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Edição 1078 - Já nas bancas!
16/05/2018

Surpresas e desafios de ser uma mãe especial

Toda mãe sonha em ter um filho com saúde plena e um futuro cheio de conquistas. Anna, mãe de um “menino” de 49 anos, também sonhou e realizou esse sonho, mas de uma maneira um pouco diferente

Surpresas e desafios de ser uma mãe especial

“Imagine que você sempre sonhou em conhecer a Itália. Você compra guias, faz planos e eis que chega o grande dia. Mas algo acontece e, em vez de desembarcar na Itália, você vai parar na Holanda. E é lá que deve ficar. O primeiro sentimento, inevitavelmente, é o de frustração. Com o tempo, porém, você vai conhecer (e se deslumbrar) com as tulipas, os moinhos de vento, vai descobrir as pinturas de Rembrandt e Van Gogh”.O trecho foi escrito pela escritora americana Emily Perl Kingsley, no livro “Bem vindo à Holanda”. No texto a escritora faz uma comparação entre a experiência de ter um filho com alguma deficiência e uma viagem para a Itália que acaba sendo desviada para a Holanda.

Para a aposentada Anna Maria Cordeiro, de 81 anos, algo parecido aconteceu. Ela é a mãe de Antônio Carlos, de 49 anos, que tem Síndrome de Down.Durante a gravidez ela idealizou o filho, construiu sonhos para ele. Quando ele nasceu ela começou a perceber que tinha alguma coisa diferente, então veio o choque.Para ela a viagem que seria para a “Itália” acabou sendo para a “Holanda”, os projetos de vida que tinha acabaram tendo de ser outros. 

Anna conta como aconteceu a descoberta. “Quando o neném nasceu estava tudo bem, achávamos que ele era perfeito, fomos para casa, e logo a gente começou a perceber que ele não firmava a cabeça, demorou muito para se firmar, para sentar um pouquinho foram meses. Alguns amigos falaram:‘Nossa, ele tem meningite, precisa levar no médico’.Pelo modo dele a gente não sabia o porquê”, relembra.

Então, ela levou o filho ao médico para saber o que estava acontecendo. Foi então que se surpreendeu com o diagnóstico. “Não lembro quanto tempo ele tinha, mas era menos de um ano. O médico vendo o menino pegou um livro e explicou, naquele tempo falava-se‘mongolismo’, não era Síndrome de Down, e ele leu sobre uma criança com mongolismo, uma criança mongole”, relata Anna.

No Brasil, nasce uma criança com Síndrome de Down a cada 600 a 800 nascimentos, independente de etnia, gênero ou classe social. Para as mães, um acontecimento desses é uma mudança brusca, um misto de medo, solidão e incompreensão, seguido de amor, alegrias e surpresas.

As descobertas de um mundo novo

Depois da descoberta da síndrome do filho, iniciava-se um mundo novo, com muitas novidades, vários aprendizados e muito amor.

Segundo a aposentada, receber a notícia que seu filho era especial não foi nada fácil. “A aceitação foi difícil no começo, a gente não queria que fosse, lógico ninguém quer.Muitas vezes me perguntei, por que comigo? Porque isso? Tanta coisa eu imaginava para o futuro dele”, relembra.

Portadores dessa síndrome amadurecem mais lentamente, possuem características de crianças mesmo depois de adultos. “Cuidar dele também foi difícil, porque ele precisa de assistência constante, porque ele é uma pessoa inocente e indefessa, até agora ele é. Ele é uma criança, uma eterna criança, não tem maldade e não tem malícia”, explica a mãe.

O menino com Síndrome de Down Antônio Carlos era o xodó do pai. Era muito apegado a ele, gostavam sempre de estarem juntos. “Ele foi muito bem aceito pelo pai. Já faz seis anos que ele [pai] é falecido.Foi muito difícil quando o pai faleceu, porque ele era muito apegado com o pai”, diz.

Antônio Carlos aprendeu a andar aos quatro anos e aos cinco já ia para a escola. As dificuldades foram sendo superadas dia a dia. “O médico explicou que ele teria dificuldade para caminhar e ele caminhou com praticamente quatro anos, então a gente carregava ele no colo, era bem difícil. Ele demorou a aprender falar, mas falou”, conta.

O entendimento do garoto era pouco, mas a mãe amava estar junto dele para as pequenas descobertas. “Quando a gente colocava o pratinho para ele comer ele batia, batia a colher e jogava tudo, tinha que dar na boca. Foi tempo assim, anos, ele foi aprendendo tudo devagarzinho e eu fui descobrindo tudo junto com ele”.

Com o passar dos anos o garoto já conseguia fazer as coisas mais simples da vida, então Anna e seu esposo decidiram ter mais filhos. “Eu até fiz tratamento para engravidar, mas nunca mais, eu queria que ele tivesse irmãos, mas não veio mais, era para ser ele só”, diz.

Ele pode ajudar

Para que Antônio Carlos se sentisse mais útil e importante para a família os pais ensinaram a ele pequenas coisas que ele poderia fazer em casa. “Ele me ajuda em casa, alguma coisinha ele faz e fica feliz, eu falo ‘filho venha secar a louça’, claro que não faz bem feito, mas pega o pano e faz, ele fica feliz por ter ajudado, ele se sente útil, é importante isso, importante mandar fazer alguma coisa”, explica.

Além de ajudar a mãe nos serviços de casa ele adora fazer a lista de compras, mesmo sem ter aprendido a escrever ele sabe muito bem o que a mãe precisa trazer do mercado. “Eu falo pra ele:‘filho faça a notinha de compra pra mãe’.Ele pega uma caneta e um papel e rabisca tudo e ele diz:‘A leite, a pudim, a sagu, a cebola’...Como se tivesse escrevendo, ele enche a folha de rabisquinhos e me entrega”, fala empolgada com a ajuda do filho.

Antonio também é aluno assíduo da APAE de Irati.  Todos os dias vai até a APAE rural e passa o dia trabalhando com seus amigos. “Na escola ele tem bastante atividade, eles trabalham na horta, plantam mudinhas, fazem canteiros, os que têm o regador vão molhar as plantas. O meu menino,às vezes, chega em casa e conta que trabalhou fazendo pacotinho de terra, a professora traz uma caixa de terra e eles vão enchendo os pacotinhos, onde vão ser colocadas as sementes”, diz.

A mãe conta orgulhosa que o filho gosta muito de música ama tocar gaita de boca e acordeom.

Segundo Anna o carinho que ela recebe do filho paga todas as dificuldades que ela passou causadas pela síndrome. “Ele é muito carinhoso, ele chega da escola já me chamando: ‘mãe querida, cheguei’. Quando a gente vai dormir ele fica me chamando: ‘mãe, mãe você gosta de mim, porque eu gosto de você’. Ele é muito amoroso”, conta Anna emocionada com o amor que o filho transmite a ela.

Com o passar dos anos Anna deixou de querer tanto a “Itália” e passou a valorizar as belezas da “Holanda”, começou a aproveitar a viajem, começou ter muitas descobertas e hoje se maravilha com as surpresas que esse novo mundo lhe trouxe.

Texto/Fotos: Silmara Andrade/Hoje Centro Sul

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