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Edição 969 - Já nas bancas!
01/03/2017

Amor à notícia além da visão

É a filha quem lê o jornal para o pai, Gaspar Valenga, que já não enxerga bem, mas não abre mão de estar informado sobre tudo que acontece em Irati e região.

Amor à notícia além da visão

Quando a equipe de reportagem do Jornal Hoje Centro Sul chegou à casa de Gaspar Valenga, 94 anos, no bairro Riozinho, em Irati,foi possível ver que ele estava esperando pelo momento da entrevista que havia sido combinada no dia anterior. Com uma camisa com listras azuis, calças pretas e sapato, Gaspar fez questão de receber a equipe na porta, mesmo que suas pernas já não maiso ajudeme que sua visão não seja a mesma da sua juventude, quanto atuou na profissão de ferreiro echegou a fazer mais de 200 carroças, 600 arados novos e 1000capinadeiras.

Com a ajuda de uma bengala, Gaspar guiou a equipe até uma sala que reúne diversas recordações. São milhares de retratos na parede, lembrando toda a sua trajetória. O local abriga seus arquivos, como os três livros publicados – “Irati, Minha Vida: Nossa História”, “1903-2003 Centenário de Riozinho e História de algumas empresas pioneiras de Irati” e “Memórias de um Ferreiro”. Além de mais dois livros não publicados – “Retalhos” e “Contos, Crônicas e Poesia”-, mas que estão impressos e encadernados em sua estante.

Gaspar Valenga é um dos assinantes mais antigos do Jornal Hoje Centro Sul. Ele conta que acompanha o jornal desde o primeiro ano de fundação, em 2001. “Eu acho que não parei nunca. Eu tenho um defeito, que poderia ter colecionado, às vezes, eu começo uma coleção quando está mais ou menos grandinha, vem neto,bisneto, desmancham tudo”, diz Gaspar sorrindo.

O vínculo mais próximo entre o Hoje Centro Sul e Valenga começou com o início de seu primeiro livro sobre Irati. Ele foi até o jornal para mostrar os primeiros manuscritos, ainda datilografados, para antiga diretora, Sandra Maria Mosson. “Eu lembro perfeitamente que eu tava rabiscando o primeiro livro, ‘Irati, Minha Vida: Nossa História’, aí eu levei lá os textos, datilografados, para ela dar uma conferida para mim, nós fomos ficando amigos”, disse. A amizade cresceu e desde então Gaspar tem renovado anualmente a sua assinatura nestes dezessete anos do jornal.

Afidelidade de Gaspar Valenga chamou a atenção da direção do jornal, que decidiu presenteá-lo com uma assinatura vitalícia. A equipe naquela tarde de sexta-feira estava lá para dar essa notícia a Gaspar.

Ao ouvir a notícia, os olhos já cansados ainda conseguiam demonstrar emoção e a felicidade foi expressa em um bater de palmas no ar. “Dá vontade de sair cantando pelas ruas”, disse. Imediatamente começou a cantar versos da canção Manolita, uma regravação feita por Osny Silva e que fez muito sucesso na década de 40 no Brasil.

A felicidade é explicada porque o gosto de ler o jornal impresso vem desde a sua juventude, quando seu pai Leonardo Valenga, assinava um jornal que vinha de Curitiba. “Sempre gostei de ler jornal, inclusive quando estava em casa”, conta.

O gosto pelo jornal não acabou nem quando seus olhos começaram a enfraquecer. Hoje é a sua filha primogênita, Maria Valenga, quem lê todas as quartas e sextas-feiras o jornal para seu pai. “Eu primeiro leio as manchetes. ‘O senhor quer que eu leia tudo?’, aí eu abro aqui e leio”, disse.

Gaspar quer que leia tudo, desde as notícias até as nomeações publicadas nos editais dos municípios, todas as partes o interessam. “Eles me tapeiam muito. Depois eu percebo, porque vem uma, depois vem outro, e começa ler alguma coisa, aí eu percebo que não leu”, disse Gaspar. Mas Maria tem uma explicação. “Às vezes passa despercebido algumas coisa, porque aqui nos editais é miúda a letra. Aí passa despercebido, daí vem o genro dele que começa a ler e ele fala: ‘mas você não leu isso pra mim’”, disse a filha.

Muita história

Gaspar Valenga nasceu em Irati no dia 19 de abril de 1923, filho de Maria e Leonardo Valenga. Começou a trabalhar desde os 8anos de idade, na lavoura, mas foi à profissão de ferreiro que dedicou grande parte da sua vida, de 1940 a 1990.

“Eu trabalhei 50 anos como ferreiro e sempre como autônomo, nunca tive empregado registrado, sempre diarista”, disse. Para ele, o trabalho de ferreiro era um prazer. “Eu ficava ‘faceirão’. Graças a Deus eu tive bastante sorte. Era muito afamado meu trabalho, sabe? Carroça até hoje volta e meia a gente vê, mais idoso no interior, ‘puxa ainda tem aquela carroça’. Ninguém mais faz carroça que nem aquela e não faz mesmo. Não é que a gente queira se exaltar, mas é que hoje em dia não tem mais aquele prazer em fazer a coisa. Hoje em dia é na base do dinheiro e tem que ser assim, a despesa aumentou bastante”, conta.

O trabalho como ferreiro só foi interrompido quando ele foi convocado pelo Exército Brasileiro em 1945. O período ainda era da Segunda Guerra Mundial, e as Forças Expedicionárias Brasileiras estavam participando dos combates. Após ser convocado, Gaspar foi até Curitiba onde serviu no antigo 20º Regimento de Infantaria, hoje 20º Batalhão de Infantaria Blindado.

Gaspar Valenga chegou a ser treinado, mas não participou da guerra porque ela acabou antes, como conta de forma bem humorada. “Eu incorporei no dia 8 de março de 1945. E daí estava preparado para ir pras Forças Expedicionárias, já tinham me dado um negócio lá, de por bala e armamento, tava preparado para ir pra guerra”, disse. Abrindo um sorriso, ele continuou a história. “O Hitler descobriu que eu tava pra ir. Daí reuniu as Forças Armadas dele, o Estado Maior, e disse: ‘Tá pra vir aqui pra combater contra nós um tal de Gaspar Valenga, o que vocês acham ? Vamos nos entregar que com aquele cara não tem quem possa. Daí resolveu se entregar’”, disse Gaspar rindo.

No dia 31 de janeiro de 1948, Gaspar casou com Catarina KobilarszValenga, falecida em 2010. Com ela teve sete filhos: Maria, João, Miguel (in memorian), Francisco, Elza, Ana Roseli e Ana Claudia. Eles lhe deram 12 netos e 14 bisnetos.

Aposentou-sedepois de 50 anos de trabalho, mas isso não fez com que sua trajetória terminasse. Aos 77 anos, começou a escrever os primeiros rascunhos de seu primeiro livro.

O incentivo veio da Unicentro, onde ele participou da Universidade Aberta Para a Terceira Idade em 2000. Lá cursou oficinas de Espanhol, Informática, Literatura Iratiense, Canto, Leitura e Produção de Textos. “Quando me aposentei comecei a trabalhar para a comunidade, fazendo vários trabalhos, construímos muro do cemitério, construímos o pavilhão para igreja, um campo de futebol, e todas as tardes a gente se reunia com os colegas aposentados e começava a jogar baralho. E sempre tinha um radinho companheiro, escutando, aí falou na rádio: ‘Está sendo implantado na Unicentro um movimento denominado Universidade Aberta para Terceira Idade, além de 55 anos pode comparecer na Unicentro ou na Casa de Cultura de Irati fazer a inscrição’. E nós estávamos aqui, de certo umas oito pessoas, ‘eu vou ir lá ver isto’, mas os outros disseram ‘você não sabe nada, como que você vai na universidade?’, ‘o que você vai fazer?’, ‘mas eu vou tentar’”, disse.

E tentou. Chegando lá viu que não era preciso nenhuma formação anterior para se inscrever, o que para um ex-ferreiro que tinha cursado até a terceira série do primário era uma excelente notícia. Inscreveu-se e começou a frequentar as aulas. “Para mim foi maravilhoso, fiquei tão ‘faceirão’ que me tornei alado. Ia a pé daqui até lá em três minutos. Gostei demais, fiz bastante amizade, graças a Deus, com bastante diretores, e com professores e alunos, terminava a aula ia de sala em sala e conversar com o povo”, conta.

Durante as aulas, veio a ideia de escrever o livro. “Comecei a escrever, ela [Luiza NelmaFillus] me disse ‘olha, em 2007 vai ser o Centenário de Irati, o senhor poderia escrever um livro, o senhor que tem toda essa idade, viveu essa época’, eu falei: ‘mas professora do céu, o que eu vou escrever? Um semi analfabeto? ’. Eu tinha o terceiro ano primário, único estudo que eu tenho é três anos de primário”, conta. “Eles já tinham lido algum texto que eu tinha escrito sobre Irati, sobre alguns personagens. Então vou tentar fazer alguma coisa comecei a escrever manuscrito, com caderno e caneta, até que completei um caderno e submeti a apreciação de professores, eles disseram:‘pode continuar que vai dar um livro’”, disse. O trabalho resultou em cinco livros escritos e três publicados.

Lições de vida

Gaspar Valenga conta que para ele o segredo da vida é não ter muita ambição. “Na minha opinião não ter vontade de adquirir muita coisa, até hoje se eu ganho uma televisãozinha velha eu fico louco de alegre, então assim, eu tô satisfeito da vida sempre, apesar de algum tropeço, como morreu a minha esposa, óbvio que a gente sente, mas nunca tive essa ambição”, disse.

Para ele, a vida precisa ser vivida de forma simples e é este conselho que dá aos netos e bisnetos. “Eu falo bastanteem honestidade, não ser muito ambicioso, trabalhar, continuar, não desanimar nunca, outra coisa que não sei, às vezes me chamam de ultrapassado, não tomo muito remédio, acho que se a gente toma muito remédio a gente envelhece”, disse. “Seja amigo de todo mundo, considere todo mundo como irmão. O que desgasta as pessoas é a inveja”, alerta.

“Eu só sei que a gente estando satisfeito com a vida é uma grande coisa, no meu caso, por exemplo, eu começo a lembrar da minha infância, da minha juventude, como era difícil a minha vida ou a de todas as pessoas naquela época, hoje a gente tem tudo de sobra e tem muita gente que se queixa”, disse. E ele exemplifica com uma história da sua juventude quando vendeu uma caixa de abelhas para que conseguisse comprar uma peça de tecido para fazer uma camisa. “Daí eu vendi aquela abelha pra uns imigrantes que tinham vindo da colônia, 3 mil réis, um dinheirão, sabe com 3 mil réis comprei o corte pra camisa, paguei a costureira”, conta. “Eu vesti aquela camisa faceirão que uma barbaridade. Mas, por azar, na primeira lavada - era uma listra azul, uma amarela e uma vermelha, coisa mais linda -, daí ficou só branca, desbotou tudo, mas eu chorei, queria desmanchar o negócio com os imigrantes”, disse.

“Eu acho que eu tenho essa longevidade com mais condições de vida por causa dessa minha satisfação de vida”, conta. “Eu nunca tive época ruim na minha vida. Houve época assim, se eu for falar financeiramente, eu sempre fui carente, quase sempre, mas sempre alegre e amigo”, contou.

Texto: Karin Franco e Leticia Torres/Hoje Centro Sul

Foto: Leticia Torres/Hoje Centro Sul

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