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Edição 1149 - Já nas bancas!
15/05/2019

Gravidez de risco: os desafios deste tipo de maternidade

Mais de 160 futuras mamães vivenciam gravidez de risco na região. Conheça como é o atendimento oferecido a elas e quais são os desafios para que possam se tornar mães

Gravidez de risco: os desafios deste tipo de maternidade

A descoberta de uma gravidez é um misto de emoções. Felicidade e surpresa se misturam com preocupação. Então, a mulher grávida procura a unidade de saúde mais próxima para iniciar seu pré-natal, faz consultas e exames que a deixam mais tranquila. Mas ao longo da gravidez alguns fatores farão com que uma parte dessas gestantes tenha um pré-natal diferente das demais. São as grávidas consideradas de risco intermediário e alto risco.

Na região, por mês, de 35 a 40 novas gestantes são classificadas nestas categorias e atendidas através do Consórcio Intermunicipal de Saúde (CIS/Amcespar). Atualmente são 162 futuras mamães que vivenciam gestações de risco. Elas recebem atendimento multiprofissional com psicóloga, assistente social, nutricionista, fonoaudióloga, farmacêutica, enfermeira e médica obstetra. Todos os profissionais avaliam a gestante e realizam os encaminhamentos necessários em cada caso, além de fazerem o acompanhamento de todo período gestacional.

Quem são?

Mas o que faz uma grávida ser considerada de risco? Segundo a enfermeira coordenadora do ConSus, Suellen Guimarães, e a enfermeira WilidianeTessari, muitos fatores podem ajudar a dar essa classificação.

O risco é classificado em intermediário ou alto risco, e as classificações seguem protocolos da Secretaria Estadual de Saúde e do Ministério da Saúde. “Na intermediária [classificacação] são negras e indígenas, com mais de 40 anos, analfabetasou com menos de três anos de estudo. E gestantes com histórico de óbito, aborto, natimorto”, explica Suellen.

Já na gravidez de alto risco outras condições podem ser consideradas, como problemas anteriores à gravidez ou intercorrências clínicas ao longo da gestação. Uma gravidez pode ser de alto risco, devido a diversas patologias, como detalha a enfermeira: “hipertensão gestacional, diabetes, hipotireoidismo, má formação fetal, sangramento de origem uterina, quando o bebê não está desenvolvendo muito ou que a gestante é obesa”.

Na região, hipertensão, diabetes, hipotireoidismo e sífilis são as principais causas para este tipo de gestação.

Sífilis

Dentre as causas mais comuns da gravidez de risco, a sífilis é uma das doenças que pode ser prevenida com mais facilidade.

A sífilis é causada pela bactéria Treponema pallidum e é considerada uma Infecção Sexualmente Transmissível (IST). A transmissão pode ser através de relação sexual sem camisinha com uma pessoa infectada ou para um bebê durante a gestação ou parto.

Caso não tratada, pode causar aborto espontâneo, parto prematuro, má-formação do feto, surdez, cegueira, deficiência mental e morte ao nascer.

Apesar da gravidade, a doença tem cura e quando tratada de forma antecipada, a gravidez pode transcorrer tranquilamente. Contudo, segundo a equipe, o desafio é conseguir que algumas grávidas possam terminar o tratamento, especialmente as mais novas.

Para a prevenção, o tratamento também é feito no parceiro da gestante, que se não fizer, pode passar a doença novamente para ela através do sexo sem camisinha. “Geralmente vem sífilis nas adolescentes, pessoas mais novas. Às vezes, ela faz o tratamento e o companheiro não faz, aí acaba prejudicando. Acabam tendo relação e acaba passando novamente. Eles não entendem o perigo que é a gestação onde a mãe está com sífilis e não tratar”, comenta Suellen.

Gravidez na adolescência

Aproximadamente 20 adolescentes gestantes são atendidas pelo Consórcio Intermunicipal de Saúde atualmente. O atendimento segue os mesmos ritos das demais mulheres grávidas, mas questões como imaturidade, porte físico pequeno e tabagismo fazem com que mais desafios surjam para algumas das mães adolescentes.

 “O corpo da mulher está pronto, mas não tem maturidade. Muitas vezes esses bebês vêm com elas pra nós, percebemos ali a avó vem na triagem, a avó tira roupa, a avó põe roupa, a avó põe para pesar, a avó conta para a médica e para as meninas o que está acontecendo, e ela está ali quietinha. Ela gestou e pronto”, conta Suellen.

Certos cuidados, como evitar o cigarro, também não são tomados por algumas das jovens mães. “Tem bastante adolescentes que são tabagistas. Elas não compreendem o risco que o cigarro pode trazer”, relata Wilidiane.Um dos riscos é o parto prematuro.

O porte físico da adolescente também pode ser um fator de risco. “Pela idade, pelo porte físico que é pequeno acabam tendo parto prematuro. Então esse bebezinho acaba tendo que ficar na UTI, para conseguir ganhar peso, porque não nasceu no tempo correto”, explica Suellen.

Tabagismo

Mas não são somente as adolescentes que são tabagistas. Muitas outras gestantes na região também usam o cigarro, o que traz riscos à gravidez.

Além de parto prematuro, o tabagismo durante a gravidez pode trazer problemas no desenvolvimento do feto.

Na região, outro detalhe também é observado. “Perguntamos sempre se é cigarro de palha ou de filtro, porque nossa região as tabagistas usam o de palha. E elas acham que o de palha é melhor do que o de filtro. Elas não entendem a diferença, que o de palha é mais prejudicial à saúde do que o cigarro de filtro”, explica Wilidiane.

Acolhimento

É dentro de todo esse contexto de desafios para uma gestante de risco, que há um acolhimento das mulheres através de vários profissionais, incluindo apoio psicológico desde a primeira avaliação.   “A psicóloga atende e faz uma abordagem no geral, faz um levantamento do histórico da gestante e acaba acompanhando, no retorno, se achar necessário”, disseWilidiane.

Não há uma terapia, mas o que ocorre é uma tentativa de conhecimento da gestante e de sua situação social. “A psicóloga não faz uma terapia. Ela aborda essa gestante e começa ver um contexto um pouco familiar, se a gestação foi planejada, às vezes o marido vem junto, acaba conversando também”, explica Suellen.

Em muitas situações é nesse acolhimento que muitos fatos se revelam. “Às vezes o problema é detectado aqui. Às vezes elas não relatam lá no município. Elas ficam com medo porque conhecem, acaba não contando para a agente de saúde, para alguém do posto, da unidade de saúde porque mora perto, é vizinho, é parente. Elas relatam aqui o problema que está ocorrendo lá”, conta Suellen.

Por isso, elas são encaminhadas muitas vezes para o município, que providencia as mais diversas soluções, desde cesta básica, o acompanhamento psicológico e da assistência social. “Esse programa não é um olhar só para a barriga dela, mas para um todo dela, mas às vezes uma coisinha que você não dá tanta importância está afetando, e depois que a gente consegue resolver esse problema, a gestação flui como se nada tivesse acontecido”, destaca Suellen.

Planejamento familiar

A falta de planejamento familiar é apontada pelas enfermeiras como uma das semelhanças em diversos casos de gravidez de risco. “Nós, como profissionais, vemos uma falha no planejamento familiar, porque temos gestante que está na décima gestação”, conta Suellen.

Para as profissionais, é necessário mais trabalho em torno do assunto, especialmente com jovens, para evitar a gravidez na adolescência. “A questão da captação precoce é importante porque o adolescente nunca foi na unidade de saúde”, explica Wilidiane.

Caminhos do atendimento

O caminho percorrido por uma grávida de alto risco pode ser longo na região. Isso porque a falta de infraestrutura força a gestante a ter que viajar para várias cidades para conseguir atendimento.

Atenção Primária – o primeiro local de atendimento é na Atenção Primária, isto é, nos postos de saúde do município. Lá, as primeiras consultas do pré-natal são feitas. Se há um diagnóstico de gravidez de alto risco, a gestante é encaminhada para a Atenção Secundária, que a acompanhará o seu pré-natal. No entanto, depois do encaminhamento, a gestante continua sendoatendida pela Atenção Primária, fazendo todos os atendimentos que são possíveis de fazer dentro do seu município de residência.

Atenção Secundária–Na região, a atenção secundária é feita pelo Consórcio Intermunicipal de Saúde (CIS/Amcespar) e atende nove municípios: Fernandes Pinheiro, Guamiranga, Imbituva, Irati, Inácio Martins, Rebouças, Rio Azul, Teixeira Soares e Mallet.

As consultas e exames são realizados em sua maioria em Irati, no Ambulatório do CIS/Amcespar. Na primeira consulta, uma equipe multiprofissional irá acolher e dar os encaminhamentos seguintes.

Como não perde vínculo com o município onde reside, a gestante faz consultas pelo consórcio geralmente uma vez a cada dois meses ou uma vez por mês quando necessário. O Consórcio funciona como um suporte ao município, oferecendo exames mais sofisticados. Durante a consulta,a gestante recebe um plano que é preenchido por todos os profissionais que a atender, onde eles compartilharão informações do atendimento e as orientações dadas.

Atenção Terciária– Mas quando há um problema maior, como má-formação do feto, a gestante é encaminhada a outra cidade, onde consegue ter atendimento mais especializado. Na região, as referências são os hospitais de Curitiba e Campo Largo. Desse modo, uma grávida de alto risco pode ser atendida nas três atenções simultaneamente.

Texto: Karin Franco

Foto: Pixabay, Karin Franco/Hoje Centro Sul

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