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Edição 1003 - Já nas bancas!
14/05/2017

DIA DAS MÃES Dificuldades na maternidade ainda são tabu

DIA DAS MÃES Dificuldades na maternidade ainda são tabu

 

O papel de mãe ao longo do tempo tem sido retratado com de uma figura perfeita, pronta para qualquer situação logo que ocorre a gravidez e a chegada do filho. No entanto, nem sempre é assim e experiências durante a gravidez ou após o nascimento do bebê – como a depressão pós-parto, que é mais comum do que se imagina –, podem fazer com que mulheres vivenciem momentos difíceis.

Juliana Silva* é um exemplo de como a maternidade pode ser vivenciada de forma diferente da que é socialmente aceita como ideal. Após ter sua filha, ela se deparou com dificuldades da nova realidade e, simultaneamente teve depressão pós-parto. “Acredito que falar sobre a realidade da maternidade ainda é um grande tabu. Não se pode falar sobre as dificuldades que se está passando no pós-parto, porque todos irão julgá-la. Você será mal interpretada. As pessoas esperam ver a nova mãe sempre feliz”, disse.

Com isso, muitas mulheres enfrentam preconceitos quando tentam expor essas experiências negativas. Para Juliana, é necessário falar mais abertamente sobre o assunto. “Para superar a questão do preconceito, é necessário falar abertamente sobre este assunto, afinal muitas pessoas não acreditam na existência da depressão pós-parto, mesmo que os sintomas sejam severos e reais. É preciso deixar claro a existência, a gravidade da doença e o alto índice de mulheres afetadas por ela. Quanto a superar a depressão pós-parto, é necessário buscar ajuda médica e psicológica. Também é fundamental o apoio da família”, conta.

A psicóloga, professora do Departamento de Psicologia da Unicentro na área de Psicoterapia Infantil, mãe e gestante, Ana Priscila Batista, relata que muitas mulheres não conseguem falar abertamente sobre o assunto. “Mulheres que passaram por dificuldades durante a gravidez ou no período pós-parto podem ou não conseguir falar abertamente sobre o assunto, o que depende de uma série de fatores como, por exemplo, o apoio do companheiro (quando tem), a qualidade das relações familiares, as concepções, crenças e valores sobre o “ser mãe” presentes na cultura em que está inserida. Quando as mães não conseguem falar e/ou são criticadas pelas dificuldades que apresentam durante esses períodos, podem apresentar um maior sofrimento e ter mais problemas ainda para lidar com toda a situação”, disse.

A psicóloga destaca que essa abertura para falar é necessária. “No puerpério, é comum a mãe apresentar alterações de humor, tristeza, maior sensibilidade e medo de não dar conta dos cuidados com o bebê. Entretanto, quando isso se intensifica e se prolonga, somado a uma tristeza persistente, sentimentos de culpa, temor de machucar o bebê, dentre outros, pode-se considerar um quadro de depressão pós-parto. É muito importante que as pessoas estejam atentas a isso”, afirma a profissional.

Ela explica que poder expressar e falar sobre o que se sente e se pensa é fundamental para que as pessoas ao redor possam ajudar nesse momento. “Essa ajuda pode se dar com a demonstração de empatia, não-julgamento, auxiliando nos afazeres domésticos e com outros filhos para que a mãe possa se dedicar ao bebê e aos seus próprios cuidados. A ajuda do companheiro e/ou da família é fundamental. É preciso cuidar da mãe para que o bebê fique bem. Quando necessário, é importante buscar ajuda e suporte de um profissional, seja obstetra, psiquiatra ou psicólogo”, relata.

A psicóloga destaca que a mulher atual possui diversos outros papéis, além do ser mãe. Soma-se a isso, o fato de que mulheres atualmente trabalham fora de casa e acumulam tarefas domésticas, que ainda não são dividas igualitariamente com os homens. “Como, então, diante de tantas demandas, poderia se pensar o papel de mãe? Primeiramente, devemos lembrar que mãe é um ser humano, sujeito a acertos e erros. Acredito que, dentro das condições que cada uma vivencia, as mães tentam fazer o melhor que podem, da melhor forma possível. E assim deveriam ser encaradas: sem julgamentos e com mais compreensão”, aconselha.

Para Juliana, é necessário que antes de ser mãe, a mulher esteja consciente de que esta é uma decisão sua e não da sociedade. “Querer ser mãe precisa partir de você mesma. Não permita que a pressão vinda de terceiros, inclusive da própria sociedade, influencie na sua decisão.Muitas vezes parece mesmo impossível alcançar equilíbrio sobre todos estes aspectos da nossa vida. Em alguns momentos não será possível abraçar tudo ao mesmo tempo. Às vezes, teremos que priorizar uma coisa e deixar outra de lado, como por exemplo, quando nossos filhos estão doentes”, conta.

Entretanto, ela acredita que, com planejamento, na maior parte do tempo é possível conciliar e desempenhar bem tanto o papel de mãe como de profissional.  “Quando tudo está bem [o filho não está doente], é possível, com alguma organização e planejamento, dedicar-se ao seu lado profissional e pessoal. A culpa é algo natural que sentimos quando precisamos conciliar todos estes aspectos da nossa rotina, afinal nem sempre é possível dar atenção a tudo como gostaríamos. Porém, precisamos lembrar que procuramos fazer sempre o nosso melhor. Isso nos ajuda a nos sentirmos menos culpadas”, disse.

 

Texto: Letícia Torres e Karin Franco

Foto: Divulgação/Ana Priscila Batista

 “No puerpério, é comum a mãe apresentar alterações de humor, tristeza, maior sensibilidade e medo de não dar conta dos cuidados com o bebê. Entretanto, quando isso se intensifica e se prolonga, somado a uma tristeza persistente, sentimentos de culpa, temor de machucar o bebê, dentre outros, pode-se considerar um quadro de depressão pós-parto”, explica a psicóloga Ana Priscila

 

*O nome é fictício para preservar a identidade da mãe