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Edição 946 - Já nas bancas!
13/03/2017

Vínculos com a família ajudam na recuperação de bebês na UTI Neonatal da Santa Casa de Irati

Acesso livre dos pais permite vínculo maior com bebês e recuperação mais rápida. Conheça a história de duas mães que acompanham seus pequenos na UTI Neonatal

Vínculos com a família ajudam na recuperação de bebês na UTI Neonatal da Santa Casa de Irati

Toda terça-feira pela manhã um círculo de cadeiras é formado em meio à sala que abriga a UTI Neonatal da Santa Casa de Irati. Nas cadeiras estão sentados pais, mães e a equipe multidisciplinar. O grupo se reúne para discutir os casos dos 10 bebês internados nesta ala. São bebês, em sua maior parte, prematuros e que precisam de cuidados especiais antes de sair da maternidade ir para a casa.

Na sala rodeada pelos leitos onde estão os bebês, os olhares atentos dos pais prestam atenção às orientações dadas pela chefe da UTI e responsável técnica Márcia Cristina Marins Martins. Após a orientação sobre a importância da higienização e da amamentação para os bebês, os casos específicos começam a ser discutidos juntamente com os pais. A equipe dá seu parecer sobre a evolução de cada caso. Há casos preocupantes e delicados, mas cada vitória é comemorada em conjunto, seja a possibilidade de isenção de pedágio, que permite com que um pai e uma mãe que vivem no interior de Irati possam visitar o bebê internado com mais frequência, ou os bebês que já estão conseguindo mamar através do peito, e não mais por uma sonda.

Um dos casos comemorados é o de João Ricardo que passou um dia na UTI e estava recebendo alta no dia 07 de março. A ansiedade de levar o primeiro filho para casa era visível no rosto da mãe Luana Gaspar de Andrade, de 19 anos, moradora de Guamiranga. Mas a ansiedade não era apenas da nova mãe, mas também de toda a família. “A minha família tá ansiosa. Cada passo ligando que dia que eu vou”, disse.

Nascido de cesárea com 39 semanas, João Ricardo teve que ir para a UTI Neonatal. “ É melhor ele estar ali. Que tal a gente leva pra casa e acontece alguma coisa. É complicado essas coisas...”, comenta. Mesmo sabendo disso, Luana não via a hora de ver seu filho em sua própria casa. “Em casa é bem melhor”, disse.

Como não mora na cidade, Luana precisou ficar na casa de apoiocusteada pelos municípios da 4ª Regional de Saúde e administrada pelo Consórcio Intermunicipal de Saúde. Lá ela passou a noite e recebeu as refeições para enfrentar o próximo dia. A noção da existência da casa ajudou a acalmar o coração de Luana, que estava apreensiva durante a cesárea. “Eu tava internada. Até chegou me dar um desespero, cheguei a chorar sozinha, sabe? Daí depois que eles foram informar da casa, aliviou por dentro. Eu fiquei um pouco nervosa quando eu soube na hora da cesárea por causa do piá”, disse.

Outro caso de comemoração foi dos gêmeos Rafaela e Rafael. Eles nasceram em Irati no dia 26 de fevereiro, depois de um longo percurso percorrido pela mãe Maria de Luz de Lima, de 41 anos, morada do município de Palmital. Grávida de oito meses, Maria estava em uma consulta regular em Guarapuava quando os médicos diagnosticaram que Rafaela estava menor que Rafael. O parto deveria ser feito logo, antes que algo pior acontecesse. “A menina estava magrinha e ele tava roubando peso”, conta a mãe. “Lá eles fizeram ultrassom e disseram que a menina estava mais miudinha, daí como não tinha, eu fiquei internada lá um dia, e como não tinha UTI, eu fiquei esperando vaga, aí depois transferiram para Curitiba, mas daí arrumaram aqui em Irati que é mais perto, então a gente veio para cá”, relata.

A comemoração no dia é que Rafaela, a mais magrinha, apresentava bons sinais de desenvolvimento e agora só precisava ganhar um pouco mais de peso para mamar por conta própria, sem ajuda de sonda. “Quando a doutora falou que assim que ela pegar peso ela vai pro seio eu fiquei aliviada. Ontem já peguei meu filho no berço, já fiquei aliviada”, disse sorridente.

Há 12 dias Maria dedica seu tempo aos dois filhos e não esquece dos outros que estão em casa. Maria tem sete filhos, sendo que dois meninos ainda são menores de idade – um com 7 anos e outro com 12 anos. É o pai quem cuida das crianças. “Falei para ele: ‘tem que ter paciência, tem que ficar cuidando das crianças quando eu for embora, você vem me buscar’”, conta. O pai chegou conhecer as crianças, mas com dificuldade, já que o transporte do município não vem com frequência a Irati. “É difícil de eles virem direto”, disse. Mas Maria se conforma com a situação e entende que a tarefa tem que ser divida. “Se eles estão bem, a gente tá bem também. Porque eles precisam de mim aqui e os outros precisam dele lá”, disse.

Assim como Luana, Maria também tem dividido seu tempo entre a UTI e a casa de apoio. O espaço faz parte de uma série de acolhimentos realizados pela Santa Casa de Irati para que a mãe consiga ficar com seu filho. “É feita uma avaliação social dessa família para ver as necessidades dessa mãe durante a permanência aqui, porque a grande maioria são mães que não residem em Irati. Tem a necessidade e a dificuldade de estar longe da família, com um bebê num estado crítico, num estado de risco, então elas tem o suporte social, o suporte psicológico, elas tem terapia para não ficarem só nesse mundo de UTI”, conta a assistente social Ana Claudia F. Andrade. A profissional conta que a equipe médica está sempre à disposição para esclarecerdúvidas e transmitir informações, sejam elas boas ou ruins às mães.

Tudo isso é para fortalecer o vínculo da mãe com o bebê. “Uma mãe bem amparada, tranquila, vai amamentar melhor. Ela tem que muitas vezes tirar o leite, deixar o leite aqui para o leite ser passado para o bebê, então todo esse processo de vínculo e amamentação a gente constrói com eles aqui dentro. Uma mãe que está tranquila, que está vendo que o bebê e ela estão sendo bem cuidados isso reflete no tratamento do bebê e isso faz com que o bebê receba a alta antes e permaneça menos tempo na UTI”, explica Ana.

Humanização

Diferente de outras UTI Neonatais, os pais têm passagem livre na Santa Casa de Irati. Isso porque a ideia é que o bebê se recupere mais rápido e é através da presença dos pais que isso será possível. “Porque ela tem mais chance de dar mamar, ela está mais disposta para criança, a criança chora ela põe no peito, então a criança aprende mais rápido a mamar”, relata Márcia.

E não é só a presença da mãe que é importante, a do pai também é necessária. “É outra coisa quando a criança tem o apoio da família, não só da mãe, que essa mãe também se sinta apoiada pelo pai, porque ela não está sozinha nessa situação. Põe-se no lugar da pessoa, às vezes muito longe de casa, sozinha aqui, às vezes a criança piora e aguentar tudo isso sozinha então, tendo o pai do lado isso fortalece muito mais os vínculos”, explica Márcia.

O horário só é marcado para irmãos, avós e tios que também precisam se envolver no tratamento. “Tentar diminuir o máximo possível o sofrimento de que é estar dentro de uma unidade isolada”, disse Márcia.

Há nove anos na UTI Neonatal,a enfermeira coordenadora Salete Vieira de Mello, conta que a modificação que ocorreu nos últimos anos ajudou a melhorar o tratamento. “Antes quando os pais não tinham tanto acesso para vir visitar o filho, a gente tinha muita dificuldade, muita reclamação, eles eram muito irritados, eles tinham até uma dificuldade de contato com a equipe, agora os pais tem acesso livre. Às vezes quando acontece alguma emergência, a gente tenta não tirar ele daquide dentro, tenta isolar o paciente que está na emergência, tenta conversar com os pais, pede para eles esperarem ali do lado de fora, se precisar achar um psicólogo”, disse.

E não é apenas o vínculo da família com a criança que melhora. A equipe também se envolve. “O vínculo aumentou muito, não só com a criança, mas com a equipe também. Não foi muito fácil para a equipe estar fazendo os procedimentos, eles se sentiam meio que vigiados, mas agora assim tão em conjuntoé como se fosse uma família, melhorou muito. Tem a bancada, o médico tá ali, eles passam ali, eles já conversam com o médico”, conta. Salete conta que a presença dos pais não fez com que os índices de infecções aumentassem e que são os próprios pais que cuidam dos bebês. “Os nenês que estão em berço, são os pais que cuidam, a enfermagem só dá mais um suporte, eles que cuidam”, revela.

Amamentação

A amamentação é parte importante da recuperação dos bebês que estão na UTI Neonatal. De acordo com chefe da UTI e responsável técnica Márcia Cristina Marins Martins, o leite materno é perfeito. “A gente fica querendo achar coisas milagrosas quando os milagres estão bem perto da gente, o leito materno é um grande milagre”, diz. Ela explica que o organismo da mãe que teve um bebê prematuro produzir um leite mais calórico, com mais anticorpos para o bebê poder crescer.

Outro fator é que o leite materno ajuda na digestão do bebê. “Ele vem na quantidade certa, com os nutrientes certos, balanceados da maneira correta que o intestino da criança possa aceitar. A gente sabe hoje em dia através de pesquisa que quando se introduz uma fórmula que não seja o leite materno na vida mais precoce do bebê, expõe a criança a uma proteína não humana e essa criança poderá desenvolver uma alergia ou uma doença auto-imune no futuro. Então é muito importante que a gente comece a prevenir já na UTI, fornecendo um alimento adequado, que vai proporcionar a ele um desenvolvimento tanto na recuperação aqui dentro, quanto uma recuperação, uma qualidade de vida melhor”, disse.

Foto/Texto: Karin Franco/Hoje Centro Sul