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Edição 1050 - Já nas bancas!
09/03/2018

Desigualdades entre homens e mulheres ainda permanecem, segundo estatísticas

Desigualdades entre homens e mulheres ainda permanecem, segundo estatísticas

As mulheres são 51,5% da populaçãobrasileira e representam 57,5%dos universitários no país.  Entretanto, ganham 22,9% a menos do que os homens e as desigualdades relacionadas à questão gênero podem ser percebidas em diferentes aspectos, como violência e pouca participação na política. A psicóloga do Núcleo Maria da Penha da Unicentro, Alana Rocha Loures Goetten, e os estudantes do curso de Psicologia, Fernanda RibeiroFeola e Julia Beatriz Martins de Geus, comentam, neste Dia Internacional da Mulher, alguns dos desafios que ainda existem, apesar dos direitos adquiridos ao longo dos anos e dos novos papéis femininos na sociedade.

Mulheres são maioria

A maioria da população brasileira é formada por mulheres, segundo revela a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) 2016, divulgada no ano passado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Elas representam 51,5% da população, sendo que os homens são 48,5%.

Mas mesmo sendo maioria, ainda há desigualdade. Segundo a psicóloga, os estudos de gênero já constataram as desigualdades através de diversas estatísticas. “Essas desigualdades são fruto das construções sociais e das relações entre homens e mulheres face à distribuição de poder. Portanto, as desigualdades de gênero ocorrem pelas construções de gênero, como por exemplo, os papeis de gênero, que se referem às atitudes e saberes esperados de homens e mulheres, como o pressuposto de que as mulheres são mais frágeis e sensíveis, enquanto os homens são mais fortes e mais inteligentes”, disse.

Elas são maioria nas universidades

As mulheres também são maioria nas universidades, segundo o Censo da Educação Superior. Em 2016, 4,6 milhões de mulheres estavam matriculadas em cursos superiores presenciais ou à distância. Os homens eram pouco mais de 3,4 milhões nas universidades.

Para Alana, a grande presença das mulheres do ensino superior não deixou que situações de desigualdades do cotidiano fossem reproduzidas nas instituições. “Claro que o fato de sermos maioria é uma conquista muito importante, porém, não podemos esquecer que uma grande parcela dessas mulheres vive dupla, tripla jornada de trabalho no dia, muitas vezes de empregos que não são valorizadas financeiramente e depois em sua casa, normalmente cuidando dos afazeres domésticos e da criação dos filhos. O machismo está nas estruturas da sociedade, o que significa que ele não deixa de existir na Academia, e as mulheres continuam vivendo violências por serem mulheres, mesmo em um ambiente que na teoria seria mais aberto e igualitário. Nesse ambiente, as mulheres sofrem assédio, violência moral e deslegitimação de suas ideias, por exemplo”, disse.

Renda ainda é desigual

Apesar de ser a maioria nas universidades, a renda ainda é desigual para as mulheres. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do IBGE, divulgada ano passado, mostrou que em média as mulheres recebem 22,9% a menos do que os homens. Em 2016, o salário médio das mulheres era de R$1.836 e o dos homens era de R$2.380.

“Uma explicação para esse fenômeno é possível se pensarmos o machismo e a dominação masculina com base na divisão do espaço público e privado: às mulheres sempre foi designado o pertencimento do espaço privado (cuidar da casa, cuidar dos filhos), enquanto ao homem o espaço público (o trabalho). Com a entrada da mulher no mercado de trabalho, cria-se a falsa impressão de que as mulheres avançaram no espaço público e tem o poder de livre circulação, no entanto, a sociedade dispõe de estratégias para manter essa dominação, e uma delas é, de fato, as mulheres ganharem menos que os homens”, relata a psicóloga.

Feminicídio

Em 2016, uma mulher foi assassinada a cada 2 horas, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Ao todo, foram 4.606mulheres assassinadas. Dessas, apenas 621 casos foram classificados como feminicídio.

Criada em 2015, a Lei do Feminicídio (Lei nº 13.104/2015)tem sido aplicada aos poucos ainda no país. “O feminicídio é o termo empregado para designar o assassinato de uma mulher pelo simples fato de esta ser mulher. Ele normalmente ocorre pelas mãos de seus companheiros ou ex-companheiros e abrange 35% de mortes totais de mulheres.”, conta a psicóloga.

Segundo ela, a lei ainda é contestada pela população. “Muitas pessoas querem contestar essa lei usando o argumento que homens são mais assassinados do que as mulheres. Porém, para esse tipo de discussão é necessário realizar um recorte. Os homens que estão morrendo, estão morrendo não por conta de serem homens, mas são homens pobres e normalmente negros, estão sendo mortos por outros homens. Aqui a questão é desigualdade social, mas no caso das mulheres, a discussão é sobre gênero, pois é considerado que mulheres têm menos direitos que homens, que pertencem aos seus companheiros e por isso ele pode escolher sobre suas decisões, inclusive o direito de sair de uma relação. E são mortas muitas vezes, como prova simbólica que não podem decidir por si mesmas”, comenta.

Violência

Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), de 2014, com base em números do Sistema de Informação de Agravos de Notificação(Sinan), de 2011, mostrou que 88,5% dos casos de estupro foram em mulheres e apenas 11,5% em homens. Mais de 70% dos estupros vitimizaram crianças e adolescentes.

O Instituto Maria da Penha compilou dados da pesquisa do Datafolha de 2017 e organizou o site Relógio da Violência (http://www.relogiosdaviolencia.com.br). O site mostra a frequência de violência na sociedade brasileira. Segundo o site, a cada 2 segundos, uma mulher é vítima de violência física ou verbal; a cada 6.3 segundos, uma mulher é vítima de ameaça de violência; e a cada 16.6 segundos, uma mulher é vítima de ameaça com faca ou arma de fogo.

De acordo com a psicóloga, as estatísticas resultam de diversos fatores como o poder do homem sobre o corpo da mulher, seu silenciamento e a culpabilização da vítima, que é o ato de culpar a vítima pelo crime. “Se culpabiliza a vítima, não está punindo o agressor, reforçando assim esse problema de ordem pública. Outra questão é validar a voz da vítima, que muitas vezes é silenciada até mesmo em seu ambiente de trabalho, em sua família, no seu círculo de amizade, não encontrando assim apoio para realizar denúncia”, disse.

A psicóloga ainda destaca que há o estupro marital, quando a violência ocorre dentro do relacionamento. “Pode existir força advinda do homem, ou não, em muitos casos existe pressão para que a companheira realize atos sexuais para satisfação do parceiro, mesmo sem vontade. Por trás disso, vem toda uma cultura que prega que a mulher precisa transar com seu companheiro para segurá-lo na relação, ou colocando a obrigatoriedade do sexo em relação às vontades do companheiro”, explica.

Alana destaca que é preciso discutir mais sobre os tipos de violência em todos os setores da sociedade para que o assunto seja mais conhecido, evitando o silenciamento e a estigmatização. “Além disso, a capacitação contínua dos profissionais que atendem esses chamados (como a Polícia Militar, a Polícia Civil, os dispositivos de Saúde e Assistência Social, e os profissionais do Direito) é de extrema importância, porque muitas vezes estes acabam reproduzindo estereótipos que culpabilizam a vítima, e, além disso, podem invisibilizar os dados quantitativos, que são muito valorosos para a implantação de políticas de enfrentamento”, disse.

Machismo em mulheres?

Uma pesquisa do instituto Datafolha, encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), mostrou que dos entrevistados,42% dos homens e 32% das mulheres concordam com a afirmação: “mulheres que se dão ao respeito não são estupradas”. 63% das mulheres discordam.

Segundo a psicóloga, o fato de as próprias mulheres também terem pensamentos que podem ser interpretados como machistas, é na verdade, uma reprodução do que ela viveu até então. “Como o machismo vem de uma construção, essa que coloca a mulher como um ser humano menos humano, menos importante, menos forte, é natural que todos reproduzam o machismo. Quando se coloca que a roupa é a culpada pelo estupro, tira-se a culpa do violador, do estuprador. Existe no imaginário que se você se comportar da forma esperada de uma mulher, você está livre de viver algumas violências, como a violência sexual e a física. Os dados nos revelam que isso não importa. Que se a roupa fosse um estimulador, freiras não viveriam estupros. Estupro não tem relação com o prazer pelo prazer, e sim o prazer pelo poder. Não é o ato sexual. É a representação do uso do corpo do outro para marcar, para dizer que o corpo da mulher é objeto de uso do universo masculino”, explica.

Mulheres na Política

O Ranking de Presença Feminina no Parlamento 2017 mostrou que o país ocupa a 115ª posição no ranking mundial de presença feminina no Parlamento. O ranking é organizado pelo Projeto Mulheres Inspiradoras (PMI), com base no banco de dados primários do Banco Mundial (Bird) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

A pesquisa ainda revela que, com exceção das candidatas ao Senado, dentre as candidatas a deputadas federais, estaduais e vereadoras, a média de não eleitas está acima de 90%; 32,4% tiveram até 10 votos válidos, das quais 38% tiveram 0 votos. As mulheres ocupam 7.824 das cadeiras do Poder Legislativo municipal em todo o país – 14% do total ou 3,8 vereadoras eleitas a cada 100 mil habitantes.

A psicóloga destaca que essa contradição – maioria dos eleitores; mas minoria de representantes – é algo histórico. “Quando pensamos na história, percebemos uma separação da mulher com a política, o que pode ser percebido pela demora na aquisição do direito ao voto das mulheres e direito de serem votadas, que foi garantido somente em 1946. Em 1995 foi aprovada uma cota mínima de 20% para candidatas mulheres – o que, em teoria, podia “estimular” uma maior participação. Em 1997, foi votada uma nova legislação eleitoral, que assegurava uma cota mínima de 30% e máxima de 70% para ambos os sexos, a partir das eleições de 2010 – mas as cotas são somente para as candidaturas, não para de fato a eleição.”, relata.

Segundo ela, há diversos motivos para esse cenário. “Os motivos são muitos para inserção das mulheres na política ser baixa. Um estereótipo, já mencionado, que auxilia isso, é o da mulher como reprodutora, confinada na esfera doméstica. Isso afastou e afasta a mulher da esfera política e das funções civis. E isso acarretou outra questão, também histórica, que é o fato das mulheres terem sua inserção no mundo do trabalho muito mais tardia do que os homens – o que só foi possível após a Revolução Industrial”, comenta.

Para conseguir encontrar soluções, ela destaca que é preciso pensar em todo o trajeto da mulher na sociedade. “É imprescindível refletir todo o trajeto histórico que levou ao que temos hoje, e assim podemos pensar em maneiras efetivas – e não só na teoria – para que mulheres possam se vincular à política”, relata.

Texto: Karin Franco/Hoje Centro Sul

Foto: Pixabay

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