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Edição 1149 - Já nas bancas!
10/05/2019

Jogos eletrônicos violentos influenciam comportamentos agressivos nos jovens?

Jogos eletrônicos violentos influenciam comportamentos agressivos nos jovens?

Os atiradores responsáveis pelo atentado que matou dez pessoas em uma escola em Suzano, no mês de março,frequentavam fóruns na internet e compartilhavam o gosto por jogos eletrônicos violentos. Desde então, a influência deste tipo de videogame passou a ser discutida na sociedade. E a discussão chegou ao Congresso Nacional, onde o deputado federal Júnior Bozzella (PSL-SP) criou um projeto de lei que criminaliza os jogos com conteúdo que incitema violência. O projeto foi anexado a outro projeto de lei que tipifica o crime de difusão de violência, que ainda está em análise.Mas, será que criminalizar jogos eletrônicos pode evitar que episódios como o de Suzano se repitam?

Para o professor de filosofia do Instituto Federal do Paraná (IFPR), campus de Irati, Juliano Peroza, é delicado estabelecer uma relação de causa e efeito. “Culpar os jogos é uma maneira fácil de querer resolver questões complexas e a sociedade, quando não compreende, acaba demonizando, acha um Judas para linchar, para ter esse comportamento de explicar rapidamente a origem dos problemas”, explica.

Já para o desenvolvedor de web, Adriano Luís Lopes da Silva, que já trabalhou na área de desenvolvimento de games, os jogos violentos podem ser vistos como um gatilho para pessoas que possuem desvio psicológico ou que estão fragilizadas por uma questão social, induzindo a reproduzir ações virtuais. “Pode se tornar um potencializador para uma pessoa que possui um desvio psicológico, quando há uma pré-disposição. Uma questão social também pode ser um fator. Pode potencializar o desejo de matar de uma pessoa, por exemplo, torná-la mais violenta, tentando reproduzir o que viu dentro do jogo”, disse.

Já o psicólogo Bruno Marques diz não enxergar uma relação direta entre os fatos. “Não acredito que tenha uma relação direta. Você não vê por aí alguém falar que jogos de corrida incitam rachas ou que jogos eletrônicos de futebol incitam pessoas a jogarem futebol”, comentou.

Relação

O professor Juliano destaca que o comportamento agressivo poderia ser desencadeado de várias formas. “Não somente um jogo, qualquer palavra ofensiva poderia desencadear um comportamento violento, independente do quê. O estímulo incita uma resposta, por isso não culpo os jogos em si, da mesma forma que não podemos culpar os fumicultores [produtores de tabaco] de cigarro pelo câncer que ele [tabaco] provoca. A responsabilidade é de quem consome, da educação”, disse.

A falta de conexão entre os jogos e a violência no mundo real é apontada pelo desenvolvedor de web. Para ele, o principal fator é o preparo psicológico. “Eu acredito que não devemos tratar os jogos como uma causa para violência, até porque hoje em dia temos milhares de jogadores online todos os dias, e temos tragédias acontecendo em regiões extremamente bem localizadas. O último jogo de sucesso, o PUBG [Playerunknown'sBattlegrounds], teve 3 milhões de usuários online ao mesmo tempo jogando. Essas pessoas estão preparadas para o que elas estão enfrentando ali naquele jogo, tem ciência de que não é real”, diz Adriano.

O psicólogo Bruno compartilha da mesma opinião, apontando não existir relação direta entre os fatos: “Taxar jogos de violência pelos atentados é a mesma coisa que ‘culpar’ os jogos de futebol pelo 7x1 da Alemanha [durante a Copa do Mundo no Brasil]”. Ele afirma que se a pessoa estiver planejando um ataque irárealizá-lo independente se joga videogame. “Como a maioria dos casos de tragédia envolvendo escolas é possível fazer a ligação direta com o bullying, e nem todos os casos os responsáveis jogavam videogame”, explica.

Culpa

Para o psicólogo Bruno, o fato de os jogos eletrônicos serem culpabilizados por este tipo de crime ocorre porque há a necessidade de algo para desviar ou fugir do problema principal. “Em minha opinião, é preciso haver um bode expiatório, é preciso culpar algo ou alguém por problemas que a sociedade não entendeu a fundo e tem dificuldade em lidar. É mais fácil se eximir da culpa e colocar nos jogos”, ressalta. 

O professor de filosofia explica que problemas sociais e familiares interferem muito mais no comportamento dos jovens que os jogos. “Acho uma conclusão prematura dizer que o que se faz no jogo vai induzindo a fazer na vida real, o problema vem justamente de esses jovens viremde famílias desestruturadas ou de uma história de vida desestruturada”, finaliza Juliano.

Adriano acredita que apontar os jogos eletrônicos como culpados pode forçar os paisa acharem outra forma de entreter os filhos, como a televisão. “Eu vejo como uma armadilha para os pais. O ditado de que os jogos trazem a violência é para tirarem os jogos dos filhos. Fazendo isso, o que vai sobrar para uma criança? Assistir televisão, por exemplo, você vai desarmar um lado e potencializar outro. ATV também pode ser usada tanto para o bem como para o mal”, defende.

Pontos positivos

Para o professor Juliano, o videogame pode ser encarado como uma forma de desestressare realizar o que não pode ser feito na vida real. “Se a pessoa tem propensão à violência, jogando ela vai realizar no mundo virtual aquilo que ela tinha vontade de fazer no mundo real, é uma forma de desestressar”, disse.

O psicólogo Bruno destaca que agrande rede de pessoas conectadas por jogos online, pode se tornar grupo em que os membros se ajudem de forma mútua. “Os jogos podem ser usados como reforçador, muitas pessoas jogam online, encontram pessoas que lhe oferecem suporte, fazem amizades e muitas vezes conseguem se abrir com essas pessoas”, conta.

Adriano destaca que além da diversão, jogos podem ser fundamentais para ajudar no desenvolvimento das crianças. “Os jogos como uma fonte de diversão são impecáveis, não faltou em nada. Você se diverte, dá risada, vê coisas engraçadas acontecendo nos diversos universos que são totalmente irreais. Para uma criança,pode ajudá-la a se desenvolver melhor, a responder melhor a determinadas ações, a atividades”, afirma.

Entretanto é necessária a supervisão dospais quanto aos jogos. “Os jogos hoje em dia têm classificação de faixa etária, os pais têm que ficar atentos. Outra precaução é levar em psicólogo para ver como está o comportamento, se apresenta agressividade, saber se está recebendo bullyingdentro da escola. Pois pode transformar em raiva e os jogos vão potencializar essa raiva que vai ser liberada de alguma forma”, disse.

Quanto à supervisão paterna, o professor Julianosugere que sejam estabelecidos horários e regras. “O problema dos jogos estão no vício e na dependência que estimulam nas pessoas, perdendo a sociabilidade e as interações sociais com amigos e família. A pessoa acaba se isolando, tendo características antissociais e se inibindo, tendo dificuldade no momento de interagir com outras pessoas.Tudo o que é dosado pode se converter em uma virtude, com a presença de um responsável para demonstrar os problemas. Como por exemplo, passar três horas por dia jogando, vai acabar criando problemas na escola, vai gerar consequências, é importante a presença dos pais no estimulo”, diz Juliano.

Exagero em jogos também preocupa Bruno. Notas ruins e problemas de visão podem ser os resultados. “A questão mais prejudicial é o exagero, independente se são violentos ou não, isso pode prejudicar as notas, visão, entre outras coisas”, explica.

Masculinidade Tóxica

Outro ponto ressaltado pelos especialistas é a toxidade dentro dos jogos, especialmente em relação aos meninos que muitas vezes podem ter preconceitos quanto às meninas. “Hoje em dia em vejo como uma questão de toxicidade dentro dos jogos, como Counter-Strike, por exemplo, um jogo de tiro, se o pessoal encontra uma mulher dentro de uma partida ela imediatamente sofre alguma agressão, algum xingamento, o pessoal fala que não joga bem, até algum abuso, é uma grande falta de respeito, acredito que isso parte da educação que essa pessoa teve com mulheres, é um preconceito total, é uma reflexão da nossa sociedade”, conta o desenvolvedor Adriano.

Para Juliano, esse preconceito é um sintoma da moral da pessoa. “O jogo acaba refletindo uma característica do comportamento social da nossa sociedade machista que vê a mulher muitas vezes como um objeto. Que acaba se refletindo nos jogos”, disse.

Excesso de tempo nos games

Muitas vezes, o excesso do uso de jogos eletrônicos pelas crianças e adolescentes acontece com o consentimento de alguns pais, que acabam se utilizando destes mecanismos para dedicarem menos tempo aos filhos. Em meio à correria do dia a dia, para manter os filhos ocupados, alguns são coniventes com o uso tecnológico abusivo.  “Hoje em dia acredito que está tendo um mal por parte dos pais que estão usando jogos e aparelhos celulares para se livrar dos filhos. Por exemplo, a criança esta lá pedindo atenção dos pais, o que o pai faz? Pega o celular e fala ‘joga aí o joguinho’, deixa o filho ocupado com alguma coisa para ele ter o sossego, isso é uma coisa que acontece e está muito errado da parte dos pais”, frisa o desenvolvedor de web, Adriano Luís Lopes da Silva.

Texto: Da Redação/Jornal Hoje Centro Sul

Fotos: Jonas Stefanechen/Hoje Centro Sul

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