facebooktwitterinstagramgoogle+
Edição 1183 - Já nas bancas!
04/09/2019

População com mais de 60 anos dobrará em 15 anos. Brasil está preparado para envelhecer?

População com mais de 60 anos dobrará em 15 anos. Brasil está preparado para envelhecer?

Em 15 anos, o número de pessoas com mais de 60 anos dobrará no Brasil. Daqui a 50 anos, haverá mais pessoas com mais de 60 anos do que pessoas entre 30 a 59 anos. Junto a isso, o nascimento de bebês deverá diminuir e o número de pessoas entre 0 a 29 anos será menor do que daquelas com mais de 60 anos. Em 2070, seremos oficialmente um país com envelhecido.

As projeções das Nações Unidas (ONU) indicam também o envelhecimento da população mundial. Com mais pessoas idosas e menos jovens, a idade média mundial tem aumentado ao longo do tempo. Em um intervalo de 50 anos, a idade média mundial subirá de 30 anos para 38 anos. No Brasil, o pulo será de 33 anos para 49 anos.

O envelhecimento da população tem sido motivo de preocupação de vários setores, especialmente o da saúde, que precisará se ajustar a essa nova configuração e demandará novos meios para conseguir suprir as necessidades que surgirão.

Saúde

Um dos setores que será mais impactado é o de saúde, que já enfrenta uma das primeiras dificuldades atualmente: a falta de geriatras, de médicos especializados no cuidado de idosos.

Segundo o presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia Seção Paraná (SBGG-PR), o médico geriatra Vitor Last Pintarelli, é preciso que o tema seja discutido na faculdade. “Ainda temos poucos profissionais da saúde especializados em gerontologia e geriatria, e a maior parte das faculdades de medicina e das demais profissões da área da saúde ainda não incluíram essas disciplinas em suas grades curriculares, de modo que ainda precisamos suprir a falta de formação da maior parte dos profissionais na temática do envelhecimento, ao mesmo tempo em que esses mesmos profissionais já estão lidando com uma grande (e crescente) população de idosos”, explica.

Para ele, é preciso que as estratégias incluam a realização de cursos de especialização, pós-graduação, e também de atualização para profissionais já formados. “Infelizmente, o déficit de geriatras é tão grande (e a busca espontânea de médicos interessados por se especializarem nessa área ainda é pequena), que levará décadas para o Brasil atingir o número recomendado de geriatras necessários para atender à sua população idosa, portanto as estratégias de curto e médio prazo devem focar na difusão do conhecimento das peculiaridades de atenção em saúde ao idoso para profissionais de outras especialidades, para que possam melhorar sua atuação quando atenderem a pacientes idosos”, conta.

A falta de geriatras não é uma realidade só brasileira. “A carência de geriatras acontece em praticamente todo o mundo, incluindo em países desenvolvidos”, relata.

Mas experiências positivas internacionais podem ajudar o país a buscar um caminho. “O caso da experiência holandesa dos ‘Médicos de porta em porta’, que consiste numa espécie de programa de visitas médicas domiciliares periódicas aos idosos com dificuldade de locomoção para fora de casa, o que até acontece em certa medida na estratégia de saúde da família, porém ainda há grandes lacunas no atendimento da população mais necessitada desse tipo de assistência em nosso país”, destaca.

Prevenção

O cuidado com o idoso não deve começar após os 60 anos, mas sim, antes, desde a infância, para que no final da vida o impacto na saúde não seja maior.

 “Começa pela prevenção de doenças desde a infância, passa pela adoção e manutenção de um estilo de vida saudável, especialmente em questões como alimentação, atividade física, atividade intelectual e cultivo de relações sociais, e também abrange o diagnóstico precoce e o controle clínico de doenças que apareçam com o passar dos anos, especialmente aquelas que podem ter um curso silencioso, como hipertensão arterial, diabetes, doenças cardiovasculares e osteoporose”, explica o médico geriatra.

Social

O aspecto social na vida do idoso também é outra preocupação que deverá existir. O isolamento social que leva à depressão e as desigualdades sociais que fazem com que o envelhecimento seja diferente para cada pessoa no país, são algumas das preocupações que existem.

De acordo com a presidente do Conselho dos Direitos da Pessoa Idosa de Irati, Fernanda Rocha Reda, as políticas públicas no Brasil tiveram um avanço, mas ainda é preciso pensar mais neste aspecto devido ao envelhecimento rápido da população. “Precisamos refletir sobre as questões de desigualdade social no país, grande impeditivo ao envelhecimento ativo que tanto buscamos. Não basta avançarmos em idade cronológica, uma sobrevida, mas sim, uma vida com significado e feliz. Portanto, sim, precisamos melhorar e muito no planejamento social para termos um país includente aos diversos brasileiros, portanto, aos diversos idosos”, explica.

Outra questão será pensar nos novos arranjos familiares da sociedade. Antigamente, recaia sobre a mulher o cuidado com idosos e crianças. Com famílias menores e mulheres mais ativas no mercado de trabalho, desempenhando múltiplas funções, esses papéis estão mudando e famílias estão repensando os modos de cuidar, especialmente de idosos dependentes.

“Nesse aspecto, ainda precisamos avançar muito na oferta de modalidades de serviço que atuem como parceiros dessas famílias, colaborando inclusive na diminuição do número de acolhimentos institucionais. Analisando ainda a questão de moradia e cuidados, novos modelos estão surgindo como as repúblicas e condomínios para que os idosos tenham dignidade de moradia na velhice”, relata.

Irati

Em Irati, os problemas ligados ao envelhecimento são parecidos com os brasileiros. Segundo Fernanda, é preciso que haja uma integração em rede, com políticas e sistemas estruturados, para que o idoso possa ter um atendimento dentro das suas especificidades.

“Faz-se mais que urgente entender que a velhice é um estágio de vida, com suas particularidades, mas que não exclui a individualidade de cada um, sendo, portanto necessário o desenvolvimento de serviços e atividades que contemplem os diversos idosos que temos no município, desde os considerados ativos e independentes até aqueles totalmente dependentes”, relata.

Para Fernanda, essa conscientização precisa vir desde o início da vida. “O primeiro passo é a educação desde as séries iniciais, para que o processo de envelhecimento seja visto como uma etapa natural da vida, e que na maioria das vezes ocorre no seio familiar, portanto precisamos ressignificar a figura do idoso, não como um fardo, mas sim, um indivíduo que contribuiu e contribui em diversos aspectos. E a educação é a porta de entrada para a transformação social que tantos buscamos”, explica.

Ela ainda destaca que será competência do Estado também não só dar o suporte às famílias, através de serviços sociais, como também trabalhar em outras frentes, como a própria mobilidade. “Adaptação aos ambientes físicos como moradia e outros espaços onde as pessoas realizam suas atividades cotidianas, além de construção de vias para facilidade da mobilidade dos idosos, onde entra também acesso ao transporte”, conta.

Um dos meios para pensar essa realidade já está sendo realizada em Irati. Fernanda explica que o município aderiu ao programa “Estratégia Brasil Amigo da Pessoa Idosa” que ajuda a conhecer o município e elaborar políticas públicas dentro de seu contexto social e econômico.

Novos negócios

O envelhecimento rápido da população também gerará novas demandas, não só do poder público, mas também do setor privado. “É preciso investir em políticas públicas direcionadas a esse público, além de incentivar investimentos privados no setor - visto que quase 50% das pessoas acima de 60 anos relatam não encontrar serviços e produtos direcionados”, conta Eduardo Frutuoso, que junto com Ana Vasconcellos, fundou o Grupo Canadá Saúde, uma franquia de residenciais para o público idoso.

Um ponto que Eduardo Frutuoso também destaca é a questão da acessibilidade, que vai além de rampas e cadeiras de rodas. “Podemos colocar exemplos já vivenciados fora do país como facilidade de leitura em drogarias por meio de lentes de aumento; pessoas treinadas para esclarecer dúvidas de entendimento; sinais luminosos na faixa de pedestre e com tempo maior para travessia; bips de alerta de fechamento; redução tributária de itens como cadeiras motorizadas e medicamentos; residenciais sêniores que atendam todas as fases de envelhecimento, desde a pessoa lúcida e independente até aquele que necessite de total cuidado”, explica.

Texto: Karin Franco

Foto: Pixabay

Galeria de Fotos