do local que escolheu. “Lavoura é muito bom, mas não é tão fácil quanto parece. Eu sempre gostei. Meu pai incentivou a estudar, até estudei, fiz o segundo grau, mas eu sempre gostei muito da roça e nunca pensei em sair. Eu tenho duas filhas que casaram com agricultores, a minha esposa sempre foi da roça. Então o que a gente tem que buscar muito é informação, porque a evolução é muito rápida”, conclui.

Um dos maiores desafios na agricultura, de acordo com Ricardo, é o mercado. “O mercado é muito difícil, pode-se dizer. Hoje, apesar de ter muita informação, quando a gente vai vender uma mercadoria o mercado é muito especulativo. Tem um velho ditado que diz assim ‘nós sabemos produzir, mas não sabemos vender’, porque o mercado de tão especulativo que é, na hora que vai vender você não pega o melhor momento. É difícil acertar a hora que vai vender, tem que acertar uma média, para tentar fazer uma média e ter um bom preço em tudo. Mas é muito complicado. A compra de insumos é muito variada, porque quando o dólar está baixo é bom de comprar, mas também é muito difícil acertar o ponto certo da compra”, comenta.

Soja predomina na região

Dentre as culturas da Região Centro Sul, a maior produtividade nos nove municípios atendidos pelo Núcleo Regional da Secretária de Agricultura e Abastecimento do Paraná (SEAB) de Irati –  Irati, Mallet, Rio Azul, Rebouças, Inácio Martins, Fernandes Pinheiro, Teixeira Soares, Imbituva e Guamiranga –, ainda é a soja, que predomina em plantio e também em valor econômico.

Na última safra, de 2017, quase 56,6% da soja produzida na região já foi comercializada. O levantamento feito em 2016 pela Secretária da Agricultura e do Abastecimento – Departamento da Economia Rural  aponta que no ano passado, em Irati, o valor bruto ficou em mais de 95 milhões, seguido do feijão com 94 milhões.

No Brasil, a soja também tem grande importância. Outro levantamento feito pela Campanha Nacional de Abastecimento (Conab), em julho de 2017, indica que a colheita deste ano, finalizada nos principais estados produtores, atingiu 113,3 milhões de toneladas de produção, e se consolidou com 33,89 milhões de hectares em todo ao país. O Paraná é um dos maiores produtores de soja do país.

A engenheira agrônoma da SEAB de Irati, Adriana Baumel, explica que a cultura da soja é predominante para grandes, médios e pequenos produtores. Porém as produções maiores ficam com os grandes agricultores. Neste ano, aproximadamente 170 mil hectares foram destinados à soja nos nove municípios atendidos pela SEAB de Irati – no total, são 270mil hectares.

Ela também salienta que a cultura da soja é a que mais dá lucro ao agricultor e tem muito valor econômico, junto com o feijão, milho e tabaco. Além das culturas de inverno, como batata, cebola, e principalmente o trigo.

Tabaco é destaque nas pequenas propriedades

Os números do Núcleo Regional da Secretária de Agricultura e Abastecimento do Paraná (SEAB) de Irati apontam que a produção de tabaco é destaque nas pequenas propriedades rurais da região Centro Sul.   “O pequeno produtor na região trabalha mais com o tabaco, na agricultura familiar é predominante o fumo. É uma cultura de pequeno produtor. O feijão que era a cultura dos pequenos agora é dos grandes por causa da mecanização. Da nossa região o típico é a produção de fumo”, observa a engenheira agrônoma da SEAB Adriana Baumel.

De acordo com levantamento da SEAB o fumo tem um valor bruto de 72 milhões, em Irati.  Nos demais municípios do Centro Sul é o produto de maior destaque, principalmente pela característica agrícola regional, constituída, sobretudo, por pequenas propriedades. Na última safra, já foi comercializado 99% do que foi produzido nos nove municípios.

Segundo Adriana, o cultivo do tabaco é predominante para pequeno agricultor, porque exige muita mão de obra. Além do tabaco, ela destaca a produção de leite pelos agricultores familiares. As considerações referem-se à quantidade total, embora esses produtores também cultivem soja, milho, trigo, tenham criação de suínos, aves, e outros. Inclusive há aqueles que já começam a apostar na diversificação de culturas na propriedade.

Diversificação

O agricultor José Zavoiski Primo, trabalhou cultivando fumo por muitos anos, mas há quatro anos resolveu mudar o tipo de trabalho e começou a fazer o plantio de morangos. Ele explica que essa mudança ocorreu para diversificar a propriedade. “Eu vinha plantando fumo, e é chato e ruim trabalhar com fumo, também a gente não fica satisfeito, a gente está praticamente produzindo droga, uma coisa que não é para comer. De repente, tive a ideia de mudar para uma coisa que se tenha renda maior ou igual, que substitua o fumo. Então eu comecei a procurar outras comunidades, a Emater deu apoio, e fizemos visitas em outros municípios. E um dos lugares que visitei e vim com a ideia pronta para plantar morango foi a região de Araucária”, salienta.

José tem hoje seis estufas de morango, em uma área de 1.500m², onde há em torno de 18 mil pés de morangos plantados. Além disso, há também sete alqueires de soja, e ainda um de fumo, que pretende eliminar de vez da plantação. Outra forma de diversificação é a fabricação de pão caseiro, que sua mulher faz com um grupo de pessoas em casa.

Para ele, o mercado do morango está quase se igualando ao do fumo. “Plantar morango é rentável. O investimento é alto. Cada muda é um real. Então eu tenho em torno de 18 mil reais investidos em mudas. E tem mais o substrato, que é mais ou menos nesse valor. Então o investimento é alto, mas mesmo assim, eu produzindo em situações normais, não tendo o que atrapalhe é bem rentável, sim. O morango exige uma área menor, e com a quantidade que eu estou, consigo ter mais lucro do que com o fumo que trabalhava antes”, explica.

No levantamento feito Secretária da Agricultura e do Abastecimento – Departamento da Economia Rural o morango teve uma renda bruta em torno de 50 mil reais, em Irati. Ainda é um valor baixo comparado a ao pêssego, uva e melancia, por exemplo. Mas está cima de outras como a laranja, limão e jabuticaba.

No entanto, umas das melhorias na mudança do plantio é a melhora na qualidade de vida que José teve. “Quando eu plantava o fumo, levantar de manhã, saber que ia enfrentar um orvalho até o pescoço, ficar todo sujo e molhado, era um desanimo, você já vai dormir pensando: ‘Meu Deus amanhã vai ser fogo a coisa’. Mas com o morango já é diferente, você já vai deitar imaginando que vai colher o morango, vai vender e já tem o resultado na hora. Geralmente, nove horas os morangos já estão colocados nas bandejados para sair e vender. Eu, minha esposa,  meu pai e minha mãe fazemos isso. Para os meus pais é  uma satisfação colher os morangos. E é mais fácil de colher, o morango na altura que está é só pegar. Agora estou satisfeito com o que escolhi”, ressalta.

Próxima safra da soja

De acordo com a  engenheira agrônoma da SEAB de Irati, Adriana Baumel, a soja no Paraná tem uma restrição este ano, feita pela Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar). Ela não poderá ser plantada mais em janeiro, por causa de uma doença chamada Ferrugem, o inócuo desta doença fica na palhada da soja, que causa  por isso essa restrição no plantio. A plantação da soja este ano poderá ser feita a partir do dia 11 de setembro até o dia 31 de dezembro, o calendário é o mesmo do Ministério da Agricultura e da Adapar.

Texto: Jaqueline Lopes/Hoje Centro Sul

Foto: Jaqueline Lopes/Hoje Centro Sul e Divulgação

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