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Edição 1003 - Já nas bancas!
11/08/2017

Gaspar Valenga: Bons exemplos que ficam

Gaspar Valenga: Bons exemplos que ficam

Faleceu nesta segunda-feira (07), um dos mais antigos assinantes do jornal Hoje Centro Sul, o ferreiro e escritor Gaspar Valenga. Aos 94 anos, sempre com um sorriso no rosto, disposição de sobra e apresentação impecável, ele foi entrevistado pela equipe do jornal pela última vez em fevereiro deste ano.  Os relatos de sua experiência de vida que compartilhou conosco, associados à história de Irati e à história do próprio Jornal Hoje Centro Sul deram origem à reportagem “Amor à notícia além da visão”.

Gaspar não era o tipo que se deixava vencer por pequenos problemas, por limitações físicas. Mesmo sem enxergar, toda semana tinha acesso às notícias do Hoje Centro Sul, que pedia a sua filha para que lesse.

Nas solenidades do município, fazia questão de marcar presença. Esteve no Rodeio de Irati deste ano, no domingo, dia 16 de julho. Independente da barreira da locomoção, pedia ajuda dos filhos e netos, pegava a sua bengala e ia, simplesmente ia.  Levava consigo bom humor, leveza e doçura. Tanto no espírito, como nas balinhas que gostava de distribuir.

Para ele, a vida precisava ser vivida de forma simples e é este conselho que dava aos netos e bisnetos. “Eu falo bastante em honestidade, não ser muito ambicioso, trabalhar, continuar, não desanimar nunca, outra coisa que não sei, às vezes me chamam de ultrapassado, não tomo muito remédio, acho que se a gente toma muito remédio a gente envelhece”, disse. “Seja amigo de todo mundo, considere todo mundo como irmão. O que desgasta as pessoas é a inveja”, alerta.

De sua casa, sentiremos saudades do espírito acolhedor e simpático, dos milhares de retratos na parede, lembrando toda a sua trajetória e sua participação na sociedade, na Academia de Letras, Artes e Ciências do Centro Sul (Alacs), na Universidade Aberta para a Terceira Idade (Uati), em momentos históricos de Irati. Fotografias e arquivos, como os três livros publicados – “Irati, Minha Vida: Nossa História”, “1903-2003 Centenário de Riozinho e História de algumas empresas pioneiras de Irati” e “Memórias de um Ferreiro”. Além de mais dois livros não publicados – “Retalhos” e “Contos, Crônicas e Poesia”-, mas que estavam impressos e encadernados em sua estante.

Satisfação

“Eu só sei que a gente estando satisfeito com a vida é uma grande coisa, no meu caso, por exemplo, eu começo a lembrar da minha infância, da minha juventude, como era difícil a minha vida ou a de todas as pessoas naquela época, hoje a gente tem tudo de sobra e tem muita gente que se queixa”, disse.

Para ele, o trabalho de ferreiro que exerceu era um prazer. “Eu ficava ‘faceirão’. Graças a Deus eu tive bastante sorte. Era muito afamado meu trabalho, sabe? Carroça até hoje volta e meia a gente vê, mais idoso no interior, ‘puxa ainda tem aquela carroça’”, afirmou Gaspar, que chegou a fazer mais de 200 carroças, 600 arados novos e 1000 capinadeiras.

Longevidade

“Eu acho que eu tenho essa longevidade com mais condições de vida por causa dessa minha satisfação de vida”, conta. “Eu nunca tive época ruim na minha vida. Houve época assim, se eu for falar financeiramente, eu sempre fui carente, quase sempre, mas sempre alegre e amigo”, contou.

História

Gaspar Valenga nasceu em Irati no dia 19 de abril de 1923, filho de Maria e Leonardo Valenga. Começou a trabalhar desde os oito anos de idade, na lavoura, mas foi na profissão de ferreiro que dedicou grande parte da sua vida, de 1940 a 1990.

O humor sempre foi uma marca de Valenga, como podemos ver no trecho da reportagem “Amor à notícia além da visão”, de 24 de fevereiro de 2017, em que conta sobre a experiência no Exército.

Gaspar Valenga chegou a ser treinado, mas não participou da guerra porque ela acabou antes, como conta de forma bem humorada. “Eu incorporei no dia oito de março de 1945. E daí estava preparado pra ir pras Forças Expedicionárias, já tinham me dado um negócio lá, de por bala e armamento, estava preparado para ir pra guerra”, disse. Abrindo um sorriso, ele continuou a história. “O Hitler descobriu que eu estava pra ir. Daí reuniu as Forças Armadas dele, o Estado Maior, e disse: ‘Tá pra vir aqui pra combater contra nós um tal de Gaspar Valenga, o que vocês acham? Vamos se entregar que com aquele cara não tem quem possa com ele. Daí resolveu se entregar’”, disse Gaspar rindo.

No dia 31 de janeiro de 1948, Gaspar casou com Catarina KobilarszValenga, falecida em 2010. Com ela teve sete filhos: Maria, João, Miguel (in memorian), Francisco, Elza, Ana Roseli e Ana Claudia. Eles lhe deram 12 netos e três bisnetos.

Aposentou-se depois de 50 anos de trabalho, mas isso não fez com que sua trajetória terminasse. Aos 77 anos, começou a escrever os primeiros rascunhos do primeiro livro.

Reconhecimento

- Recebeu o Título de Cidadão Benemérito de Irati, em 1996;

- Participou do livro "Histórias de Vida", coordenado e editado pelo professor José Maria Orreda, em 1999, escrevendo o artigo, "Depoimento para a História de Riozinho";

- É autor dos livros: "Irati, Minha Vida: Nossa História", de 2002; "1903-2003 Centenário de Riozinho e História de algumas empresas pioneiras de Irati, de 2003;"Memórias de um Ferreiro",  lançado em 2OO8;

- Em 2003, foi empossado na Academia de Letras, Artes e Ciências do Centro Sul do Paraná.

- Em 2009 montou uma encadernação denominada "Retalhos";

- Em 2011 recebeu o troféu Colmeia de Ouro;

- Em 2012 recebeu uma homenagem dos professores e alunos do curso de Letras e Inglês e também do Departamento do curso de Turismo da Unicentro;

- Em 2014 recebeu o título de cidadão honorário de Rebouças;

Texto: Redação/Hoje Centro Sul

Fotos: Arquivo/Hoje Centro Sul

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