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Edição 1003 - Já nas bancas!
07/07/2017

“Depressão é uma morte em vida”

Conheça o relato de quem vive o dia a dia com doença , tentando vencer a si mesmo, e de quem já se recuperou e precisa cuidar da saúde mental para não voltar para a ter a depressão. Psiquiatra comenta o tratamento depende da mudança do estilo de vida

“Depressão é uma morte em vida”

 “Depressão é assim, como se você estivesse em um buraco e o buraco não tivesse fim, e quando você vê que está conseguindo sair dele, você cai de novo, sempre tem a recaída”. É o que relata Pâmela Vanessa Ferreira, diagnostica com depressão há um ano e, desde então, em tratamento.

Pâmela sofre com doenças psíquicas desde pequena. Tem ataque de pânico, distúrbio alimentar e há um ano sofre de depressão.  Ela não sabe o motivo que levou a depressão a desencadear-se. “Começou com uma sensação de tristeza, angústia, fracasso, tudo de ruim foi acumulando, sem ter um motivo aparente para desenvolver, apenas aconteceu, foi do nada, de repente. Quando eu me vi já estava internada”, comenta.

Ela ficou internada no hospital por 15 dias e diz que a vida mudou radicalmente. “Fiquei 15 dias internada, com 23 anos, veja a que ponto cheguei. A gente não escolhe. A  depressão não escolhe idade, não escolhe pessoa, não escolher cor, não escolhe nada, simplesmente chega e toma conta. Tua vida muda, fica de cabeça para baixo”, conta.

Pâmela mora com a mãe em Irati, que também já teve depressão. “Eu via pela minha mãe, o tanto que ela sofreu e sofre com isso. Ela tem crises de vez em quando, tenta disfarçar, mas eu percebo, porque é quase impossível não perceber quando a pessoa está em uma crise, é evidente. Chega uma hora que você não consegue mais esconder para os outros, todo mundo vê o que tá acontecendo”, observa.

A jovem enfatiza que é uma luta diária tentar sair da depressão e que não é um processo fácil. “É desse jeito que a gente tem que viver. Um dia de cada vez. Você não sabe como será o amanhã, se vai estar bem, se terá uma recaída ou não. Não dá para saber se vai rir ou chorar, mas acontece. A gente não consegue controlar a mudança de humor. Tem horas que eu estou alegre, mas do nada mudo, choro, e não tem motivo, não há um motivo específico para isso. A tristeza toma conta de você, te domina“, salienta.

Segundo o psiquiatra Lucas Batistela, a depressão é um distúrbio da mente, que atinge a autoestima, provoca tristeza, complexo de inferioridade, e principalmente o pessimismo. É uma doença 100% psicológica e precisa de tratamento e força de vontade para ser vencida.

“A vida ativa que a pessoa tinha, já não sentirá prazer em fazer aquilo, ou sair de casa. Vai querer se fechar no quarto. A tristeza, que é mais característica da depressão, é muitas vezes sem motivo, ou até a pessoa sabe, pode ser a morte de um familiar, uma perda, ou pode ser por fatores de estresse do dia a dia que foram somatizando e ela acaba ficando depressiva no final”, explica o psiquiatra.

De acordo com os dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), o Brasil é o país com maior número de casos de depressão na América Latina. 5,8% da população sofre com a doença, que afeta 11,5 milhões de brasileiros.  Ainda de acordo com a OMS, no mundo são 322 milhões de pessoas que possuem depressão. O número de casos cresceu 18,4% em 10 anos, de 2005 a 2015.

O psiquiatra explica que é preciso que a pessoa tenha força de vontade para sair da doença, e o ideal é buscar ajuda logo no início.  “O tratamento da depressão é basicamente a mudança de estilo de vida. Tem que sair de casa, praticar um esporte, socializar com as pessoas. Porque a pessoa com depressão quer se fechar, se jogar embaixo das cobertas, ficar ali escondido. Momentaneamente, parece que é a melhor coisa a fazer, mas a longo prazo só tende a piorar nesse sentido”, comenta.

Força de vontade e conhecimento sobre depressão foi o que fez a pedagoga Adriane Mayer a vencer a doença, que marcou sua vida por quase 15 anos. Primeiro, ela foi diagnosticada com estafa, porém, após 12 anos de tratamento, quando chegou ao hospital sem conseguir respirar descobriu que estava com depressão. “Os enfermeiros colocaram os aparelhos e o médico de plantão era um psiquiatra. Ele começou a conversar comigo. Conversamos por umas duas horas. E no final ele disse: ‘Eu vou te dar um remédio e daqui umas horinhas a gente conversa’. Mas os aparelhos mostravam que os batimentos e a respiração estavam normais. Então, eram os meus sentimentos que estavam me sufocando”, conta.

Para Adriane a depressão causou uma sensação que é difícil explicar. “Você perde a sua vida. Você se torna uma pessoa apática, não se determina, não estabelece metas, não cumpre as metas traçadas. É algo que foge do teu controle. É uma tristeza tão profunda, que você muitas vezes não consegue perceber. Você não consegue se arrumar, não tem vontade de levantar da cama, é uma sensação e vazio, uma sensação de perda. É quase inexplicável”, observa.

Após o diagnóstico, Adriane tratou a depressão com remédios e terapia, e depois de um ano e meio parou o medicamento por conta, pois achava que estava melhor, porém teve uma recaída e precisou tratar por mais dois anos. Agora conta que faz quatro anos que está bem, mas continua cuidando da saúde mental. “Voltei a ser eu mesma há três, quatro anos. Se estou muito estressada, procuro algo para desestressar, diminuo o ritmo. Eu me cuido, porque eu sei que pode voltar”, comenta.

Adriane atribui a cura à vontade que teve de vencer, e principalmente à fé. ”Eu atribuo a minha cura à minha fé, o bom tratamento médico e à minha força de vontade. Tem que ter otimismo, fé, controlar as emoções, uma postura positiva. O negativismo faz permanecer na depressão. Tem que ter domínio sobre as suas ações, porque pode retornar com a negatividade, e a pessoa sofre muito. É uma morte em vida”, salienta.

Atualmente, Adriane vive uma vida normal e no trabalho na escola, como já teve a doença, acredita que é mais fácil ajudar as crianças que têm depressão. “Fica mais fácil de atender, porque tem gente que rejeita, acha que é frescura. Eu nunca achei que fosse frescura, eu não conseguia entender o processo. Sem passar ninguém entende, porque é muito complexo. Hoje, é mais fácil de atender o adolescente ou criança com depressão porque eu já tive. Você sabe tratar melhor. Hoje tenho mais respaldo, porque eu entendo como elas estão, quais os efeitos colaterais de medicamentos. Até o organismo se acostumar, não é fácil”, afirma.

Tratamento para depressão

O psiquiatra Lucas Batistela ressalta que a primeira medida a ser tomada é procurar ajuda, para saber o tratamento mais indicado. É o médico que avaliará se a pessoa precisa de remédio ou apenas exercícios e contato social a farão voltar à vida normal. Mas, o mais importante é a pessoa sair de casa.

“Surgiu uma oportunidade de sair, vai. Vai chorando, mas vai. Porque quando você chegar lá, quando você voltar para casa se sentirá melhor. Ficar só dentro de casa, vendo aquela mesma parede sem fazer nada é, como dizem, “mente vazia, oficina do diabo”, só vai pensar coisa ruim”, afirma o psiquiatra.  Ele ressalta que, nesses momentos, o depressivo vai  lembrar-se de alguma coisa que o deixou triste, de um momento que o deixou angustiado, o que pode provocar tristeza e até mesmo pensamentos suicidas.

“O primordial é não ficar parado, não desanimar. Trabalhar a mente”, explica Batistela, sugerindo que, mesmo sem vontade, as pessoas saiam de casa, interajam, façam coisas diferentes.

O médico enfatiza que os remédios não funcionam como cura para a depressão, e que somente uma mudança psíquica faz com que a pessoa deixe de ter a doença. “Os remédios não curam a depressão, ninguém vai sair da depressão tomando remédio. Eles são nada mais que remédios sintomáticos. A princípio vão te deixar mais contente, dar mais disposição ou mais ânimo para sair de casa. Mas se você não partir para uma mudança de vida. Sem uma vida ativa, não irá resolver”, ressalta.

Depressão pode levar ao suicídio

Quando uma pessoa pensa em suicídio, algo em sua mente não está bem. Segundo o psiquiatra Lucas Batistela, a depressão pode levar ao suicídio, mas é somente quando a doença atinge níveis muito graves que a pessoa pode colocar um ponto final na própria vida.

“Há aquela pessoa que pensa, mas entende que não é o certo. Há aquele que prepara tudo, chega até a se machucar, mas acaba não fazendo. E tem aquele que faz. Tudo varia de acordo com o que aconteceu com a pessoa no dia, no momento, ou últimos dias. Geralmente, nos níveis mais graves de depressão, pode se dizer que é o fim. A pessoa depressiva tende a ser muito negativa, muito pessimista. Então, tudo não vai dar certo, não vou conseguir, vou me matar, e aí é essa que acaba fazendo”, comenta o especialista.

De acordo com a 8ª Companhia Independente da Polícia Militar (CIPM), nos municípios atendidos – Irati, Rio Azul, Rebouças, Inácio Martins, Teixeira Soares, Imbituva, Fernandes Pinheiro, Ipiranga, Ivaí e Guamiranga –, foram registrados cinco casos de suicídio no primeiro semestre deste ano,  sendo dois em Irati. 

Texto/Fotos: Jaqueline Lopes/Hoje Centro Sul

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