facebooktwitterinstagramgoogle+
Edição 1003 - Já nas bancas!
13/04/2017

Vizinhos ajudam a construir casa para morador da Vila Matilde

José Francisco Miranda, de 60 anos, mais conhecido como Bigode, vive em uma casa de madeira precária e sem banheiro. Situação chamou atenção de vizinhos que se mobilizaram e estão construindo uma nova casa

Vizinhos ajudam a construir casa para morador da Vila Matilde

A história que vamos contar é mais do que sobre generosidade. É sobre olhar para o outro e enxergar a necessidade do próximo. É sobre estender a mão e não esperar algo em troca. É sobre ter amizade.

A história de Reni Terlesqui e José Francisco Miranda – conhecido como Bigode – inicia há mais de dez anos, na Vila Matilde em Irati, quando as crianças do bairro mexiam com e ele, por sua vez, também mexia com elas. Um dia, Bigode acabou mexendo com uma moça. Os rapazes que a conheciam não gostaram do fato e bateram em Bigode. A briga resultou em diversos machucados pelo corpo e que prejudicaram a visão dele.

O episódio tocou o coração de Reni, que se lembra do fato até hoje. No entanto, sua vida se cruzaria com Bigode apenas anos mais tarde. Sabendo que Bigode vivia de bicos, fazendo serviços gerais, Reni decidiu um dia chamá-lo para ajudá-la a carregar lenha. “Eu estava ali, tinha um barzinho ali, e um dia ela falou assim: ‘Não quer me ajudar a puxar lenha?’. Eu disse: ‘mas vou ajudar’”, conta Bigode. “Nós fomos puxar lenha na faculdade, que eles deram pra mim lenha, e daí eu não tinha quem me ajudasse, aí eu pensei eu vou ajudar ele e ele me ajuda. Ai fui lá e pedi para ele, até eu queria naquele tempo pagar vintão, ele não quis. Ele quis só dezão. Mas aí eu disse: ‘O senhor puxou bastante, trabalhou’”, relata Reni.

Desde então, ela tem o ajudado com sua saúde. Toda vez que é necessário ir ao posto de saúde ou fazer algum exame é Reni que oleva. Ela também tem corrido atrás dos direitos dele, indo até a Secretaria de Assistência Social para falar sobre sua situação e indo na Farmácia do município para conseguir os remédios, que muitas vezes estão em falta. Quando Bigode quebrou um braço, foi a família da nora de Reni que se reuniu para pagar hospital e remédio. Agora, ela tem se preocupado ainda mais com a saúde de Bigode, já que as pernas dele estão inchadas e um machucado na perna esquerda surgiu sem nenhuma razão. A suspeita é que um bicho o tenha mordido.

A condição de vida de Bigode também chamou a atenção de Reni. Bigode vivehá 11 anos numa casa de madeira precária que possui três repartições. O acesso é difícil, onde uma escada improvisada com tijolos e madeiras possibilita entrar na casaescura e úmida.  Bigode reúne no local todos os objetos que ele tem recolhido e ganhado ao longo dos anos. Na entrada, uma pequena cozinha improvisada tem um armário, um fogão e uma geladeira, além de um pequeno rádio. No segundo cômodo, diversas roupas amontoadas se confundem com duas televisões que Bigode faz questão de mostrar. O terceiro cômodo é o local mais escuro e onde ele dorme. A cama é formada por uma pilha de colchões usados.

O local não tem banheiro, o que obriga Bigode a fazer suas necessidades fora da casa. Indagado sobre todos esses anos sem um banheiro, ele diz sem jeito que não necessita. Imediatamente ele corta a conversa para um dos orgulhos do seu terreno: suas plantas. As plantas são o local de escape de Bigode, seja nos tópicos da conversa que ele não se sente confortável ou até mesmo na própria vida difícil que tem levado. Ali nas plantas que cultiva ele encontra a sua paz. São diversas árvores frutíferas, como abacateiro e limoeiro, além de ervas que servem tanto para a comida como o remédio. Tudo o que sobra é doado aos vizinhos.

A generosidade em meio a dificuldade chamou a atenção de Reni que encabeçou um projeto de construir uma nova casa para Bigode. “Eu comecei a sonhar sozinha. ‘Meu Deus como que pode ajudar essa vida?’. Porque a gente também tem necessidade. Se a gente tivesse recurso a gente ajudava com tudo e não pedia para ninguém”, conta.

Ela começou a conversar com os vizinhos procurando alguma forma de ajudar. Mas foi numa conversa com o seu filho,Ângelo Marcos dos Santos, que a ideia de construir uma casa finalmente veio. “Um dia sentada tomando chimarrão com ele, eu disse: ‘Ângelo, eu estou preocupada com a vida do vizinho ali’. Porque eu já sabia que desde 2015 tinha um protocolo na prefeitura”, relata. O protocolo era para o encaminhamento de José Francisco para um cadastro habitacional para conseguir uma casa popular, que nunca veio.

Vendo a demora, Reni conversou com seu filho que a aconselhou a pedir ajuda na assistência social do município. Ele preparou uma lista de itens que seriam necessários para a construção da casa e com esta lista ela começou a procurar formas de adquirir o material. “Meu filho se movimentou e já pediu na igreja Assembleia, eles doaram. Já tem tijolo que eles doaram, tem mais um irmão que já doou 100 reais. A prefeitura também, desde que fomos lá, desde o dia 23 de fevereiro, liberou mais de 3 mil reais em material, tudo bruto”, disse Reni.

É seu filho, Ângelo, quem está realizando a construção da casa que terá uma sala, uma cozinha, um banheiro e um quarto, além de uma pequena área na frente. A construção tem sido feita desde fevereiro e até o momento, foi construída a base para a casa. Eles também têm recebido doações da igreja Assembleia de Deus e de vizinhos que doam cimento e madeiras. “Muita gente se preocupou com ele, já deram chuveiro, deram bastante coisa”, conta Reni.

Entre os itens que ainda faltam estão o forro e o assoalho. Eles também já receberam doação da fiação elétrica, mas procuram agora alguém para ajudar na instalação elétrica depois que a casa estiver pronta. Apesar de já ter recebido alguns móveis, eles também procuram mais itens que possam ajudar no dia a dia de Bigode. “Como ele é sozinho ou alguém doa um tanquinho de lavar roupa, que ele gosta de lavar ele sozinho, ou doa um tanque de lava roupa ou uma esfregadeira”, relata Reni. Outro item que também falta da lista é a cerâmica para o banheiro que deverá ser construído.

Para Reni, a ação é só uma demonstração natural de que é possível que o ser humano realize muitas coisas boas e de forma conjunta. “É união. Quem ama o próximo se dedica. Não vai pensar em si mesmo, não vai pensar em ser egoísta. Todos nós temos um sonho. Esse é o sonho dele. Mas se nós não sonharmosjuntos, não se realiza, porque, como se diz, uma andorinha não faz sozinha o verão”, disse. “É esperança e é o amor ao próximo. A gente sabe que se a gente se preocupa em fazer o bem, a gente recebe o bem, a gente tem coisa boa dentro da gente”.

Mas se para Reni, o ato é uma demonstração do que é ser humano, para Bigode, o ato é como se tivesse ganhado mais um familiar. Bigode conta que possui mais outros dois irmãos, sendo que o irmão que o ajuda, não tem conseguido fazer muito por causa da sua saúde. Brigado com a única filha, após uma desavença familiar, Bigode encontrou em Reni alguém para chamar de irmã. “Eu penso que tenho uma irmã que nunca tive na minha vida, uma irmã de sangue, mesmo”, conta.

Quer ajudar?

Você pode ajudar com doações de material de construção que ainda faltam, principalmente, para o assoalho e o forro. Se não tiver condições para doar material, a ajuda pode vir com a mão de obra, como por exemplo, na ajuda da instalação elétrica ou na construção da casa.

Para mais informações de como ajudar você pode entrar em contato com Reni no telefone (42) 99965-5168 ou com Ângelo pelo telefone (42) 99811-6924.

Texto/Fotos: Karin Franco/Hoje Centro Sul

Galeria de Fotos