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Edição 1003 - Já nas bancas!
30/06/2017

Sírio foge da guerra e reconstrói sua vida em Imbituva

Conheça a história de superação do sírio Eduardo Salloum,que reconstruiu a sua vida no Brasil após fugir da Síria em 2014 por causa da guerra. Ele conseguiu trazer sua família para o país e agora busca retomar as rédeas de sua vida

Sírio foge da guerra e reconstrói sua vida em Imbituva

Quando a equipe de reportagem chegou a uma casa amarela no município de Imbituva, diversas pessoas saíram para ver quem era. Olhar curioso e hospitalidade. Entretanto o idioma diferente e o desconhecimento do português fizeram com que uma barreira nascesse entre a equipe de reportagem e os moradores. A barreira só foi quebrada com a chegada de Eduardo Salloum, um sírio que está no Brasil há três anos e que tenta reconstruir a sua vida na região depois de escapar da guerra. Há pouco tempo, cerca de três meses, ele conseguiu trazer os últimos parentes de primeiro grau que ainda viviam na Síria. Todos ainda vivem na mesma casa, sem saber o português. Os únicos que sabem o idioma é ele e sua esposa.

 “Eu não gosto do conceito de refugiado”. A frase dita por Eduardo Salloum representa o pensamento dessas pessoas que tentam recomeçar de forma digna em outro país completamente diferente. Vindos de outras culturas, eles tentam se adaptar à nova realidade e reorganizar suas vidas. Eles não procuram por uma simples ajuda, mas por meios para que possam recomeçar.

Contudo, a nova realidade traz obstáculos exatamente por não conhecer o idioma e a cultura. Eduardo conta que antes de sair da Síria nunca pensou em morar no Brasil e nem ao menos sabia um pouco do idioma. “A gente escolheu o Brasil porque está mais seguro o caminho”, relata.

Chegada

Eduardo e sua esposa chegaram ao Brasil em 2014, através da ajuda de um programa de uma igreja. A irmã de Eduardo já morava no Espírito Santo há três meses, quando ele aterrissou em terras brasileiras. “Minha irmã falou com o pastor da igreja Presbiteriana e a igreja ajudou a gente para se adaptar, para aos poucos começar o caminho. Depois começamos a trabalhar, ter a vida atual, e começamos reconstruir a vida, na verdade, recosturar porque foi rasgada por causa da guerra”, conta.

Foi a igreja que o ajudou a encontrar um trabalho em Imbituva e assim ele veio para região. Contudo, o desconhecimento da língua portuguesa fez com que ele repetisse a mesma trajetória de outros sírios no país: trabalhar em profissões completamente diferentes da sua profissão original. Na Síria, Eduardo é formado em Aviação Civil e trabalhou na sua área. Já no Brasil, o primeiro emprego foi em uma madeireira. “Eles tentaram achar um trabalho para mim. Até consegui um emprego numa empresa de madeira. E trabalhei 15 dias e não aguentei mais. Foi muito puxado. Não consegui mais levantar madeira, a gente não tem o costume”, disse. Como este emprego não deu certo, ele conseguiu outro trabalho de segurança em que atuou por alguns meses.

O conhecimento em quatro línguas – inglês, francês, árabe e sírio (aramaico) – não ajudou Eduardo a conseguir um emprego com uma maior remuneração. “Naquela época a gente sabia que não tem como trabalhar em outra profissão porque eu não falo português. É preciso falar para você trabalhar”, detalha. “Naquela época tinha todos os idiomas que não precisa falar no Brasil. Falava menos o português. Naquela época, ainda não falava espanhol. Espanhol, aprendi aqui no Brasil. Falava somente quatro idiomas. Mas nenhum idioma era falado aqui. Então vai para o lixo”, relata.O conhecimento fluente do português veio com o tempo e na medida em que repetia as palavras em que ouvia. “A gente aprendeu sem nada de estudo, a gente aprendeu copiando o que os outros estavam falando”, disse.

A oportunidade de trabalho veio somente quando uma empresa grande de Imbituva abriu uma vaga de vendedor, voltada para o mercado internacional, para exportação. “Naquele momento foi a mudança da vida da gente. Não estou falando da parte financeira porque o salário não é tão alto, ele é melhor que madeira. Mas é bom porque é um trabalho mais seguro”, disse. Com o tempo foi promovido a gerente de marketing e hoje não pensa em voltar para a antiga profissão. “Eu gosto bastante, é muito bacana, é uma área que entendo bem”, disse.

Mudança

Uma das dificuldades para os estrangeiros é a adaptação. Eduardo Salloum conta que a situação atual é completamente diferente do que a vivida na Síria, antes de iniciar a guerra. “Se transformou de ponta cabeça porque a gente morava em uma cidade com 5 milhões de habitantes, em Damasco, na capital. Aqui são 30 mil habitantes. A gente tinha bastante amigos, aqui a gente tem mais conhecidos, amigos real a gente não tem.Lá a gente tinha a casa da gente, aqui é alugada. Lá a gente tinha carro, aqui agora eu tenho carro, mas antes não tinha. Tem muitas diferenças”, conta.

Felizmente, Eduardo conta que não teve perdas pessoais, somente perdas financeiras e materiais. Essa é uma das partes mais difíceis, porque os sírios que se encontram no Brasil precisam começar do zero. A dificuldade atinge até os que tinham alguma poupança, que acaba por se perder na tentativa de fugir do país ou desvaloriza com o tempo por causa dos conflitos que estão cada vez mais tensos. “O mais difícil é perder dinheiro porque a nossa moeda caiu uns 400%. Então imagine a questão financeira da gente”, conta.

Um relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI) mostrou no ano passado que a guerra afetou metade da economia da Síria, sendo que o Produto Interno Bruto (PIB) caiu 57% desde 2011. O relatório ainda mostra que a inflação está acima dos 50% em diversas áreas, especialmente na comida. Um dos resultados da economia da síria é visto na cotação: no início da semana cada 1 real valia 156,52 libras sírias e a cada um dólar, são 516,23 libras sírias.

Na prática, esses números deixam a fuga cada vez mais difícil. “A gente não demorou bastante porque saí em 2014 da Síria, a questão financeira não estava tão forte, como agora. Quem sai agora é mais difícil porque a cada ano, cai mais”, relata Eduardo. Ele conta que para sair do país tentou arrumar empregos diferentes. “Todo mundo enfrentou isso. Esse é um negócio que ficou na frente de todo mundo. Você precisa enfrentar isso. A gente começou um trabalho como personal trainer, vender suplementos, comecei fazer muitas coisas para poder sobreviver. Para poder melhorar a situação financeira”, conta.

Eduardo conta que a maioria dos sírios que ainda está no país está tentando encontrar maneiras de sobreviver. No entanto, engana-se quem pensa que o país está todo destruído. Eduardo conta que as destruições atingiram algumas partes do país. “São casos pontuais. Por exemplo, como Alepo, uma cidade ao Norte da Síria, foi destruída mais ou menos uns 80%. Tem outras cidades no Sul do país que não mexeu nada. Depende onde o Estado Islâmico está mexendo. O que foi destruído totalmente é uns 40% do país, parcialmente uns 30%, os outros 30% são as cidades maiores, como Damasco. Uma cidade que não destruiu. Tem alguns pontos, mas não são todos. Damasco agora a vida é normal. Se você vai lá, você vai almoçar em restaurante. Porque Damasco é famosa por isso. Tem muita vida noturna. Mas agora é mais forte, porque todo mundo pensa assim: ‘De repente amanhã eu posso morrer. Vamos aproveitar a vida’”, disse.

Diferenças

Aos que conseguem escapar dessa realidade, as diferenças culturais causam dificuldades. “Demora criar os laços porque é difícil você entrar na cultura brasileira, ou a cultura de qualquer país, não só a brasileira. Eu entendo sua cultura, não é tão longe para mim. Mas, por exemplo, você está conversando com sua amiga, e você está conversando com ela sobre um negocinho, sobre um ator ou cara que eu não conheço. Você começa a dar risada, mas eu nãoconheço isso. Eu entendo o idioma que você está falando 100%, mas a história eu não estava presente. A gente foi criado em outro lugar”, relata Eduardo.

O Governo Brasileiro tem ajudado na documentação, mas Eduardo comenta que ainda é necessária uma preparação maior das entidades apoiadoras, seja na ajuda para lidar com a burocracia brasileira ou na disponibilização de auxílio na aprendizagem da língua fora dos grandes centros. “Para a língua tem ajuda, mas só nas cidades grandes. Nas cidades pequenas não tem”, disse. “Eu sei que é difícil implantar em cada cidade brasileira uma base para ajudar na língua. Eu sei que é difícil, porque tem bastantes cidades, mas pode, por exemplo, ser uma base que une uma região. Mas como Paraná, só tem Curitiba”, explica.

A burocracia também impede uma revalidação rápida dos certificados de estudos e consequentemente a possibilidade de conseguir um emprego em sua área de especialidade. Eduardo conta que já conseguiu revalidar seu diploma de Aviação Civil, mas sua esposa, que é advogada ainda busca pela revalidação do diploma. A falta de informação sobre os processos é um dos entraves. “Chega à faculdade e pergunta o que pode fazer para validar o certificado, e o cara não sabe. Por exemplo, eu ouvi falar de uma universidade aqui, que estão aceitando os casos dos sírios. Chega lá e o funcionário não sabe te ajudar, não tem um programa certo”, relata.

Mesmo com as diferenças e as dificuldades, Eduardo conta que está reconstruindo a vida. Recentemente abriu uma empresa de consultoria de marketing e publicidade, além de dar aulas particulares de inglês e francês nas horas vagas. Tudo isso, paralelamente ao trabalho como gerente de marketing em Imbituva.

Atualmente, ele vive em Imbituva com sua esposa, sua cunhada, pais e sogros.  Sua irmã se mudou com o seu cunhado para a cidade e agora todos vivem no mesmo local. Entretanto, o pensamento continua na Síria, com a esperança que o país possa ter um futuro diferente. “Claro que minha esperança é voltar. Mas o que vai acontecer eu não sei. Mas é só esperança”, disse.

Guerra na Síria

A Guerra na Síria tem sua origem em 2011, quando jovens inspirados na Primavera Árabe começaram a protestar contra o Governo de Bashar al-Assad que havia assumido o lugar de seu pai, Hafez, em 2010. Antes do conflito, havia críticas ao alto desemprego, corrupção no Governo Sírio, além de forte repressão.

O Governo Sírio tentou combater os protestos realizados pelos ativistas e esse enfrentamento aumentou ainda mais as tensões dos manifestantes que eram contra Bashar al-Assad. A cada tentativa maior para impedir os protestos, mais protestos aconteciam.

A violência do conflito entre governo e grupos antigoverno (chamado de rebeldes) aumentou com o tempo e chegou à capital do país em 2012. Desde então, grupos rebeldes e outros grupos contrários ao Governo Sírio têm surgido e o combate do Governo contra esses grupos tem ficado cada vez mais violento. Junto a isso, outros grupos, como Estado Islâmico, também têm entrado no conflito, deixando a guerra ainda mais violenta.

A Guerra na Síria fez com que surgisse uma das maiores crises humanitárias do mundo. A ONU estima que até 2016, mais de 5 milhões de sírios fugiram do país. Cerca de 10% pedem asilo em países da Europa. Já o Brasil tem quase 9 mil sírios, segundo a ONU. Estima-se que mais 400 mil pessoas morreram em razão dos conflitos.

Texto/Foto: Karin Franco/Hoje Centro Sul