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Edição 1017 - Já nas bancas!
21/12/2017

Papais Noéis de verdade: uma vida dedicada ao próximo

Papais Noéis de verdade: uma vida dedicada ao próximo

Papais Noéis de verdade: uma vida dedicada ao próximo

Com o mês de dezembro, o espírito natalino de ajudar o próximo desperta nas pessoas em todo o mundo. Ações como doar um tempo da sua vida para o outro, estar com as portas abertas para quem necessita ou olhar para o próximo e compartilhar o que se tem se espalham ao redor do mundo.

Representado o espírito natalino, o Papai Noel é conhecido por dar presentes e balas às crianças. A figura é inspirada em São Nicolau, santo que em vida teria se dedicado à caridade.

Mas há quem encarna a figura da doação ao próximo como uma missão e dedica seu tempo a quem precisa durante todo o ano, e não apenas no Natal. Uma delas é Vera Maria Gabardo. “Vou até o fim da minha vida ajudando o próximo. Essa é a minha missão e sempre será”, diz.

Vera é voluntária da Pastoral da Criança da Paróquia São João Batista, da Vila São João em Irati, mas antes mesmo de dedicar a sua vida para as crianças, o espírito de ajudar o próximo já existia. “Sempre procurava famílias no Natal, grupos. Sempre tentei ajudar”, disse.

A vontade de ajudar criou até um costume onde ela mora. Tradicionalmente, ela deixa uma caixa em frente à sua casa com roupas e brinquedos doados, disponível a quem quiser pegar. “Eles já sabem. Se ponho na calçada, pode levar”, relata.

A ajuda constante aumentou quando ela entrou na Pastoral da Criança, da igreja da Nossa Senhora da Luz, em Irati. Nesse momento, ela começou a dedicar a maior parte da sua ajuda a crianças carentes.

É através da Pastoral que ela realiza todo mês um dia especial para o cuidado das crianças na paróquia da Vila São João. A programação começa com a tradicional pesagem das crianças cadastradas na Pastoral. Vera ainda conversa com as crianças para saber como estão.

Depois, todos ainda recebem uma sopa feita através de produtos doados pela comunidade. A Pastoral ainda disponibiliza mais uma refeição que pode ser levada para casa. Ao todo, são mais de 100 refeições feitas no dia.

A Pastoral também oferece neste dia um bazar de roupas, onde as pessoas podem pegar peças de roupas que estão precisando, sem precisar pagar nada. “Elas entram na salinha e elas levam roupa para a família inteira. Quando elas têm na casa delas de sobra, elas me devolvem e vão repassando. Quando sobra muita roupa, eu dou para outra instituição”, conta Vera.

O bazar fez com que a própria comunidade visse a casa de Vera como referência na doação de roupas. “Quando chego na minha casa e está um saco de roupa, eu não pergunto para quem é, eu sei que é para a Pastoral, então já faço a doação”, disse.

Quando chega o Natal, as crianças também recebem uma programação diferente como aconteceu na quinta-feira (14), na paróquia da Vila São João. “Eu não tinha um centavo para fazer o Natal deles porque a verba que vem da Diocese é irrisória, então não dá nem para pensar no bolo. Deixei para a última semana porque estava com problema bem crítico de doença. Pensei: ‘Na última semana vou resolver’. Graças a Deus a gente doou mais de 70 brinquedos novos e também arrecadei usados. Eles levaram tudo o que queriam de usados, pensando que iam ficar naquilo, e daqui a pouco o Papai Noel chegou com mais de 70 brinquedos novos”, conta alegremente.

Para ela, é difícil ensinar alguém a ajudar o próximo porque é algo que está dentro de cada um. “Isso está dentro de cada um. Eu tenho muitas pessoas que me dão a doação e dizem que não tem coragem de dar para a pessoa. Acho que isso está dentro de cada um. Essa vontade de dividir com o próximo o que você tem”, relata. “Se tivessem mais Veras, mais Marias, em cada bairro, acho que não teria pessoas carentes”, disse.

Vera comenta que é preciso que as pessoas conheçam grupos que já estão ajudando e conheça como é o trabalho, para tentar encontrar aquilo em que ela poderá se comprometer. “Entre num grupo. Procure a paróquia do local. Procure o Cras. Procure alguma instituição que cuide dessa parte. Tente entrar em alguma pastoral, hoje tem a Pastoral Familiar, tem a Pastoral do Doente, tem várias pastorais. Ver onde se enquadra melhor, porque cada um é cada um. Tem que se encontrar. Não fique apenas na doação do alimento, da roupa, mas entre num grupo. Conheça mais a comunidade”, aconselha.

Benzedeiras

Invisíveis por muito tempo quanto ao reconhecimento de suas ações, essas mulheres foram o único recurso terapêutico para moradores de lugares remotos. Nas benzedeiras, encontravam conforto e alívio para males que os afligiam.

A pesquisadora e professora Vania Vaz estudou as experiências de vida dessas mulheres benzedeiras. O trabalho publicado em 2005 revelou a história de diversas benzedeiras de Irati, histórias diferentes de mulheres com um mesmo perfil: mais de 60 anos, que não cobravam pelos benzimentos e estavam disponíveis para ajudar a qualquer momento.

Segundo Vania, as benzedeiras encaram suas atividades como uma missão de vida. “Encaram o dom de benzer como uma missão de vida, geralmente relacionado com um ‘milagre’, ou algo impactante em suas vidas: a descoberta do dom. Por exemplo, uma mãe, longe de qualquer tipo de recurso ou qualquer outra pessoa, ao ver seu filho muito doente, faz uma oração, essa criança melhora e ela descobre seu dom, por meio de determinada oração. E outros tipos de missão quando esses saberes são praticados por alguém da família, geralmente outras mulheres, como a avó ou mãe, e esta mulher assume a missão do benzer como um legado familiar, um compromisso com a continuidade dessa prática, os benzimentos como tradição”.

A pesquisadora explica que as benzedeiras se reconhecem como intermediárias de um processo de cura e que por isso devem ajudar o próximo. “Ali, elas estão pedindo por aquela pessoa e pedindo em nome de entidades divinas. Muitas benzedeiras afirmam que não são elas que curam, são mediadoras. É o pedido de oração com muita fé que resulta na cura”, explica.

Vania destaca que muitas benzedeiras atuam no acolhimento, especialmente porque muitas 'doenças' são tidas como males emocionais. “Na nossa região existe a prática de benzimento para 'susto'. Quando as crianças ficam agitadas/assustadas e para isso fazem um benzimento, geralmente um ritual com cera de abelha. Mas existe a doença susto? Existe um remédio para susto? O que existe é esse acolhimento da benzedeira, essa conversa com a mãe, a oração, aquele chazinho recomendado, uma forma de atendimento que acalma e conforta. As relações de afeto fazem a diferença”, disse.

A proposta de ajuda ao próximo também vem sem requisitos. Vania conta que muitas não exigem que a pessoa que receberá o benzimento tenha fé. Elas confiam no poder do dom. “Elas são muito seguras da fé, independente da crença religiosa de quem vai receber o benzimento. Concentram as melhores intenções positivas em seus pedidos. Cumprem a missão do dom receberam: realizam o ato de benzer e a cura é uma ótima consequência”, conta.

A pesquisadora lembra que essas mulheres dedicam grande parte das suas vidas na missão do benzer e se colocam à disposição para ajudar quem as procuram. “Poucas pessoas param para pensar que muitas dessas mulheres, praticamente todas, abriram por anos e anos as portas de suas casas para receber as pessoas. Deixaram as suas tarefas do cotidiano: ‘Eu estou ali para lhe servir. Vem até mim que te ajudo nisso. Minha fé vai intermediar essa oração, esse ritual vai ajudar você a melhorar’. Isso é um reconhecimento importante de saber o quanto elas abriram a mão de suas vidas pessoais para se dedicar a essa missão do ato de benzer”, explica.

Texto: Karin Franco/Hoje Centro Sul

Foto: Reprodução/Facebook

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