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Edição 1164 - Já nas bancas!
13/03/2019

Protagonistas na política, elas falam sobre poder e gênero

Protagonistas na política, elas falam sobre poder e gênero

As últimas eleições brasileiras fizeram o país sair da 154ª posição para a 134ª posição no ranking mundial de 172 países de Mulheres na Política, organizado pela ONU Mulheres.

Na Câmara de Deputados brasileira, das 513 vagas, 77 são ocupadas por mulheres, uma representação de 15%. Já no Senado, das 81 vagas, 12 são de mulheres, uma representação de 14,8%.

Apesar do crescimento, as mulheres ainda estão longe de uma representação igualitária na política. Na América Latina e países caribenhos, a média de representação em Câmara de Deputados, por exemplo, é de 28,8%.

Para entender mais sobre a representação na política brasileira conversamos com três mulheres que atuam localmente e nacionalmente: a deputada federal Leandre Dal Ponte, a prefeita de Fernandes Pinheiro, Cleonice Schuck e a vice-prefeita de Teixeira Soares, Juliana Belinoski.

O que te motivou entrar na política?

Leandre Dal Ponte:Eu trabalhei muitos anos à frente da Casa de Apoio Ideal, em Curitiba, recebendo milhares de pessoas que vinham de suas cidades, a maioria no interior do Estado, para a capital em busca de um tratamento de saúde. Eu sempre ajudei aquelas pessoas como eu pude. Mas chegou um momento que eu precisava fazer mais por elas. Eu percebia e convivia diariamente com pessoas que necessitavam do acesso à saúde e sofriam com a burocracia do sistema, a falta de acesso, a demora dos atendimentos. Então, percebi que eu só poderia ajudar ainda mais aquela gente se eu entrasse para a vida pública para levar a saúde mais perto das pessoas e para isso, percebi que precisamos participar das decisões que afetam as nossas vidas.

Cleonice Schuck: O que motivou foram os desafios da gestão pública, a possibilidade de trabalhar para uma sociedade mais justa e o bom uso do dinheiro público, percebendo o benefício para a coletividade, aliados à visão feminina de ampliar o leque de atividades, em prol do bem comum.

Juliana Belinoski:Foi através do meu pai Miguel Belinoski, Miguelzinho (in memoriam), seguindo seus ensinamentos e trabalho para melhorar as condições de vida das pessoas, sempre buscando o desenvolvimento do município. Através desses exemplos que ele praticava é que ingressei na vida política. Ele sempre me falava que através da boa política é que conseguimos transformar a vida das pessoas, mas para isso acontecer tem que se envolver, participar e, acima de tudo, enfrentar os grandes desafios de uma vida pública.

Como você vê a mulher na política brasileira?

Leandre Dal Ponte: Eu vejo que as mulheres estão preparadas para assumir cargos de liderança. Não apenas na política, mas na sociedade como um todo, ocupando espaços de decisão de forma que isso represente o percentual da população de mulheres no Brasil.

Cleonice Schuck: Com grande capacidade de contribuição, mas ainda com um número pequeno, comparando com os homens ativos!

Juliana Belinoski: A mulher aos poucos vem ganhando seu espaço na política desde a década de 1930, seja como eleitora ou como candidata a cargos públicos. Ainda há muito a ser alcançado nas esferas municipais, estaduais e federais de uma maneira igualitária. Ainda somos a minoria na política brasileira. Em meio à delicadeza feminina, ela desempenha papéis fundamentais na sociedade, mas precisamos de mulheres que participem ativamente na vida pública para aumentar representatividade feminina.

A representatividade feminina aumentou, mas ainda há uma diferença grande entre homens e mulheres na política. O que é preciso fazer para aumentar essa representatividade?

Leandre Dal Ponte: Não dá para esperar um resultado maior, com mais representatividade quando as condições de disputa são desiguais. É necessário que os partidos políticos invistam de forma igual na formação política e nas candidaturas das mulheres. Se elas perceberem que têm chances iguais, seguramente terão mais interesse em participar das eleições.

Cleonice Schuck: Combater as candidaturas laranjas, fazer campanhas de estímulo e rebater o machismo que ainda é predominante.

Juliana Belinoski: Mesmo que a representatividade feminina venhaaumentando aos poucos, vejo que a mulher tem valores, capacidade e habilidade para demonstrar seu trabalho em meio à sociedade, mas para isso a mulher tem que acreditar mais em si, buscar seu espaço, participar ativamente e acima de tudo ter coragem de conquistar e enfrentar os desafios encontrados em meios às políticas públicas.

O meio político é machista? Há alguma forma de combater isso?

Leandre Dal Ponte: A sociedade brasileira é patriarcal. E o meio político é ocupado majoritariamente por homens. Então, em termos gerais, sim. Mas respeito e igualdade são valores que precisam estar relacionadas a todos. Eu defendo a participação efetiva das mulheres em cargos de liderança, seja na vida pública ou na iniciativa privada. Acredito que a maior participação de mulheres nestes cargos de liderança é uma forma de equilibrar essa representatividade. Ter mais mulheres nas câmaras, nas assembleias, em diretorias, é extremamente importante.

Cleonice Schuck: Sim. Infelizmente a maioria dos homens não tem consciência do poder colaborativo, e veem a mulher como uma ameaça, ferindo sua capacidade de gestão e ofuscando seu orgulho próprio.

Juliana Belinoski: Reconhecendo que a realidade brasileira é machista, as mulheres devem e podem ter autonomia em suas escolhas, portanto, é preciso combater com ações práticas no nosso dia a dia e lutar pelos seus direitos.

- Como você vê os casos de candidatas “laranjas”, onde os partidos convidam mulheres para preencher a cota de 30%, para conseguir verbas do fundo partidário? Há como evitar?

Leandre Dal Ponte: Fico triste em ver algo pelo que nós, da Bancada Feminina da Câmara dos Deputados, lutamos tanto ser usado com esta finalidade. A decisão do TSE, que entendeu que não bastava assegurar 30% das candidaturas para mulheres, mas também do Fundo eleitoral e do tempo da propaganda eleitoral, ajudou a aumentar a representatividade feminina no parlamento brasileiro. Na verdade, os partidos não acreditavam que iríamos vencer essa batalha e nunca se preocuparam em preparar quadros de mulheres dentro das agremiações partidárias, então muitos partidos não estavam preparados para essa realidade. Mas acredito que se o TSE for rígido na aplicação da lei e na punição de casos de ilicitude, isso vai mudar. Os partidos vão ter que se engajar na busca de mulheres e prepará-las para disputar as eleições e em condições de igualdade e justiça. À medida que a lei for aplicada, nem mesmo as mulheres vão se submeter a situações como as que lamentavelmente vimos nas eleições de 2018.

Cleonice Schuck: Existem candidaturas laranjas!Infelizmente nossas leis ainda são controversas e muitas vezes elas saem impunes!Havendo rigidez na parte judicial, caçando e condenando, acredito que ajudaria bastante, pois essas situações também desestimulam as mulheres que se candidatam com o intuito de trabalhar e contribuir efetivamente na gestão pública.

Juliana Belinoski: Candidatura laranja sempre existiu e vai acabar existindo. Candidaturas que deveriam ir além das cotas, deveria haver um incentivo da participação das mulheres abrindo espaço para que elas consigam colocar seus interesses e ideias de um plano de governo a serem atuados nas políticas públicas, mas acredito que ainda haja muita luta para combater candidaturas laranjas, porque o mundo real está conectado nos partidos e na mão de homens detentores de poder.

Texto: Karin Franco

Foto:

Divulgação

 Arquivo/Hoje Centro Sul

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 Divulgação/Arquivo/Hoje Centro Sul

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